sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ansião: esta "não é" a minha Vila...


É um título forte, admito, mas afinal a intenção é precisamente mexer fortemente com as opiniões de cada um, seja ansianense ou não. Diria eu que é inevitável que, de agora em diante, certas pessoas possam descontextualizar o título que dei a este comentário, de forma a o utilizarem a meu desfavor. Por isso mesmo passo a explicar o título "Ansião: esta "não é" a minha Vila", evitando assim "chico-espertismos".
Obviamente que Ansião é e sempre será a minha Vila, já que sempre o foi, no entanto as obras de regeneração da Vila de Ansião vieram mexer com algo que me diz bastante, a minha identidade. Assim sendo, este título apenas pode ser utilizado contextualizado desta forma, já que o utilizo apenas e só para alertar que houve algo que correu muito mal, que desenraíza parte da memória de uma Vila com história.
Falo, claro, da perspectiva não só de cidadão, mas também de geógrafo.
Assim sendo, começo com uma primeira imagem, a qual é nada mais nada menos do que quase que um tapume, o qual tem o intuito de tapar o espaço de uma casa demolida, mesmo no centro da Vila de Ansião. Acho curiosa esta frase que consta no mesmo, a qual apela para a celebração da memória numa altura onde parte dela desapareceu...
Será que as obras devem ser celebradas, tal como foram efectuadas? A minha resposta é simples, não. Celebrar a memória não significa, de todo, fazer-se o que foi feito...
É certo que concordei com as obras, mas não da forma como acabaram por ser efectuadas, já que descaracterizaram gravemente a Vila de Ansião. E mesmo assim, inicialmente ainda havia a ideia peregrina de fazer um estacionamento subterrâneo, facto que felizmente não veio a concretizar-se.
Já critiquei fortemente o facto de ali terem colocado granito, o qual não faz nem nunca fez parte da memória da Vila Ansião. Como é que falando-se tanto da memória de uma área cársica se utiliza granito? Isto chama-se a perversão do objecto patrimonial. Ansião parece-se agora como uma outra qualquer Vila de Portugal, será isto aceitável? Será isto valorizar o local?
Fala-se também do facto de ter havido participação pública, tantas vezes sublinhada pela Câmara Municipal, mas afinal esta participação pública começou já quando as obras estavam prestes a começar...
É certo que se falou antecipadamente com os lojistas, mas isso nada tem a ver com participação pública pura e dura. Para que tivesse existido verdadeiramente participação pública, os projectistas deveriam ter começado a falar com os ansianenses muitos meses antes das obras, pois só assim as ideias da comunidade poderiam ter algum reflexo no projecto final. Este tipo de projectos faz-se com as pessoas e para as pessoas, é assim que se faz em todo o lado, ou pelo menos onde isso acontece mesmo. 
Participei numa das reuniões públicas, mas isso só me fez ver que o processo foi completamente enviezado, afinal o olho estava dormente. Em vez de se ter um projecto guiado pelos ansianenses, tem-se um projecto no qual as ideias dos projectistas tornaram a Vila de Ansião igual a muitas outras. Isto resultou basicamente num processo que desvirtuou a Vila de Ansião, num perigoso processo de homogeneização cultural.
O que prevaleceu foi a ideia de um arquitecto e engenheiro, mesmo que fosse, como se vê, uma ideia estereotipada sobre o que deve ser o centro histórico de uma Vila com especificidades próprias e intransmissíveis. Poderia ter-se feito tudo de uma outra forma e não é o facto de ter um pequeno rectângulo de calçada portuguesa no meio daquela obra, que há legitimidade na coisa. 
Sinceramente até estou surpreendido pelo facto de, em conversas várias, me ter apercebido que parte significativa das pessoas não ter gostado muito do desvirtuar da Vila. Concordam que está mais bonito, mas afinal as obras poderiam ter sido feitas de uma outra forma e mesmo assim ficarem bonitas e com a memória respeitada. 
Um dos pouco factos que me agrada, mas que poderia ser feito à mesma caso as obras tivessem tido outro rumo, é agora as pessoas com menor mobilidade (ex. cadeiras de rodas) terem muito mais facilidade para se deslocarem na Vila de Ansião. Mobilidade que, noutro prisma, está afectada a nível de manobras de carros de maior dimensão, caso de veículos de bombeiros.
Falando agora naquilo que as próximas imagens mostram, o desaparecimento de muito do verde que por ali existia, as imagens falam por si. Preocupa-me seriamente que os projectistas tenham decidido colocar aquelas árvores que têm apenas uma função visual e pouco mais. 
Quanto a uma outra questão, que não se vê, mas que decorre do desaparecimento do verde e da ainda maior impermeabilização do solo. No verão a temperatura ali será maior, o que obviamente tem os seus impactos em termos de conforto humano. A obra não teve em conta aspectos básicos neste domínio, mas futuramente irei destacar esta questão, em termos de climatologia urbana.
Pessoalmente não achei graça alguma aqueles pequenos jactos de água, implantados no chão, pois além de não fazerem parte da memória do centro da Vila, são apenas um desperdício recursos valiosos...
Deixo-vos agora com algumas imagens do antes e do depois das obras, as quais servem para reflectirmos um bocado sobre aquilo que pretendemos para o nosso território:





 





segunda-feira, 23 de julho de 2012

Paisagens electrizadas de Sicó



O motivo pelo qual me debruço agora sobre esta questão, deve-se ao facto de, já por várias vezes, me ter sentido bastante incomodado por, ao tentar tirar uma fotografia panorâmica de Sicó, ter sempre um estorvo no horizonte, não conseguindo assim uma imagem limpa. Alguns até poderiam dizer que isto é normal, no entanto eu não considero isto normal, já que afinal estamos numa região com atributos paisagísticos fabulosos, o que supostamente deveria significar o estar livre de estorvos paisagísticos.
Será que é normal numa região tão extraordinária como Sicó é normal uma pessoa querer tirar uma fotografia e ter sempre uma pedreira, um parque eólico, uma linha de alta tensão ou outro qualquer estorvo paisagístico? 
Estas duas fotografias representam bem o que pretendo dizer, especialmente a primeira. Este exemplo situa-se em Penela, mas não é único. Esta área, em especial, considero-a uma das mais bonitas da região de Sicó.
Poderia alongar-me aqui mais umas linhas, no entanto deixo "apenas" o apelo para que nos próximos tempos vejam bem à vossa volta e reflictam sobre esta importante questão. Não basta dizer que se gosta de Sicó, há que defender a região de tudo aquilo que a prejudica gravemente e que fere de forma muito objectiva os seus muitos atributos patrimoniais.
Sicó anda a perder partes significativas dos seus belos atributos, o que significa más notícias para todos os que cá vivem e para todos aqueles que cá podem vir. Pensem nisso sff...


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Os poços de Sicó



Há os feios, os perigosos, os bonitos, os seguros, os pequenos, os grandes, os práticos, os elaborados, os mórbidos, etc, etc, etc. Falo, claro, dos poços de Sicó. 
Acima de tudo há aqueles que contam uma história de várias décadas, mesmo que a maioria não a saiba percepcionar no seu todo. Não os conheço todos nem nunca conhecerei, no entanto uma coisa sei, a que conheço muitos. Há um, em especial, que embora não conheça, sei que será dos mais belos da região de Sicó, garantia de um amigo meu. Espero que brevemente possa ter a oportunidade de o visitar.




Nestes poços vêm-se pequenos grandes pormenores (lembram-se disto?!), os quais contam histórias de tempos onde não era normal considerar-se o poço como algo perigoso e feio, onde o poço tinha efectivamente uma função prática fundamental. Hoje em dia isso já não acontece em grande parte, pois parte significativa dos poços está votada ao abandono, resultado do dito desenvolvimento.
É pena que assim sejam, pois temos muito a aprender com os poços de Sicó e com tudo aquilo que está associado a este universo patrimonial, nomeadamente práticas agrícolas, a água e modo de vida.
Há vários meses atrás falei até do roubo de alguns dos elementos patrimoniais relacionados com os poços de Sicó:
Felizmente que algumas ainda se mantêm no seu posto, livres de roubos perpetrados por gente que mais tarde acaba por os colocar á venda na internet, de forma impune...


Esta última fotografia é de um dos maiores e mais bonitos poços de pedra que conheço, o qual tem esta bela escadaria, que hoje em dia só é utilizada quando curiosos como eu a tenta descer.
A questão dos poços de Sicó é apenas mais uma das milhares de variáveis que deveria entrar naquela que pode bem ser uma bonita equação, o desenvolvimento territorial.
Só para terminar, quando, no início, me referi aos poços mórbidos, quis, de uma forma sublime, referir-me à triste realidade que ainda é algumas pessoas utilizarem poços para se suicidarem, algo que nos deveria fazer pensar bem no valor das coisas e da vida. Há que valorizar mais a vida, a nossa gente e os nossos poços...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Quintas de Sicó: episódio nº 2



E finalmente lá arranjei tempo para mais uma ronda pelas Quintas de Sicó, algo que aprecio de sobremaneira. Relembro que o intuito principal das "Quintas de Sicó" é o de alertar para o facto de, apesar de termos um valoroso património construído por toda a região de Sicó, o estarmos a menosprezar enquanto mais valia territorial e cultural. Isto reflecte-se, também, no estado de muitos destes edifícios com história. 

  

Outro intuito é o de tentar contribuir para que os naturais de Sicó valorizem uma arquitectura que fala por si em termos de beleza e história. Mas não só, também pretendo chegar aqueles que não são naturais de Sicó e que por algum motivo sentem que esta é uma região para apostar em termos pessoais ou profissionais. Isto porque nunca se sabe se daqui não surge uma paixão por Sicó e, assim, se recupera alguma Quinta ou Casarão de Sicó, valorizando o que é regional.
E não, não é algo impossível, é algo que vos posso garantir que é possível...
Em tempos de crise há boas oportunidades, portanto aqui está uma delas, basta mergulharem no território e descobrirem algumas destas Quintas de Sicó. Destas 4, conheço pessoalmente apenas uma, no entanto admiro exteriormente qualquer uma delas pela sua beleza.


Naturalmente que também pretendo alertar para a necessidade de reabilitação do edificado existente. Há muito por onde reabilitar e há muitas oportunidades que algumas empresas de construção poderiam aproveitar. Se assim tivesse sido, várias empresas não teriam tido de fechar, pois preferiram fechar os olhos e seguir o caminho mais fácil...
Muitos seguem o caminho mais fácil e depois arrependem-se. No que concerne aos que cá vivem, é um facto que poucos são os que apostam na reabilitação do edificado, preferindo as "caixas de fósforo" sem alma, feitas de betão, tijolo e tijoleira. Há que desmistificar que recuperar casas antigas não é careiro como dizem, há apenas que fazer escolhas acertadas. Se podendo ter uma casa antiga recuperada ao mesmo preço do que uma "caixa de fósforo", tendo maior qualidade de vida, porque se continua a apostar no caminho errado? Não há nada como uma casa com alma e com história!
Poucos são os que fazem questão em manter de pé algumas destas Quintas de Sicó, a esses os meus parabéns por manterem parte da alma de Sicó.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Geovândalos TT de Sicó


E lá me deparei, mais uma vez, com o triste cenário... 
Mais uma vez volto a chamar à atenção para um problema real e que prejudica cada vez mais a região de Sicó, ou seja o geovandalismo promovido por meia dúzia de marmelos que acha graça andar a fazer coisas erradas no local errado. Geovândalos, é este o termo que também sugiro que se utilize quando alguns marmelos do todo-o-terreno façam o que se vê nesta fotografia.
Porque não vão estes marmelos para outras paragens? Porque não vão eles ali para o meio dos eucaliptais do Maciço Antigo, onde pouco há que estragar? Porque se tolera isto numa área tão rica e, contudo, tão frágil em termos ambientais como é Sicó?
Porque dizem estes marmelos que gostam da terra quando afinal a degradam de forma gratuita e inaceitável? Se gostam de TT tudo bem, não sou fundamentalista, mas ao menos que o façam em locais próprios ou em locais onde as consequências sejam diminutas.
É triste ver que, cada vez mais, surgem estas feridas na paisagem, feridas estas provocadas por gente sem consciência e sem paixão por Sicó. Há que apelar a todos para que não tolerem nem apoiem algo que degrada a olhos vistos locais extremamente belos como é este o caso. Há que punir severamente quem faz isto, a bem de Sicó!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Os pequenos grandes pormenores do património


Não, não é engano, o título deste comentário é assim mesmo. Á primeira vista as pessoas observam esta fotografia e, aquelas que até sabem algo, dizem logo que esta é uma estrutura associada ao abastecimento de água de outros tempos. É obvio que é isso mesmo, mas não é o óbvio que pretendo abordar, é sim aquele pequeno pormenor que passa ao lado da maior parte de vós...
É certo que o pormenor que pretendo salientar até pode estar à vista de todos, no entanto só os olhares mais atentos é que param para pensar e, daí, elaborar um raciocínio lógico dedutivo no domínio da vasta temática que é o património.
Olhando bem para aqueles pilares, o que vêm nos mesmos? Simples, umas pedras saídas para fora, as quais não são mais do que degraus, à antiga, que de uma forma simples e eficaz faziam o seu trabalho. Estes degraus são algo que, para mim, tem um significado muito próprio, o conhecimento dos antigos, em épocas em que estes não ligavam o complicómetro quando precisavam de fazer as coisas.
Hoje em dia, para fazer as coisas mais simples, ligamos o complicómetro e debatemo-nos a fazer algo que, sendo simples, se torna no final complicado. Na lógica de um qualquer vendedor, para fazer uma infraestrutura destas, além de toneladas de betão, ferro e afins, seria necessário uma escada em cada um dos pilares de betão construídos nessa obra faraónica. Além disto ainda iria surgir uma qualquer entidade a dizer que aquilo tinha de ter condições de segurança e isso significaria mais qualquer coisa a fazer, mais um gasto evitado de matéria prima. 
Este último ponto pretende acima de tudo demonstrar que, muitas vezes, não vale a pena complicar o que é fácil, que se podem utilizar recursos de forma sustentada e racional. Já se questionaram acerca dos muitos porquês da crise? Também por isto...
Obviamente que a questão patrimonial está também bem presente, esperando eu que com este breve contributo muitos possam começar a olhar com olhos de ver aqueles pequenos grandes pormenores que fazem toda a diferença. Numa região tão rica em termos patrimoniais, como é o caso de Sicó, os pequenos grande pormenores estão em cada esquina, em cada recanto, bastando focar a nossa atenção naquilo que realmente é importante e não naquilo que é supérfluo e inconsequente.
No próximo passeio por Sicó, ou mesmo no vosso dia-a-dia, reparem nos pormenores e deliciem-se com esses pequenos grandes pormenores, é esse o meu conselho.