sábado, 21 de dezembro de 2013

Reabilita-me sff!


Há alguns dias atrás, quando falava com um amigo acerca do abandono a que muitas casas são votadas, surgiu o inevitável argumento do preço deste tipo de casas.
Esta questão é muito subjectiva e leva-nos a longas conversas, que passam pelas questões históricas, culturais, geográficas e outras mais.
Passo então a espicaçar as mentalidades, de forma a promover o debate. Em primeiro lugar, o preço destas casas é muito relativo, já que se ela estiver esquecida no tempo e nos olhares, quem a descobrir e perguntar quanto ela custa, muitas vezes custa dois tostões, isto se o dono for uma pessoa de idade e pouco esclarecida. Ou então se a casa em causa não estiver condenada à ruína total pelo facto de estar em partilhas intermináveis. Se a pessoa a conseguir comprar por dois tostões, facilmente a vai vender por um valor despropositado. Lembro-me de um caso, em que um amigo meu comprou uma casa em ruínas por 14000 euros e passado pouco tempo já tinha uma inglesa a oferecer 40000 pela mesma casa. Surpreendidos?! 
Assim sendo, e desmistificado um estereótipo, vamos lá então ao segundo ponto, ou seja o preço da reabilitação das mesmas. Obviamente que havendo poucas empresas dedicadas à reabilitação destas casas, os preços não são os melhores, mas mesmo assim é algo de natural, pois se não há muitas empresas no ramo, os preços inflacionam. Depois há uma outra questão, o de querer tudo feito, de poucos serem aqueles que sabem fazer algumas coisas no domínio da reabilitação, ou seja, poucos são os que sabem ou querem meter a mão na massa, preferindo comprar tudo feito. Há quem não saiba pegar num martelo.
Surge então o estereótipo das divisões, onde ficamos muitas vezes reféns do que os outros pensam e não do que gostamos, preferindo nós sermos levados pela opinião dos outros e não pela nossa. Divisões a mais, nada de open spaces e por aí adiante. Curiosamente, ou não, as pessoas mais satisfeitas são aquelas que recuperam estas casas ao seu gosto e não a gostos impingidos.
Poucos são os que imaginam que, ao mesmo preço de uma casa ou apartamento feito de raiz, conseguem ter uma casa destas recuperada. Essa é a realidade de hoje em dia. Há uns anos era diferente, eu sei, mas estou a falar da realidade actual. Os tempos são outros, os materiais e tecnologias são outras.
Não há nada que se compare a uma casa destas recuperada, nem mesmo uma casa feita de raiz. Estas casas antigas têm alma e história. Além disso muitas vêm com terrenos agricultáveis, com uma paisagem viciante, com rebanhos por perto, com árvores de fruto e com muito mais. Convencidos?!
É tudo uma questão de opção perante a vida, de não nos deixarmos subjugar a interesses económicos que querem que nós fiquemos entre 4 paredes, bem pertinho de outras 4 paredes, de forma a estarmos mais expostos a um sistema que vive apenas do consumismo bacoco.
Lembrem-se que muitas vezes os preços absurdos que algumas destas casas se devem a nós mesmo, pois numa primeira fase desprezámos estas casas (a cidade ou vila é que é...), não lhe reconhecendo valor e depreciando-as e depois, numa fase de revivalismo, começamos a dizer que estas casas é que valem a pena (vamos voltar para o campo que é que é...).
Naturalmente que nem sempre estão reunidas as condições para algumas pessoas reabilitarem estas casas, mas há muitas outras que poderiam. Dá que pensar, ou não?!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Sobre as tentativas de tramar o azinheiragate...

À medida que o azinheiragate vem ganhando o seu espaço e maior visibilidade, maior se tem tornado o ódio de alguns interesses económicos e políticos perante este blog e perante o gestor do mesmo. Compreendo perfeitamente, já que afinal o azinheiragate faz mossa quando aborda questões polémicas e tem impacto quando mostra as mais valias desta região, facto que é cada vez mais temido por quem quer mal ao azinheiragate. O azinheiragate é uma referência, pela positiva, é essa a questão que tanto assola gente mesquinha.
Desde o seu início que surgiram ameaças, mas apenas em 2012 a coisa ficou mais séria, já que às ameaças, juntaram-se mais ameaças e tentativas desesperadas que lembram o tempo do lápis azul, do tempo da ditadura. Desta vez o lápis é pintado com uma cor alaranjada, a qual cobre o lápis podre.
Em 2012, depois de uma entrevista à RTP, iniciou-se um ataque a várias frentes, tendo todos o mesmo objectivo, o de calar e descredibilizar o azinheiragate e o seu gestor. Não vão conseguir meus caros, lamento desapontar-vos. Quanto mais me tentam prejudicar de forma desonesta, mais forte eu me torno.
Ainda em 2012, surgiu um primeiro ataque, o qual foi em modo "invisível" durante alguns meses (até que alguém abriu a boca cedo de mais...). Curiosamente surgiu depois da entrevista ao programa Biosfera, da RTP2. Depois seguiu-se uma outra tentativa de ataque a qual passo a descrever agora.
Já este ano, dias após uma oligarquia ter ficado indignada com o facto de mais um Jornal da região me ter entrevistado, surgiu no meu e-mail uma mensagem que me intrigou, já que, feita uma  análise criteriosa, detectei ali algumas falhas que me levaram a suspeitar do conteúdo da mensagem.


Já por várias vezes ajudei pessoas, as quais não querendo denunciar factos concretos e gravosos acerca do património natural, vieram a pedir-me ajuda de forma anónima. Uma das vezes a denúncia surgiu por carta e, depois de eu indagar, confirmei os factos e efectuei e denúncia. Desta vez, a denúncia foi por mail.
Obviamente que tenho cuidado redobrado quando recebo denúncias anónimas, já que pode surgir algum espertinho que me queira mal, que pretenda que eu meta o pé a argola e depois puxe a corda. No entanto eu sou muito cuidadoso e não caio em manobras guiadas por maçaricos. Detectei alguns factos, nomeadamente incongruências, caso da pessoa utilizar por um lado o acordo ortográfico e por outro errar de forma gravosa na gramática.
Como sou uma pessoa bem relacionada, pedi aconselhamento a quem de direito. Das várias pessoas e entidades a que pedi ajuda, uma delas ajudou-me a descobrir que as placas de lusalite foram devidamente encaminhadas, o que confirmou que este mail era mesmo uma armadilha para me tentar tramar.
Não compreendo como é que há pessoas que pensam que eu faço as coisas de forma amadora, denunciando sem factos gravosos concretos e sem provas físicas. Nunca o fiz e nunca o farei, daí ter sucesso nas denúncias, as quais já fizeram com que o Estado encaixasse mais de uma centena de milhar de euros. Este é o problema desta gente, sabe que eu faço mossa de forma honesta e como não me consegue encostar às boxes, tenta manobras anedóticas para me tentar descredibilizar e prejudicar.
Depois desta situação fiquei ainda mais atento, sabendo que já fui alvo de várias ameaças, uma delas na forma tentada. É curioso o facto destas ameaças e manobras surgirem sempre do mesmo quadrante...
Já depois deste segundo ataque, surgiu na minha caixa electrónica, uma mensagem ameaçadora:



Não conheço o indivíduo em causa, nem sei ao que se refere, mas o mesmo nem se deu ao trabalho de esconder o seu endereço, pois bastou pegar no seu mail e colocar no google para saber o quadrante onde este vive. Naturalmente que será de alguma situação grave que terei denunciado e ao qual não é alheio.
E não são situações únicas, havendo, por exemplo, uma outra, de alguém que, assediando, se faz passar por quem não é. Há de tudo, embora o objectivo seja comum...
Posso dizer que foi um 2013 em beleza e que 2014 será a natural continuação de um ataque covarde de quem não tem argumentos para contrariar o exercício da minha cidadania activa. Fico à espera dos próximos episódios.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A chave do Imposto Municipal sobre Imóveis - IMI


Nas últimas semanas têm saído várias notícias acerca da descida do IMI que incide sobre o edificado nas zonas históricas dos vários concelhos da região de Sicó. O objectivo é simples, o de "piscar o olho" a quem tem edifícios antigos, de forma a que eles acabem por ser recuperados. Será a descida do IMI a chave para o futuro?
É uma iniciativa louvável, no entanto, pergunto eu, porque é que não fizeram isto mesmo à coisa de 15 ou 20 anos, aquando dos PDM´s de primeira geração?
A resposta é simples, é que foi muito mais fácil e apelativo promover novas construções, disseminadas um pouco por todo o lado. A prioridade era apenas uma, construir de raiz. Eram tempos de vacas gordas e nessa altura não era sequer prioridade baixar o IMI sobre os edifícios devolutos das zonas históricas. O resultado foi o que está à vista em vilas como a de Ansião, Alvaiázere ou na cidade de Pombal, entre outros.
Importa referir que parte significativa das receitas que entraram nos cofres das respectivas autarquias, provêm do IMI, daí que as autarquias não estivessem propriamente interessadas em baixar o IMI. Agora que o tempo é de vacas esqueléticas é que surge uma iniciativa que apesar de louvável, peca por demasiado tardia e desesperada, pois isso deveria ter sido feito à muito, mas muito tempo, com tudo o que isso poderia ter significado em termos de desenvolvimento territorial.
Promoveu-se a especulação imobiliária, através da reclassificação de solos, feita nos PDM´s, o que resultou em enormes lucros para as empresas de construção civil, algumas delas abertamente apoiantes dos autarcas no poder (já que participam recorrentemente com camiões da empresa nos respectivas caravanas em tempo de campanha...). 
Extensas áreas de terrenos com aptidão agrícola, foram reconvertidos, em sede de PDM (na década de 90) em áreas urbanizáveis, o que além de grave, é muito preocupante do ponto de vista do desenvolvimento territorial. 
Vejo com alguma relutância esta medida, não porque seja má (é boa), mas sim pelo facto de ser tardia e, daí, os efeitos esperados me parecerem escassos no curto e médio prazo. Deveriam ter sido tomadas medidas há mais tempo e não apenas a descida do IMI. Deveriam ter sido esboçadas estratégias nos primeiros PDM´s para que não se chegasse a este ponto. Mesmo nos PDM´s de segunda geração, em preparação, continua ausente uma estratégia séria e descomprometida com o sector da construção civil. Não se pensa uma estratégia a médio e longo prazo, vai-se sempre pelo mais fácil, o curto prazo, o que acaba por ter consequências muito negativas e, aliás, à vista de todos.
Bons profissionais, de áreas como a minha, sempre alertaram que era fundamental apostar na reabilitação do edificado, fosse ou não das zonas históricas, mas ninguém da política quis saber. Havia que alegrar o sector da construção civil, o qual dependia exclusivamente da construção de raiz. Este sector nunca quis verdadeiramente saber da reabilitação, e nos últimos anos pagou bem caro essa desatenção. Agora este mesmo sector diz que a reabilitação é o futuro, imagine-se terem descoberto a pólvora...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Lavadouros de Sicó


Penso que é mesmo a primeira vez que abordo directamente a questão dos lavadouros públicos da região de Sicó, onde, teoricamente, se procede à lavagem manual da roupa.
É mais um daqueles pormenores deliciosos com o qual esta região nos brinda. Apesar de já muito pouco utilizados, ainda subsistem alguns destes lavadouros, uns recuperados nos últimos anos. Infelizmente são escassas as iniciativas que visam o relembrar desta prática ancestral, daí o azinheiragate abordar esta temática. Quando digo relembrar, obviamente que não me refiro à lógica circense que muitas vezes popula o lembrar do antigamente.
Todos conhecemos algum lavadouro na nossa vila ou num dos nossos lugares, mas, genericamente falando, poucos são os que conhecem os lavadouros das outras vilas ou dos outros lugares. Este, na fotografia, fica em Condeixa, num lugar "perdido" da vista de muitos de nós. Só quem gosta de andar pelos belos lugarejos de Sicó encontra estas preciosidades. Esta, em especial, tem um complemento bem catita, ou seja aquele poço ali mesmo ao lado dos tanques.
Muito mais haveria a dizer sobre isto, mas, para já, fica o convite à reflexão!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

É isso mesmo!


Quem, como eu, se deliciou em outros tempos a jogar ao berlinde, ficará concerteza contente ao ver esta fotografia, a qual nos transporta, que nem máquina do tempo, para as décadas de 80 e início da década de 90. Digam lá que não sentem algo de mágico?
Foi há umas semanas atrás que, ao passar por uma loja, daquelas bem antigas, me deparei com um saco de berlindes na montra. Entrei logo, cheirava a mofo, algo de normal tendo em conta a idade da loja. Soube muito bem, confesso, melhor ainda depois de falar uns longos minutos com o senhor da loja, sobre os tempos de antigamente. Aprecio bastante investir tempo a falar com os anciãos, ou seja aquelas pessoas já de idade avançada, que têm muito para partilhar e poucas pessoas novas com quem partilhar conhecimento muito importante. O pessoal de hoje em dia não valoriza este conhecimento antigo, o que é pena.
Estes berlindes ainda são daqueles fabricados em Portugal, facto que é de salientar, pois não são daqueles made in China.
Há meses atrás falei de um outro jogo, o do pião, mas agora decidi falar de berlindes, imagine-se. Já pensaram oferecer berlindes aos mais pequenos, em vez de um qualquer brinquedo sem alma, feito noutras paragens? Oferecer um berlinde é algo que é bem mais interessante do que se possa pensar. Os miúdos têm de sair de casa, entre paredes, e ir para um terreno qualquer, ao belo ar livre. Aí têm de ver se o substrato é rijo ou mole, de modo a fazer 3 buracos para jogar. Acabam inevitavelmente por ver o tipo de solo, se há raízes que perturbem as jogadas e se há alguma bicharada no solo. Em vez de brincarem apenas, brincam e aprendem. Como podem ver, jogar ao berlinde é tudo menos inocente.
Preocupa-me que, cada vez mais, os miúdos joguem quase que apenas no mundo virtual, sem contacto com realidades fundamentais. Preocupa-me que muitos pais se esqueçam daqueles momentos que valiam mesmo a pena, como era jogar ao berlinde. Agora, muitos destes, em vez de levar os filhos para o mundo real, levam os filhos para o mundo virtual, entre paredes. Para eles é mais cómodo ver um filho sentado num sofá ou cadeira, pois assim não dão tanto trabalho. O problema é, passados alguns anos, o que um filho se torna, por vezes uma pessoa desprovida de sabedoria e conhecimento sobre o mundo real, sem o qual não existiria. 
Agora que uma época festiva se aproxima, lembrem-se deste e de outros jogos tradicionais. Prescindam de brinquedos da treta, vendidos por multinacionais que pretendem apenas o lucro. Comprem berlindes, piões e muito mais, pois além de estarem a apostar em algo pedagógico, estão a apostar em algo que dá emprego aos poucos portugueses, teimosos, que ainda fazem questão de fabricar brinquedos à antiga.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Serra do Anjo da Guarda?!


Confesso que fico incomodado quando oiço alguém dizer "Serra do Anjo da Guarda", não por si mesmo, mas pelo facto da Serra do Anjo da Guarda não existir. Existe sim a Serra da Portela, que há vários anos e de forma errónea as pessoas denominam como Serra do Anjo da Guarda.
Enquanto geógrafo não posso deixar passar esta questão, já que se impõe um esclarecimento cabal de que esta serra é a Serra da Portela.
Mais incomodado fico quando oiço e vejo a Câmara Municipal de Ansião difundir este equívoco geográfico, sinal de pouco esclarecimento sobre a situação. Espero que com este comentário de esclarecimento a mesma comece a corrigir este erro comum nos documentos e plataformas digitais da sua responsabilidade.
Deve ser curioso uma pessoa de fora, munida de uma carta militar, num passeio qualquer, ir em busca da Serra da Portela e, ao perguntar por esta, apenas os mais velhos saberem onde é, pois os mais novos e outros ainda pouco informados, sabem apenas onde é a Serra do Anjo da Guarda, serra esta que não existe...
Fica então o esclarecimento.
Para quem tem dúvidas, aqui fica um excerto, digitalizado, do meu exemplar da Carta Militar nº 275:

Fonte: IGEOE

Como podem observar, com base na cartografia oficial, de Anjo da Guarda existe apenas o miradouro e a capela, portanto agora não há desculpas para utilizarem outro topónimo que não "Serra da Portela". Uma das melhores formas para conhecer o nosso território é mesmo comprar as cartas militares respectivas (eu tenho as de Ansião e há anos atrás ofereci outras (4) aos Bombeiros Voluntários de Ansião). São baratas, elucidativas e não induzem em erro. 
Agora façam-me um favor, especialmente os ansianenses, difundam este esclarecimento, por favor!

domingo, 24 de novembro de 2013

Sicócartoon: crónica das espécies autóctones


Uma coisa é a teoria, outra coisa é a prática. Uma coisa são as políticas que se anunciam, outra coisa são as políticas que se concretizam. Em plena semana da reflorestação nacional, urge pensar como é que tendo a região de Sicó mais valias extraordinárias no domínio da floresta e da biodiversidade, como é o caso da Rede Natura 2000, através do Sítio Sicó/Alvaiázere e da maior mancha de carvalho cerquinho da península ibérica, esta mesma região continua a privilegiar, na prática, o eucalipto. Parafraseando um colega meu, a Rede Natura 2000 e o carvalho cerquinho, entre outras espécies, são meros verbos de encher, acrescentando eu verbos de encher chouriços.
É certo que todos vamos vendo iniciativas que visam plantar espécies autóctones, no entanto muitas destas acções não são consequentes com as estratégias locais e regionais, sendo até, por vezes, mero greenwash, como já se assistiu em larga escala em Ansião. Noutras paragens, segue-se a mesma linha e igualmente com pés de barro.
Já me tinham proposto este cartoon há uns meses, tendo eu guardado o mesmo para o momento certo, este. Um "mero" cartoon torna-se agora uma imagem poderosa sobre a qual importa reflectir. Agradeço mais uma vez a "SC" pelo cartoon.
Em geografia damos sempre um exemplo sintomático daquilo que pode representar um perfeito engano. Imagine-se uma pequena área de floresta autóctone, imagine-se que, depois de destruída, ali surge um empreendimento imobiliário, o qual se diz verde e, para o demonstrar, cria uma extensa área de relvado (sem valor ecológico algum) em redor dos prédios ou vivendas. Será que um relvado é mais ecológico do que uma área outrora natural e que foi destruída para dar lugar à especulação imobiliária?
Voltando à realidade, para que é que nos continuamos a deixar enganar por acções que são meros verbos de encher? Porque é que a esmagadora maioria de nós se lembra das espécies autóctones num dia em especial, mas no resto do ano esquece-se das mesmas? Quantos de vós são consequentes no que dizem, tal como eu? Porque é que aceitamos que nos "ofereçam peixe em vez de lições de pesca"? E porque é que gostamos de ser "enganados" durante 364 dias por ano? (ou 365 dias em anos bissextos?). Enquanto nos deixarmos manipular por interesses políticos e económicos, as coisas continuarão na mesma, daí ser perfeitamente natural que, por vezes, se promova acções de reflorestação em áreas ardidas, precisamente aquelas que arderam também devido ao abandono dos terrenos e respectiva falta de limpeza, devido à incúria de políticas que manipulam mapas de risco de incêndio e que votam estas mesmas áreas, valiosas do ponto de vista ecológico, ao desprezo. Teimamos em olhar para o que nos apontam, deixando de olhar a coisa no seu todo, facto altamente problemático.
E não, este não é um comentário azedo, é sim um comentário realista perante uma realidade complexa. O cenário que a política tenta pintar é uma farsa, a qual importa desmontar, daí esta comentário cheio de ironia e sátira política. Quem está por dentro da realidade, compreenderá este meu comentário.
Há interesses políticos e económicos, ambos predatórios, que aproveitam descaradamente a boleia de iniciativas meritórias como são a Semana da Reflorestação Nacional e o Dia das Espécies Autóctones.
Quanto às iniciativas meritórias, felizmente que estas têm ganho força, algo que representa uma mais valia imensa nesta dura luta contra visões de desenvolvimento estereotipadas, que sacrificam a qualquer custo o nosso património florestal. Não é por acaso que poucos meses após o Sobreiro ter sido considerado Árvore nacional, as leis que protegem esta mesma árvore estão em vias de ser aligeiradas. Isto já para não falar de outras espécies autóctones, caso do carvalho cerquinho e das azinheiras. Tudo está a ser feito pelos interesses económicos predatórios para que as barreiras que protegem as espécies autóctones sejam derrubadas. Se não preservarmos o que já temos, de pouco vale andarmos a plantar árvores que à partida já estão condenadas a prazo, é uma realidade que ninguém conseguirá escamotear.
Quanto ao dia de ontem, o dia das espécies autóctones, fiz parte dele, plantando 40 carvalhos alvarinhos em pleno Parque Nacional da Peneda Gerês. Porque não o fiz na região de Sicó? Simples, em primeiro lugar porque não estava por ali, depois, porque já ali plantei algumas dezenas e todos eles foram arrancados por caçadores...

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Carroça-te Sicó!


É daquelas fotografias que falam por si. Há momentos que gosto de registar para a posterioridade e, por vezes, utilizar em alguns dos meus comentários aqui pelo azinheiragate.
Não me admira que o (muito) que resta desta carroça esteja brevemente ali num qualquer jardim de uma casa, como que se de um troféu se tratasse. São vários os exemplos de objectos como este que populam os jardins das casas de pessoas que pensam que, assim, dignificam o objecto em causa, que pensam que a utilidade dele é estar ali parado, sem utilização, à chuva, à espera que aquele do dia em que já não sirva sequer para mostra pseudo-etnográfica e siga para lareira.
Quantos são aqueles que pegam nesta carroça e a recuperam, dando-lhe utilidade, embora não a utilidade circense que, por vezes, se vê? Quantos são aqueles que a recuperam e a utilizam, nem que seja alguns fins de semana, com os familiares? Claro que isto significa que é preciso o burrico para puxar a carroça, mas estou apenas a desconstruir uma realidade e a construir uma outra. Sim, isto é possível, no entanto o pessoal contenta-se com a memória do objecto, daí a lógica do objecto no jardim à frente da casa, para toda a gente ver. Eu só me contento com a recuperação da carroça, com a vinda do burrico, com o regresso à terra e aproveitamento dos terrenos abandonados. Viver com calma e qualidade de vida é o mais importante. 
Já repararam como daquelas coisas que até gostamos de pensar que queremos fazer, raríssimas são aquelas as que levamos à prática? Somos levados por uma sociedade formatada, onde o comprar, comprar e comprar é que conta, onde a lógica do pseudo-desenvolvimento surge pelo consumismo e só se avança se se consumir mais e mais. É um modelo esgotado que continuamos cegamente a seguir, muitas vezes não pensando nos factos e nas consequências.
Não pensamos em recuperar nem mesmo em inovar. Há ideias para todos os gostos, desde o recuperar a bela da carroça, comprar o burrico e dar uso à carroça, dignificando o burrico e dando-lhe as devidas condições. Passeios de carroça, asinoterapia, são apenas alguns exemplos mais comuns. Há outras ideias, que assim de repente me lembro, mas pensando melhor, vou guardar a ideia que tive agora mesmo para um projecto a desenvolver nos próximos meses. Um brainstorm apanhou-me desprevenido, confesso... 
Voltando à carroça, já pensaram que quanto mais depressa andamos, menos tempo temos para nós e menos felizes somos? Hoje em dia falta algo de essencial, o parar para ponderar calmamente. Uma das melhores coisas que poderíamos fazer ao passar por ali, no local da foto, seria parar e entrar na carroça, que nem máquina do tempo. Sentados ali as ideias fluem de uma outra forma, isso é certo, já pensaram nisso? E que tal um destes dias, ao se depararem com este ou outro objecto etnográfico, pararem ao pé dele? Parem, mexam e sintam a alma do objecto, pois pode ser que fiquem inspirados e comecem a entender que este e outros objectos representam algo de fundamental. Pode ser que também oiçam o grito de revolta que estes objectos  desprezados conseguem verbalizar sem que possam sequer falar...
E já que falei em máquina do tempo, já pensaram que a têm mesmo à vossa frente?!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sobre o pedido de estratégia para territórios de baixa densidade...


Por motivos éticos, não pude comentar uma notícia que li em Setembro último, num Jornal local do concelho de Ansião, mais precisamente no Jornal Horizonte. A notícia em causa tinha como título "Rui Rocha pede outra estratégia para territórios de baixa densidade".
Agora já não há impedimentos a um comentário que tanto me diz enquanto cidadão e mais concretamente enquanto profissional ligado à questão territorial. 
Confesso que fiquei algo perplexo com as afirmações de Rui Rocha, primeiro porque mais do que muitos este deveria conhecer profundamente matérias como o ordenamento do território e políticas territoriais, conhecimento este que me parece diminuto. É por estas e por outras que sempre defendi, enquanto profissional, que os autarcas fossem de alguma forma "obrigados" a ter formação básica nestes domínios, de modo a que estivessem realmente capacitados para o autêntico desafio que é ser-se autarca. Para bem gerir um território é necessário antes do mais perceber o que é o ordenamento do território, já que só assim se pode compreender no seu todo o que é um território. Só depois de entender isto se consegue definir estratégias e rumos adequados.
Não me identifiquei, de todo, algumas afirmações de Rui Rocha, nomeadamente:

1- "... lutado com muita energia e motivação contra as adversidades e vencido alguns dos desafios que se apresentam aos territórios de baixa densidade demográfica, pela igualdade de oportunidades..."

2 - "... deveria equacionar um conjunto de medidas de descriminação positiva que em primeira instância sejam impulsionadoras de captação de investimento" como por exemplo "apoios à contratação e benefícios fiscais para a instalação ou deslocalização de empresas" pois "é urgente encontrar formas de captação de pessoas para estes territórios"...

Quanto ao primeiro ponto, diria que, pelas palavras, quase parece que há ali uma "teoria da conspiração", mais parecendo que "tudo" o que aqui existe é negativo, que é "tudo" adversidade e que é preciso igualdade de oportunidades, senão vejamos. E não, não estou a exagerar, analisem bem o conteúdo do discurso. Quando se vive num território ímpar, não é preciso lutar com muita energia e motivação contra as adversidades, pois a energia e a motivação já devem existir/fluir de um modo natural.
Eu não vejo as adversidades, vejo sim imensas oportunidades num território pequeno, mas multifacetado em termos patrimoniais. Património natural, construído, cultural, etc, etc. 
Incomoda-me que esta espécie de sentimento de "má sorte" esteja presente no espírito dos nossos autarcas. Este e outros mais deveriam estar orgulhosos de viver num território tão rico, mas, pelo discurso com evidente carga negativa, não me parece que assim seja na sua plenitude. Publicamente este e outros autarcas deveriam afirmar taxativamente que este é um território ímpar. Infelizmente o discurso tem muitas vezes uma carga negativa nada desejável, tal como neste caso, parecendo que temos azar em não ter aqui shoppings e afins...
Igualdade de oportunidades? Então se eu tenho uma qualidade de vida superior nesta região, se tenho o que preciso, se tenho tudo o que é importante à minha mão, para que vou falar em igualdade de oportunidades? O pessoal que vive nas cidades é que se deveria queixar da falta de oportunidades, pois estes estão francamente limitados na sua acção. Eu aqui tenho terra, tenho paisagem, tenho património, tenho cultura, tenho associativismo e tantas outras coisas mais!
Quanto ao segundo ponto, para que precisamos nós de medidas de descriminação positiva se já estamos num território mais do que positivo, num território que tem muito mais do que outros territórios? Será que este autarca quer dizer que precisamos de mais fábricas? Então e o emprego existe apenas com fábricas e zonas industriais? Especialmente os economistas vêm a questão do desenvolvimento territorial como que se de zonas industriais se tratasse. Meras ideias estereotipadas que o tempo acabou por contrariar. O que precisamos é de criatividade que potencie o muito que já temos, mas que se tem mantido num estado letárgico, sem aproveitamento algum na maior parte dos casos. Nós só precisamos de mostrar as mais valias desta região, algo que tem faltado a toda a linha. Resumindo, precisamos sim de indústrias criativas.
No discurso de Rui Rocha eu não vejo muita esperança no futuro, vejo sim uma espécie de "má sorte" por ter de viver num território tão desprovido de shoppings, de betão e de alcatrão. Betão e alcatrão não são sinónimos de desenvolvimento territorial.
Sobre as formas de captar pessoas para estes territórios, em primeiro lugar é preciso tomar medidas para as pessoas que já cá vivem, não irem daqui para fora, pois isso é uma realidade que se teima em menorizar. É preciso estancar a hemorragia! Depois, e só depois, importa manter as belas características de toda esta região, pois é isso que pode atrair pessoas que queiram viver ou trabalhar neste território. Primeiro garantir os que cá estão, depois os que não estão, mas querem vir. Quem é que vem para aqui em busca de um cenário semelhante a um qualquer outro concelho, estandardizado? A diferenciação é que cria a atractividade. As más políticas, que têm desvirtuado este território, têm levado ao abandono desta região e isso também é culpa dos  autarcas, que teimam em sacudir a água do seu capote. Como é que se pode defender uma região e as suas mais valias e depois  desenvolver políticas que vão contra boa parte destas mais valias? Haja humildade em reconhecer os falhanços das últimas décadas. Desenvolvam-se políticas "home made", no sentido local, claro, pois além de tudo o mais essas mais facilmente estão dissociadas dos grandes interesses económicos que desvirtuam este nosso país. Isto mesmo que, a nível local, também estes existam, mas estes últimos são mais fáceis de lidar.
As estratégias para territórios de baixa densidade já existem, o problema é que não encaixam nas ideias estereotipadas dos nossos autarcas, daí toca a pedir outras medidas, prolongando a demagogia crónica. O território não precisa de se adaptar às características dos autarcas, estes é que se têm de adaptar às características do território, conhecendo-o na sua plenitude.
Já existem estratégias, basta ler o que já existe. Que leiam livros sobre estas matérias, será que custa assim tanto? Eu empresto livros se for preciso.
Além disso, Rui Rocha já deveria saber que em primeiríssimo lugar, as políticas para territórios de baixa densidade são de tipo bottom up e não o contrário. Com as suas afirmações fica, na minha opinião, à vista que este pensa que quem deve ordenar é o estereótipo up bottom, já que em vez de criar políticas locais concretas para este território, pede-as. É da sua competência criar estas políticas para este território, de acordo com as suas especificidades e imensas riquezas. Mas para isso há que meter para trás das costas ideias estereotipadas e há que encontrar muitas boas ideias que pairam por este território nas cabeças de muita boa gente, com escola, sem escola, mas com sabedoria. As políticas para este território devem partir daqui mesmo, só assim estas terão sucesso. Não quero projectos chave na mão feitos por outsiders, erro comum por estes lados. Não quero macrocefalia, quero sim participação pública (verdadeira...).
O único concelho, nesta região, onde se tem tentado algo do género é Penela, mas parece que muitos andam desatentos.
Sinceramente ando farto de politiquices, de ouvir sempre as mesmas lamentações e vitimizações tipo "vivo num território encravado" e afins, daí com o azinheiragate tentar mostrar que há caminhos a trilhar, os quais apesar de não interessarem aos lóbis do costume, interessam às populações. O resto é conversa fiada...

domingo, 10 de novembro de 2013

Viagem ao centro da serra: condeixamegalossauro



Muitos de nós até costumam passar mesmo ao lado deste monstro, ao chegar ou passar por Condeixa, no entanto raros são os que param para reflectir sobre este predador de paisagens.
Confesso que esta ideia de criar as viagens ao centro da serra me tem surpreendido, não pela ideia em si, mas pelo impacto brutal que cada vez mais me venho a aperceber que estas pedreiras têm na região de Sicó. Enquanto cidadão e enquanto geógrafo já tinha uma ideia base, mas nada nos pode preparar para uma experiência como esta tem sido. Ir ao encontro de cada um destes monstros e palmilhar a envolvência destes é algo de avassalador, isso vos posso garantir.
Este é o 4º episódio da "Viagem ao centro da serra", o qual dá continuidade à minha expressa vontade de vos sensibilizar perante um problema tão grave como este o é. Se são precisas pedreiras? São, mas não tantas. Ordenamento exige-se, chega de especulação de um bem comum!
Importa que todos pensem porque é que não se investe na reutilização de materiais da construção, tal como se faz noutros países, que tanto gabamos quando nos convém. Importa que todos pensem porque é que naqueles países que tanto gabamos, se paga um imposto directo, por tonelada de pedra extraída (entre 1,5 a 2 euros), enquanto no nosso pobre país não se paga nada e nem se recebe uma renda condigna, já que muitas destas pedreiras estão em baldios. Contrapartidas, o que é isso?
Não me vou alongar muito nas palavras, já que como alguém disse, uma imagem vale mais do que mil palavras. Digo apenas, e para finalizar, que duas imagens valem mais do que duas mil palavras...

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um cenário medronho na região de Sicó


Lembro-me de, nos tempos de escola, comer uns quantos medronhos nos muitos medronheiros que populavam a mata municipal de Ansião. A escola era (e ainda é) ali mesmo ao lado, portanto nada mais natural do que, nos intervalos ou horas vagas, esticar o braço e pegar uns quantos medronhos. Havia pessoal que abusava, mas eu comia apenas meia dúzia. Hoje em dia há menos medronheiros por ali...
Lembrei-me de abordar esta questão por dois motivos, os quais estão encadeados. Há alguns dias fui dar um breve mergulho pelo território Sicó, até que me deparei com uns medronheiros muito solitários. A cor vermelha não enganava e o carro lá teve de parar para uma investida no medronho. Uma semana antes tinha feito o mesmo num outro local, de onde apanhei quase 1kg para fazer doce de medronho.
É um facto que a área afecta ao belo medronheiro tem sido reduzida nas últimas décadas, facto que considero preocupante, ainda mais sabendo que esta derrota é uma vitória para o eucalipto.
Poderia ter tirado esta foto com os medronhos na árvore, sendo assim uma fotografia mais "estética", mas preferi tirar a foto com os medronhos no chão, votados ao abandono e desprezo. Não serão estes um recurso que temos ostracizado em prol de um futuro dito desenvolvido?
Porque é que, sendo esta uma região tão rica sobre os mais variados domínios, teimamos em deixar estas mais-valias a apodrecer no chão? Fica a questão, para reflexão...

domingo, 27 de outubro de 2013

Gostam do património? Por vezes não parece...


Oiço muitas vezes os autarcas e muitos cidadãos a afirmar taxativamente que o património é que é. Nos últimos meses, com o acentuar da crise, até parece que o termo "património" virou moda, no entanto quando mergulhamos no território Sicó, parece que a palavra património é realmente uma palavra vã...
Em termos de património construído/arquitectónico, esta nossa região é um fenómeno, no entanto e não raras vezes, deparamo-nos com cenários como o que a foto ilustra. Este cenário, em particular, pode ser visto em Santiago da Guarda, em Ansião. Não vou dizer onde é, no concreto, por dois motivos, um é o de que quem sabe já conhece a situação, o outro é que quem não sabe tem aqui um belo motivo para se sentir obrigado a mergulhar neste belo território.
É inacreditável que em toda esta região se vejam casas especiais como esta, autênticos monumentos, no estado que todos vêm, mas que raros criticam em termos concretos. Sim, sei que esta questão não é linear, mas também sei que mesmo havendo muitas questões "acessórias", quando há vontade de reverter situações como esta, isso acontece mesmo!
Temos o mau hábito de não criticar de forma honesta e construtiva, pois pensamos erroneamente que isso é dizer mal de alguém ou de alguma entidade. Muito pelo contrário meus caros, o desenvolvimento deste território também passa por apontar o que está mal. Poucos fazem o papel de crítico, pois isso traz consigo chatices, no entanto a crítica, desde que honesta e construtiva, tem resultados práticos e acaba por inevitavelmente trazer reconhecimento a quem tem a coragem de o fazer, o que dinamiza ainda mais a coisa. Sintam-se obrigados a criticar de forma séria o que de mal se vê e faz neste território, pois vale mesmo a pena, a bem do património, das populações e das próximas gerações, que merecem que lhes deixemos muito património!

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A bolsa de terras gerida por uma entidade sem vocação...


Escolhi esta foto, da várzea, para ilustrar a questão que agora destaco, a bolsa de terras, mais precisamente a bolsa de terras que abrange a região de Sicó.
Foi com enorme desagrado que soube de uma novidade que, embora esperasse, não compreendo de forma alguma. Há poucos dias soube que é a "Terras de Sicó" que vai (tentar) gerir a bolsa de terras na região de Sicó. Lembro que esta entidade embora seja conhecida como uma Associação de Desenvolvimento Local, é reconhecida por muitos como uma entidade altamente politizada e partidarizada, daí a minha preocupação sobre esta, quanto a mim,  pouco desejável novidade.
A "Terras de Sicó" já mostrou, na minha opinião de geógrafo, que ao longo dos anos nunca conseguiu vestir o papel de dinamizadora de todo um território, o qual "gere" de gabinetes e pela mão de colarinhos brancos, facto altamente negativo em termos de desenvolvimento territorial. É uma entidade que, na minha opinião, não conhece verdadeiramente o território de Sicó, conhece sim aquilo que interessa à política e o que interessa aos interesses do costume (passe o pleonasmo), daí não ser de estranhar o seu insucesso enquanto Associação de Desenvolvimento Local. 
Eu nunca escondi o facto de, pessoalmente, não reconhecer esta entidade como verdadeira Associação de Desenvolvimento. Não aprecio a sua forma de "gerir" o território, pois mais me parece que gere interesses/visões de pessoas específicas, caso dos autarcas, os quais em vez de se centrarem nos seus territórios e deixarem as Associações de Desenvolvimento para os profissionais do território, açambarcam também este tipo de entidades. A macrocefalia é algo de altamente nocivo, daí autarcas e associações de desenvolvimento não darem bom casamento...
Voltando então à questão da bolsa de terras, propriamente dita, a "Terras de Sicó" não é uma entidade com vocação para gerir e dinamizar esta importante matéria que é a bolsa de terras. Na minha opinião falta-lhe o conhecimento sobre o território, o know-how associado à gestão de uma bolsa de terras e a visão de uma Associação de Desenvolvimento Local. Impera a miopia territorial e a falta de sensibilidade perante valores não compreendidos.
Uma bolsa de terras não é meramente um armazém de terrenos, uma bolsa de terras é puro ordenamento do território, facto que é esquecido por quem de direito. Além do conhecimento para gerir uma bolsa de terras, é necessária uma visão sobre todo um território muito valioso em termos ambientais. 
Para gerir uma bolsa de terras é necessário ver o território a várias escalas, desde o terreno que pode entrar para a bolsa de terras, até à própria paisagem. A paisagem não é compreendida pela "Terras de Sicó" e isso está expresso na sua visão sobre este território. O território evolui a várias escalas e nem a "Terras de Sicó" nem os autarcas compreendem isso, pois na teoria defendem o território, mas na prática atentam, de alguma forma, contra a integridade dela, já que promovem muito do que vai moldar a paisagem a favor de interesses particulares e não a favor de interesses comunitários. Além disso não promovem aquilo que mantém e faz evoluir, no bom sentido, a paisagem, aquela mesmo que tanto gabam lá fora. 
É por estas e por outras que tenho bastante receio, devidamente fundamentado, da anunciada gestão da bolsa de terras por parte da "Terras de Sicó". Parece-me apenas que, no final, as pessoas mais favorecidas por esta bolsa de terras, serão aquelas que orbitam em redor da política, parasitando desta forma um território que eu considero fenomenal. Parece-me que os objectivos da bolsa de terras serão altamente desvirtuados, pois em vez de uma gestão aplicada ao território, irá surgir inevitavelmente uma gestão mais favorável aos interesses partidários, dada a evidente politização da entidade "Terras de Sicó". Daqui a uns anos veremos o resultado, altura em que farei concerteza um ponto de situação.
Não poderia terminar sem apresentar a minha solução, a qual nem sequer é inovadora, já que se baseia em algo que já existe, embora esteja desaparecido do mapa. Falo, claro, do cooperativismo, o qual já teve tradição neste território.
É certo que o cooperativismo já quase não tem expressão, mas também é um facto que poderia haver muita gente que, aproveitando esta questão da bolsa de terras, poderia dinamizar o cooperativismo, criando assim um vector de desenvolvimento local que potenciasse este território. Isto seria muito interessante, já que a política ficaria daqui arredada e conseguir-se-ia integrar pessoas de valor, as quais tantas vezes estão fora da política e fora dos vícios e interesses predatórios a ela associada.
Temos muitos jovens que poderiam dinamizar o cooperativismo, com a ajuda dos anciãos deste território (juntando o melhor de dois mundos), no entanto temos também entidades que os impedem de dinamizar este território. Eu já fui uma das vítimas deste impedimento...
Temos aqui uma oportunidade para dinamizar todo um território, seja a nível da agricultura biológica, floresta e tudo aquilo que se pode imaginar, já que o território é um todo!
Vamos reclamar o que é nosso e que a política perversa nos retirou? Já repararam que a nociva política nos tem retirado poder de intervenção sobre o que é nosso? Quem está interessado em desenvolver o cooperativismo nesta região? Eu estou disponível para ajudar!

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Fazer coisas que não devemos para as coisas andarem para a frente?!


Pois é, por vezes surge uma frase ou desabafo que, embora passe despercebida à maior parte das pessoas e mesmo a quem a diz, demonstra muito. Por vezes detecto algumas dessas frases, outras nem por isso, mas desta vez ficou-me na memória uma frase que tem muito que se lhe diga. Indo então para a tal frase:

  "... o nosso país é um país com demasiada burocracia, é um país em crise. é um país que precisa de dinheiro. ás vezes temos de fazer coisas q nao devemos para as coisas andarem para a frente..."

Esta frase foi dita por um jovem, o qual concerteza não se deu conta da gravidade do que disse. É algo que não me admira, já que hoje em dia muitos jovens são manipulados por interesses vários, neste caso manipulado por uma juventude partidária. Admito que, genericamente falando, detesto as juventudes partidárias. Isto porque, muitas vezes, estas são meramente uma escola de más virtudes, as quais são utilizadas para alicerçar interesses económicos predatórios e corruptos. Sei do que falo, já que em miúdo fiz parte de uma, tendo-me afastado ainda jovem, dado o facto de me ter apercebido da podridão ali existente. Curiosamente esta juventude partidária, que abordo agora, é de Alvaiázere, local onde as más virtudes são levadas ao um expoente de imbecilidade crónica.
Voltando à frase destacada, esta mostra bem o quanto moldadas conseguem ser as mentalidades dos jovens. Incrivelmente consegue-se passar a mensagem de que fazendo aquilo que está mal se chega a um futuro promissor. Quem tiver a mente despoluída desta nocividade "política", consegue ver que quem está a moldar aquelas mentalidades, são interesses corruptos, os quais, sob a batuta da política, têm terreno fértil para a promoção da iliteracia cultural. Dito por miúdos, estes interesse corruptos, conseguem, através da manipulação mental, "educar" autênticos "soldados", os quais, mais tarde vão ajudar a legitimar estes interesses corruptos, de entre os quais interesses de algumas famílias de elite que vêm o bem comum como que se do bem bem próprio fosse.
Onde é que já se viu uma sociedade de bem fazer coisas que não deve para as coisas andarem para a frente? Coisas, que coisas são estas? Não serão sim os interesses corruptos? É que os interesses de corruptos não são os interesses da sociedade!
As coisas só andarão para a frente quando limparmos esta sociedade de corruptos, de malandros oportunistas, de lambe-botas, etc. Não é no facebook que isto se resolve, com um like, é sim na vida real, a diferença é que na vida real as coisas doem e esta luta pode ter consequências para nós próprios. Mas para isso é preciso ter coragem de afrontar esta gentalha, coisa que poucos têm. Há que não ter medo de ficar sem o emprego, pois isso é o menos importante, arranja-se outro, tal como eu o fiz, dando a volta por cima!
As coisas só andarão para a frente fazendo as coisas bem, as coisas certas, é isso que tem falhado e que nos levou à situação actual, é simples e não custa entender. Não é com malandragem que o país avança.
A inversão de valores é uma coisa perigosa demais para eu deixar passar em branco esta frase. Esta inversão de valores tem sido desastrosa para o património da região de Sicó (e não só), daí esta minha chamada de atenção para um problema que é real e que passa ao lado de muita gente distraída.
Um conselhos aos pais desta região, não deixem os vossos filhos andar nas jotas, pois o resultado é desastroso. Deixem sim os vossos filhos andar no associativismo, no voluntariado, no desporto e em tudo aquilo que os faz crescer de forma sã e produtiva!

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O carrasco de Sicó: crónica de um invasor


Lembro-me bem da década de 80, altura em que o eucalipto começou a invadir um território que não era o seu. Lembro-me que foi nessa altura que extensas áreas de pinheiro arderam, dando lugar a este invasor. Passaram mais de 3 décadas e, também na região de Sicó, este invasor ganhou uma posição perigosa, destruindo com isso extensas áreas de floresta. Lembro os menos informados que uma área de eucaliptal não é floresta, é sim monocultura, facto que faz toda a diferença. Pinheiros, carvalhos, azinheiras, sobreiros, medronheiros, todos estes foram gravemente afectados com isso, obviamente em diferentes graus.
Foi também durante estas últimas décadas que muitos abandonaram ou esqueceram muitos terrenos, os quais antigamente davam sempre rendimento e logo nas mais variadas formas. O gado que pastava por muitos dos terrenos foi também esvanecendo. Toda uma forma de estar neste território foi violentamente afectada em poucos anos. O ordenamento do território foi igualmente esquecido, o que tendo em conta que este é crucial para o desenvolvimento do território, torna-se altamente problemático. 
Tudo isto e muito mais contribuiu para que o comité de boas vindas recebesse com imenso calor este invasor que dá pelo nome de eucalipto. Muitos que deixaram de ligar aos seus terrenos, lembraram-se que seria bom mandar lá uma máquina para preparar o terreno para meter eucaliptos, esquecendo que que isso teria consequências a vários níveis. 
A paisagem começou a transformar-se, o que por si mesmo não é mau, o problema é que dantes a paisagem transformou-se de modo a termos aqui um modo de vida sustentável e agora esta transformou-se para o pessoal plantar eucaliptos e mais nada. Obviamente quando assim é, as coisas só podem correr mal.
O eucalipto é, para mim, desde alguns anos atrás, uma árvore non grata, a qual serve apenas um propósito, a pura ganância de alguns e o interesse económico das celuloses. Alguns ganham uns trocos, mas todos perdem muito mais. Pessoalmente considero que o eucalipto devia pagar um imposto elevado, pois sendo este meramente para o ganho financeiro, é justo que assim seja. Outras árvores, caso do carvalho, oliveira, nogueira ou outros mais, servem vários propósitos e não apenas um, é essa a minha justificação.
Curioso que várias pessoas, na ânsia de ganhar dinheiro, não têm ganho nenhum, pois os seus eucaliptais ardem regularmente...
Curioso ver outras pessoas, (mal) mascaradas de "ambientalistas", são acérrimas defensoras do eucalipto, quiçá por trabalharem com as celuloses. Meros mercenários pintados de verde cor de alface.
O eucalipto tem sido um dos carrascos da região de Sicó e mesmo assim continuamos a insistir em plantar. Vejo pessoas que sabem das consequências negativas de plantar eucaliptos, em áreas sem apetência para isso, e que estão-se a marimbar, pois só vêm dinheiro à frente, só vêm o seu interesse primeiro, esquecendo-se que vivem em comunidade e que o egoísmo não dá bom resultado. Há também aqueles que plantam eucaliptos dentro do perímetro de protecção de nascentes e depois, como se diz na gíria, mamam a bucha, com a bela multa. A água é um bem precioso, portanto tem de ser bem protegida!
Eu vejo uma tragédia onde plantam eucaliptos, pois basta olhar com atenção para perceber isto mesmo. Não é fácil, pois exige algum conhecimento e, acima de tudo, atenção, mas é possível. A introdução deste invasor num mosaico florestal altamente fragmentado é algo de trágico e que potencia, em termos de velocidade e perigosidade, os incêndios e as suas consequências. Lembram-se daquele incêndio de 2012, Pombal-Ourém? Sim, esse mesmo, que consumiu uns 6000 hectares. Se não houvesse tanto eucalipto por ali, as consequências teriam sido outras. O eucalipto ali é rei, portanto essa conversa do mato limpo, aqui, não colhe. O eucalipto representa risco de incêndio muito superior, especialmente em áreas de minifúndio, como é o nosso caso. É perigoso para todos, especialmente para aqueles que têm de o apagar. Eu pessoalmente pouco arrisco quando estão eucaliptos a arder. Os donos que arrisquem, pois o lucro é deles e a vida é minha. 
Por esta altura o pessoa já esqueceu os incêndios, para o ano há mais, no entanto parte significativa das consequências ocorre agora, caso do arrastamento e consequente perda de solo. Isto onde o há, pois há pessoal que o planta seja onde for.
O comité de boas vindas, que continua a receber todos os anos o eucalipto, deve estar confuso, é que o calor vem todo do eucalipto...

sábado, 5 de outubro de 2013

Terras de Sicó, terra da falta de imaginação!


É curioso, mas poucos dias depois de ter elaborado um comentário sobre o lugar do Zambujal, surgiram duas placas que pretendem publicitar o respectivo lugar. Isto até poderia parecer interessante, não fosse o facto anedótico.
O marketing territorial é algo sobre o qual tenho investido muito nos últimos anos, daí ser um tema que muito me diz. Na região de Sicó não se faz marketing territorial, tenta-se fazer algo que nem se aproxima deste. Impera a parolice. Temos tudo para fazer bom marketing territorial, já que temos muita matéria prima para o alimentar, no entanto falta a sabedoria para o conseguir fazer da forma mais correcta e eficaz.
Em vez de se inovar e criar uma estratégia própria, copiam-se ideias e identidades de plástico e o pior disto é que copiam-se péssimas ideias no domínio do "marketing territorial". Pega-se em algo de fora e nem sequer se adapta às especificidades locais.
Como poderão observar nas imagens, consta ali algo que lembra claramente as "Terras de Sicó", nome de uma entidade altamente politizada e nome de uma, dita, Associação de Desenvolvimento Local. Refiro-me claro às "Terras do Zambujal", nome que não lembra a ninguém...
Já por mais que uma vez alguém pegou na palavra "Terras" para colar a uma outra palavra. Este ano já vi isso mesmo num trail (Terras de Ansião) e confesso que fiquei incomodado com tal falta de imaginação. Com este exemplo, das "Terras do Zambujal" a saga continua e não me parece que acabe por aqui.
Na minha opinião, esta moda é de um profundo mau gosto e evidente falta de imaginação, pois pega-se numa palavra outsider para ajudar a caracterizar algo que é verdadeiro, que tem conteúdo, história e identitário. Se me dissessem "Zambujal, terra de - elemento identitário - ... ", aí até concordava, pois podia pegar-se numa palavra relacionada com aquele local, ou seja identitária, para publicitar este território. No entanto não aconteceu isso, fez-se o oposto, foi-se buscar algo de fora para "caracterizar" o lugar. Do ponto de vista do marketing territorial isto é incorrecto, mais ainda sabendo que prejudica a imagem do lugar, mostrando assim uma falta de conhecimento do mesmo. É a típica chapa 5!
Vejam que de todos aqueles elementos identitários, que constam na parte de baixo do placard, nenhum deles foi incluído na expressão que deveria publicitar correctamente o local. Podia ter-se pegado nestes elementos e elaborar uma frase identitária, mas não, foi-se pelo caminho mais fácil e mais incorrecto, ou seja uma frase sem identidade.
Dificilmente irei (re)visitar, na região de Sicó, locais que tenham antes do nome do mesmo a palavra "Terras", pois isso mostra apenas uma coisa, falta de estratégia, de conhecimento e de seguidismo. No próximo ano terei mais tempo para dissertar sobre estas questões, para já fica apenas um cheirinho...
Um agradecimento a quem me facultou as fotos, já que da última vez que aqui passei, não tinha a minha amiga máquina fotográfica. Tive de pedir a um amigo que fizesse o respectivo registo fotográfico.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O que cada um de nós vê ali?


É um exercício que, apesar de simples e conhecido no meio geográfico, é tremendamente interessante para aqueles que, como eu, gostam de perceber, no concreto, as percepções das pessoas perante o território.
A pergunta que vos faço é simples, o que vêm nesta foto? Antes de prosseguirem a leitura, parem um bocado, olhem para o lado e pensem uns segundos. Escrevam num papel (sim, é mesmo para fazer isso, mas apenas se tiverem uma folha usada - escrevam no verso!)

Indo então às possíveis respostas, estas dependem não só da percepção que temos sobre o território, que varia de pessoa para pessoa, bem como da nossa percepção "profissional", senão vejamos:
1 - O que vê aqui um construtor civil?
R: possivelmente um belo terreno para urbanizar;

2 - O que vê aqui um madeireiro?
R: possivelmente lenha boa para a lareira, pois a lenha de oliveira é da melhor para a lareira;

3 - O que vê aqui um hippie ou um "freak", possivelmente nórdico
R: possivelmente um bom terreno para montar uma tenda e viver em harmonia com a Natureza;

4 - O que vê aqui um agricultor?
R: possivelmente um belo terreno para amanhar, especialmente aquelas belas oliveiras, pois no chão há o belo pasto para as ovelhas;

5- O que vê aqui um geógrafo?
R: possivelmente uma panóplia de aspectos que me levariam resmas de linhas a escrever, mas de entre elas posso dizer que vejo ali um filtro para a água que vou acabar por beber. Vejo também o recurso não renovável "solo", o recurso florestal, que nos dá aquela bela coisa chamada oxigénio ( e a bela azeitona!) e o recurso paisagem, bem como lenha, aquando da limpeza das oliveiras. Mais ainda, vejo um ecossistema, no qual toda uma cultura se desenvolveu ao longo de séculos. E muito mais vejo, no entanto penso que já perceberam o que pretendo fazer com este exercício de estímulo intelectual, os quais são raros hoje em dia. 

Agora a vossa resposta, o que vêm aqui? É ou não um exercício útil e, ao mesmo tempo, curioso?!

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Património, uma palavra vã na nossa cabeça?



Confesso que, por vezes, fico perplexo com algumas coisas que vejo, algumas das quais relacionadas com uma questão que me é cara, o património, palavra cheia de significado, mas só se assim o quisermos...
Há uns dias vi algo que, diga-se, me chocou pela insensibilidade perante um objecto patrimonial. Isto passa-se num local onde, em criança, as brincadeiras faziam-nos passar por uma levada que, agora, ficou ainda mais reduzida. Aquela levada era um atalho para casa de um amigo, sendo já nessa altura uma levada sem utilização, pois o moinho de água situado ali bem perto já não funcionava, embora ainda exista...
Acontece que, com estas obras, parece que foi decidido acabar com o troço da levada que ali ainda existia, para meu espanto. Será que não se podia preservar a mesma, musealizando-a? Será que ela estorvava assim tanto? Será que não era possível efectuar estas obras integrando-as nas mesmas?
Claro que era, mas assim não o foi, para meu desânimo. 
Esta levada era um pouco de história daquele lugar e mesmo da Vila de Ansião, a qual foi agora apagada para sempre. Será que é isto que queremos? Será que não há sensibilidade para preservar o nosso património histórico e cultural?


Não me admira que as lajes que faziam parte da levada tenham como destino um qualquer jardim, como aliás é costume em muitas obras deste género. Em vez de se preservar, degrada-se e, mais tarde utiliza-se o objecto patrimonial, neste caso a pedra, numa lógica circense, típico também na nossa região.
Não conheço o dono deste terreno, sei que ele está no seu direito, no entanto eu, enquanto pessoa ligada à questão patrimonial, não posso deixar de dar a minha opinião. Pelo menos uma coisa sei, que este comentário vai servir para espicaçar as mentalidades, podendo eventualmente evitar situações similares, a bem do património.
Como cidadão, que fez deste lugar um lugar de crescimento, posso apenas manifestar o meu profundo desagrado sobre esta situação. Continuamos a não aprender que é possível preservar o património em muitas situações, esta é apenas e só mais uma dessas mesmas situações.


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Longe de nada, perto de tudo



Como já disse mais do que uma vez, um dos defeitos que temos é andar sempre do local X para o local Y, sem que, contudo, passemos pelo lugar Z. Apenas quem domina a linguagem geográfica poderá perceber bem o que quis dizer com isto do X, Y e do Z.
Indo então à questão, eu gosto muito do Z, pois ali há uma coisa importante, a dimensão dos lugares. Estive para colocar um título diferente a este comentário, seria "O lugar dos lugares", no entanto, e à última da hora, decidi não ir pelo mais óbvio, mas sim colocar dimensão no título.
Estas duas fotografias são do lugar do Zambujal, em Condeixa-a-Nova. Apesar deste ser muito próximo a Condeixa e, mesmo de Coimbra, é um lugar que, aparentemente está longe de tudo e perto de nada. Muito poucos são aqueles que, no seu trajecto normal, por aqueles lados, fazem o desvio para visitar este lugar, algo de muito comum na região de Sicó. O óbvio acaba por passar despercebido, já que estamos formatados para ir do lugar X ao lugar Y sem pensar muito.
Lugares como este há muitos por toda a região, e o cenário de vazio é comum na grande maioria deles. As políticas desenvolvidas nas últimas décadas favoreceram apenas uma coisa, o esvaziamento destes lugares a favor das cidades, mesmo que boa parte das pessoas esteja "enjaulada" em apartamentos sem alma, sem história e sem sentimentos. Alma, história e sentimentos é um recurso que lugares como o Zambujal têm para dar e vender, no entanto há cada vez menos compradores. Os velhotes vão morrendo e os novos desaparecendo destes lugares, fazendo com que muitos destes estejam literalmente  condenados a desaparecer em poucas décadas. Falo, claro, de lugares como este, não daqueles onde a última pessoa já foi para outras paragens.
Agora pergunto eu, porque não aproveitamos estes lugares, voltando a ocupá-los, voltando a dar-lhe sentido e voltando a cultivar todos aqueles terrenos em redor dos mesmos?
As políticas actuais atentam contra isto mesmo, por mais estranho que pareça. Tudo está feito para que seja mais fácil fazer o mais difícil, ou seja mais fácil construir de novo, muitas vezes em terrenos dantes agrícolas, do que reabilitar o velho.
Mais revoltado fico quando vejo os nossos políticos a vitimizarem-se, dizendo que a culpa não é deles. Então a as políticas de reclassificação de solos, que também ajudaram a este sangrar de pessoas destes lugares? Então as oportunidades alicerçadas nesta riqueza fenomenal? Será que é melhor "empurrar" o pessoal para as cidades, onde as coisas já não são como eram, onde se vive em total dependência de um ordenado?
A balança devia estar equilibrada, de um lado as cidades, do outro o campo, no entanto a balança está cada vez mais perigosamente a pender para o lado das cidades. Imaginem agora como será a esmagadora maioria de nós na mão de interesses económicos, numa qualquer cidade, vivendo numa total dependência de modas. Nós podemos viver independentemente de modas, e até as podemos criar a partir destes lugares catitas. Há que regressar ao campo, não ao campo de antigamente, mas ao campo actual, o qual está longe de nada e perto de tudo!


sábado, 14 de setembro de 2013

Bicismo, uma forma de discriminação inaceitável


Estamos quase a chegar a um dia simbólico, onde, especialmente, a bicicleta é o centro das atenções no domínio da mobilidade. Chamam-lhe o dia europeu sem carros, e para mim é meramente um dia simbólico, o qual deve ser aproveitado sim em termos pedagógicos.
Pessoalmente não sou completamente a favor deste dia, pois acaba, na maioria dos casos, ser contraproducente. Devia sim haver algo do género, mas numa base... diária!
Para mim o dia da bicicleta é quase todos os dias, pois utilizo-as (tenho mais do que uma) praticamente todos os dias, seja em lazer ou mesmo, e fundamentalmente, para ir trabalhar.
Este comentário vem a propósito de uma conversa que muito me incomodou um destes dias, onde o fundamentalismo dos condutores queria imperar a favor dos carros e a desfavor das bicicletas. Pensei, pensei e acabei por chegar a um termo que não sei se já existe, o bicismo, ou seja um termo que é  basicamente uma analogia ao racismo, mas aplicado às bicicletas.
Antes de mais, importa referir que eu apenas considero como ciclista aquele que, numa base regular, faz uso de uma bicicleta. Aquelas pessoas que pegam na bicicleta uma ou duas vezes por ano, simplesmente não as considero ciclistas.
Eu sou, ao mesmo tempo condutor, ciclista e peão, e faço algumas centenas de km por mês, seja de carro, de bicicleta ou a pé.. Estou, por isso, à vontade, para falar sobre todos estes pontos de vista, do condutor, do ciclista e do peão. Quem não é ciclista não tem legitimidade para falar desta questão, pois ao não o ser está a ser parcial.
Acontece que numa conversa, surgiu uma pessoa que, apesar de eu o considerar uma pessoa de valor, falou apenas enquanto condutor, sendo, portanto completamente parcial na análise da questão da mobilidade. Dizia que as bicicletas deveriam ter matrícula e seguro, algo que eu considero absurdo. A argumentação baseava-se em boa medida num ponto, a de que um ciclista poderia facilmente matar uma criança num qualquer acidente. Foi uma análise claramente tendenciosa e desprovida de factualidade. Além disso, não referiu uma única vez as dezenas de ciclistas que são mortalmente atropelados por... automobilistas irresponsáveis. Quantos casos conhecem vocês de pessoas que tenham falecido decorrente de um choque com uma bicicleta, mesmo a nível europeu? Por carros são às centenas!!! Não referiu também que se deveria apostar, tal como faziam no meu tempo de escola, numa educação direccionada também para aquele gesto natural que é andar de bicicleta. Não referiu, embora eu saiba, que apesar de viver a menos de 1km do local de trabalho, vai para o mesmo de... carro
Segurança rodoviária, quem se lembra disso, de andar naqueles circuitos feitos nos ringues das escolas para ensinar o pessoa, onde até ia um elemento da polícia? Eu lembro, mas hoje em dia é raro isso acontecer...
É óbvio que há problemas neste domínio, pois há muito pessoal a entrar no mundo das bicicletas sem uma preparação mínima, o que leva, por exemplo, a que alguns ciclistas pensem que têm prioridade nas passadeiras. Há também aqueles que, em vez de fazerem do passeio uma excepção, fazem dele uma regra, o que está errado. Isso resolve-se com programas de segurança rodoviária e não com seguros e matrículas. Há que reconhecer que isto só aconteceu pelo perigo que é partilhar a estrada com os carros, facto que manda muita gente para os passeios. O problema resolve-se na origem e não com invenções baratas.
Quem, ao andar de bicicleta, causar um acidente, é, por lei, obrigado a pagar o que decorrer daí, é simples e não custa entender. Quem anda de bicicleta tem cuidados mínimos, pois sabe que se fizer asneira paga caro (com o corpo), ao contrário dos carros, nomeadamente daqueles “chega para lá que eu é que mando aqui”.
Considero absurdo a atentatório, pensar-se sequer num seguro para bicicleta, pois isso seria apenas e só para encher os bolsos de alguns e não para resolver problemas. Iria sim causar problemas, pois também iria desmotivar aqueles que andam de bicicleta e fazem deste mundo um mundo bem mais interessante. Considero sim que, até aos 16 anos, devia ser obrigatório o uso de capacete nas bicicletas.
Há uma percentagem elevada de automobilistas que pensa que a estrada é apenas para os seus popós, e tudo o mais é paisagem. Quando vêm alguém, caso de bicicletas, “invadir” a estrada, ficam logo chateados, como que se a estrada fosse o seu reino... Redondamente enganados meus caros, a estrada é de todos e quem, na grande maioria dos casos, não respeita e faz asneira, é o condutor, não o ciclista. Curiosamente eu até já fui atropelado por uma carrinha apressada. Com bicicletas nunca apanhei sustos, à excepção de Amsterdão...
As bicicletas não têm de ter os mesmos direitos que os carros, têm sim de ter os seus próprios direitos, e para cada realidade, terá obrigatoriamente de ser tomada em conta a sua especificidade. A recente alteração ao código de estrada, vem apenas dar os direitos devidos, à muito tempo, aos ciclistas, e não dar os mesmos direitos e obrigações que têm os carros.
Pelo raciocínio de algumas pessoas, só falta obrigar as bicicletas ir à inspecção...
A bicicleta não polui, a bicicleta é o melhor meio de transporte em meio urbano e não só. A bicicleta não causa engarrafamentos, stress. São precisas várias bicicletas para ocupar o lugar de estacionamento de apenas um carro.
E podia continuar indefinidamente....
Chega de bicismo!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A aldeia dos segredos



Alvaiázere é um território onde factos muito curiosos se passam. A questão que agora venho abordar, é do interesse público, muito embora o processo seja quase um segredo "bem" guardado.
A aldeia das Paradelas é uma não aldeia, ou seja é apenas um lugar com meia dúzia de ruínas, situado num local longe de tudo, mas bem perto da Natureza.
Para chegar lá, só mesmo conhecendo bem, mas mesmo assim, e como não ia lá há alguns anos, tive de recorrer à útil carta militar. Deixando a estrada de alcatrão, vindo do Bofinho, entra-se por um estradão em terra batida, até que se chega à placa acima destacada.
Fiquei curioso como é que se gasta tanto dinheiro num local daqueles, mais parecendo que se está a promover a especulação imobiliária em meio rural. É uma opinião que vale o que vale, mas é realmente estranho ver ali este investimento, havendo outros locais bem mais interessantes para o desenvolvimento de um projecto deste género. Eu nunca apostaria naquele local para um investimento como este, já que afinal há muita matéria-prima em Alvaiázere, vulgo aldeias para reconstruir.
Umas centenas de metros à frente, entra-se num caminho calcetado, onde os muros foram devidamente recuperados. É realmente estranho ver um "oásis" rural como aquele o é. Dito por outras palavras, é um elefante branco em meio rural.
Mais estranho é que há uns anos atrás me tenham avisado que alguém andava a comprar tudo aquilo, e não era a entidade que promove o projecto. Não sei se é verdade ou não, mas meses mais tarde surge de forma "inesperada" o projecto da aldeia das Paradelas. Ou seja, todos aqueles terrenos poderão eventualmente mudado de mãos poucos meses antes deste projecto surgir. Haverá interesses privados associados a este projecto? Eu tenho dúvidas sobre o processo, dúvidas estas devidamente fundamentadas por uma análise honesta e construtiva.
Seria interessante que todo este processo, pouco claro, fosse explicado aos alvaiazerenses, e já agora a todos os portugueses, já que há ali dinheiros públicos, nacionais e europeus. Assim não restariam quaisquer dúvidas.
Já o disse mais que uma vez e volto a repetir, o facto de eu considerar que há ali (temática turismo em Alvaiázere) conflito de interesses, já que o titular da entidade que promove este projecto, tem uma empresa de turismo, precisamente na mesma área de acção, algo que importa aqui relembrar, pelo menos para os mais esquecidos. Em termos  "deontológicos", ou seja éticos, não me parece, de todo, aceitável. Relembro também que a empresa de turismo surgiu precisamente durante o segundo mandato de Paulo Morgado, mais precisamente em Dezembro de 2009.
Não se trata aqui tanto de opiniões, mas sim de factos concretos e, alguns, públicos, muito embora tudo neste processo devesse ser do domínio público. Quanto às opiniões, estas são baseadas em factos concretos.


Saindo pelo outro lado do lugar da Paradela, e deixando a calçada, entra-se novamente no estradão, rumo ao Olho do Tordo, em terra batida, ficando a ideia que aquele lugar tem alguns fantasmas que não querem sair do armário.
Por mais esforço que faça, não compreendo que projecto é este, mas pensando bem, Paulo Morgado costuma estar ligado a projectos que trazem mais polémica do que outra coisa.
Uma coisa me parece, muito sinceramente, a de que haverá aqui um grande beneficiado e esse beneficiado não é concerteza o povo alvaiazerense. Irei acompanhar de bem perto esta situação, pois daqui a alguns anos, será interessante fazer uma leitura de conjunto, a qual será quase impossível de fazer neste momento. 
Penso que daqui a 5 ou 6 anos, já será possível ver quem vai ser o grande beneficiado com tudo isto, e nessa altura eu voltarei a abordar a pertinente questão.

Fonte: www.cm-alvaiazere.pt

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Mais do mesmo, ano após ano...


Ano após ano e mais, andamos nesta novela há 3 décadas! Todos os anos se dizem as mesmíssimas palavras, contudo, na prática pouco ou nada se faz para resolver o problema, mesmo que se saiba, desde sempre, o que afinal causa esta autêntica guerra pirómana. É esta a triste e recorrente realidade, na região e no país. O povo português parece que, no fundo, gosta, pois das muitas coisas que exige, uma delas não é concerteza, no concreto, o términos desta guerra que consome o país e vidas, ano após ano. Parece que o problema, para alguns, só o é quando chega perto da casa deles, pois caso não chegue perto, isso já é problema dos outros. Egocentrismo tuga no seu melhor.
Pior ainda, o governo diz, literalmente, que a política não tem culpa nesta questão, quando afinal o problema começou precisamente com as más políticas... Todos os governos têm feito asneira e caído nos mesmos erros. Eu diria apenas que agradam a certos interesses económicos, aos quais é favorável esta piromania crónica. A inactividade de quem nos desgoverna é algo de positivo para certos lóbis.
A floresta vai desaparecendo, onde ainda existe, pois onde isso já não acontece, existe apenas a monocultura do eucalipto, que não é floresta. Não se investiga o lóbi do eucalipto, quiçá por ele ser demasiado poderoso. Até existem "eco"-mercenários, defensores das celuloses, que se fazem de ambientalistas, mesmo que já tenham sido topados e votados ao desprezo.
As culpas são quase que apenas dos maluquinhos que metem o fogo, só isso se fala, pois tudo o resto parece que não importa tanto. Obviamente que há maluquinhos na festa e eu até gostava de ter uma conversa muito séria com alguns deles, para lhes mostrar o meu ponto de vista. Sou uma pessoa pacífica, no entanto abro excepções...
As televisões parece que também adoram esta guerra, e a cada entrevista com os populares, lá aparece a queixa da pessoa que gosta de criticar os bombeiros, mas que se acha no direito de não limpar em redor da sua casa. Casos não faltam, de pessoas que não limpam em redor da sua casa e os seus terrenos, e depois lá tem de vir o zé bombeiro mitigar de alguma forma a porcaria que muitos fazem e deixam fazer neste nosso país e nesta nossa região, Sicó.
Choveu há escassas horas e já há pessoal a fazer borralheiras. Bravo para esta gente que não aprende com o que se tem passado nas últimas 3 décadas!
Ontem foi mais um dia muito triste, onde mais um bombeiro voluntário nos deixou e deixou o país mais pobre, talvez também daí este meu comentário mais revoltado.
Enquanto não decidirmos acabar com esta guerra pirómana, ela irá continuar, ano após ano. Quase todos têm culpa num problema que só o é porque, no fundo, o permitimos, e essa é a cruel realidade, gostem ou não...
Ordenamento do território, é simples e não custa entender!