quinta-feira, 19 de julho de 2018

Será que a limpeza vai resultar?



Claro que não vai resultar, porquê? Simples, porque a lei que levou a que tanta limpeza fosse feita, foi elaborada em cima do joelho e pensando fundamentalmente na imagem política, fortemente afectada pelo elevadíssimo número de vítimas mortais nos incêndios de 2017. Em termos práticos terá um efeito quase nulo. É certo que houve quem limpasse da forma correcta, mas houve também muito arboricídio, parte derivada da iliteracia ambiental crónica e parte por aproveitamento de quem viu ali uma oportunidade para cortar árvores protegidas a coberto de uma lei vinda no pacote dos cereais. E, claro, muito hectar ardido à conta de borralheiras feitas com o intuito de limpar o que se cortou. Ou seja está tudo na mesma! E quanto ir ao cerne da questão, está quieto... Por exemplo, diminuir a área de eucaliptal não pode ser, já que mexe com interesses poderosos...
Já agora, as duas imagens acima são de um mesmo terreno, parte limpo, parte por limpar, em Ansião.
O Verão está a ser pacífico até agora e, aparentemente, será relativamente calmo. Depois, no final, e apenas com umas dezenas de milhar de hectares ardidos, aposto que o poder político virá com o discurso que as medidas que tomou foram um sucesso, quando afinal o sucesso se deveu apenas ao S. Pedro... O zé povinho, esse ficará impávido e sereno, como é costume.
As medidas que poderiam reverter este cenário tardam em chegar. Confesso que fui um bocado ingénuo ao pensar que depois de 2017 e da dupla tragédia, algumas coisas poderiam mudar. Infelizmente não foi o caso. Sabemos as causas, mas teimamos em não aprender a lição mais importante de todas...

sábado, 14 de julho de 2018

PDM serve para quê, fazer tábua rasa dos valores naturais?!


Foi há poucas semanas que fiquei a conhecer esta situação e agora, que já houve mais desenvolvimentos, venho então abordar a questão no azinheiragate.
Mas vamos aos factos. A Câmara Municipal de Alvaiázere achou por bem elaborar um projecto de alargamento de uma zona industrial (na foto inicial...) e candidatar o mesmo a fundos comunitários. Consta que foi aprovado. Até aqui tudo normal e desejável, só que há um pequeno pormenor que faz toda a diferença e que me indigna enquanto cidadão e geógrafo. Tudo isto foi feito à revelia de, pelo menos, um proprietário de um terreno que agora a Câmara Municipal de Alvaiázere quer expropriar. Resumindo, fez tudo à revelia do dono do terreno em causa e já depois do projecto aprovado é que lhe enviou uma carta registada a manifestar o interesse em comprar o seu terreno. Caso recusasse, seria expropriado. Já nos últimos dias, mais uma carta registada, onde alegadamente é manifestado o interesse numa expropriação urgente, de forma a começar a obra. Ou seja, tudo isto no espaço de um mês...
Como foi possível entidades públicas várias autorizarem tudo isto? Será isto ético e correcto?


O terreno em causa faz parte de uma quinta, a qual me surpreendeu pela beleza e pelo património natural e construído ali presente. Há um projecto (entrado nos serviços da Câmara há 10 anos, portanto nem sequer pode ser alegado desconhecimento do mesmo), no qual já foi investido algum dinheiro, que fica em risco agora. Mas não só, caso a obra avance, dezenas de árvores de grande porte vão ter de ser abatidas, de entre as quais sobreiros centenários (árvore nacional....), carvalhos centenários e azinheiras (protegidas). 
Como é isto possível?! Elabora-se um projecto em terreno alheio e sem conhecimento do proprietário? O ordenamento do território é feito para e com as pessoas, não sem as pessoas e para as empresas virtuais. Um PDM serve para gerir todo um território e não é uma mera formalidade. Um PDM serve para definir onde se deve ou não construir, de forma a salvaguardar valores..
O terreno em causa consta no actual PDM (1997) como espaço industrial proposto e, esperava eu, que com a revisão do PDM (em curso há 10 anos...) situações incongruentes como esta desaparecessem, contudo, e como descobri agora, não foi o caso. Tanto se criticava o PDM e agora, que está em revisão, aproveita-se para abrir uma porta para... construir onde não se devia, pegando não no novo PDM, em revisão há mais de uma década, mas sim num PDM da década de 90. As perspectivas sociais, económicas e ambientais são diferentes de 1997, contudo isso parece que não interessa agora... Até agora as únicas duas alterações de pormenor ao PDM foram para legalizar uma construção ilegal (1 piso feito a mais num prédio) e para legalizar uma pedreira que explorava pedra em desconformidade com o PDM...


As alternativas existem, não existe é vontade política. Não vi qualquer estudo onde as alternativas fossem estudadas/avaliadas e não será por acaso. Já na altura em que trabalhei naquela autarquia, a conversa era a mesma. Nessa altura o que alguns diziam era que as alternativas eram uma coisa chata, já que implicava movimento de terras numa das outras localizações, mesmo que sem impactos relevantes em termos ambientais ou patrimoniais...
O que seria de esperar, tendo em conta a revisão do PDM, era de que se fizessem estudos vários, nomeadamente sobre localização e eventual alargamento de zonas industriais, contudo aqui não se fez isso, porquê? Não se salvaguarda o património por um lado e por outro afirma-se à imprensa que o património é um motor de desenvolvimento. Esta é uma prova cabal da consideração que o património efectivamente tem em Alvaiázere, um velho hábito por estes lados. Ouvi falar também em medidas de compensação, mas como é sequer possível compensar o abate de árvores protegidas, seculares?! Os sobreiros, carvalhos e azinheiras não são muros, que dão para destruir e depois construir imediatamente noutro local!
Este projecto nada tem a ver com convergência e equilíbrio entre as várias necessidades diagnosticadas, nem é sequer do interesse para a sustentabilidade, muito pelo contrário. É do interesse para a construção, nada mais. Destrói-se património natural insubstituível, destrói-se serviços ambientais importantes e por aí adiante. Se fosse feito um estudo afecto às alternativas, aí sim, seria pugnar por uma convergência e equilíbrio entre as várias necessidades diagnosticadas. Todas elas têm algo em comum, o território e os seus valores, tudo parte do território e quando se manda às favas o território, tudo o que está a jusante vai ter problemas, mais tarde ou mais cedo.
O proprietário desta quinta tem todo o meu apoio na defesa deste património. É um orgulho ver um cidadão lutar pelo património, coisa que em Portugal, e apesar dos avanços, ainda tem muito que avançar. Há alternativas, portanto é por aí o caminho a trilhar em prol do desenvolvimento de Alvaiázere, que todos desejam.
E aproveito para dar conhecimento a todo/as de algo importante. Em 2017 participei numa formação de empreendorismo na incubadora de negócios de Alvaiázere, onde está a ser feito um trabalho muito interessante. A ideia era localizar uma empresa que pretendo abrir nos próximos meses (por motivos pessoais tenho adiado o início da actividade) em Alvaiázere, dado o bom trabalho ali feito, a localização e infraestrutura que já existe e outra que deverá estar em funcionamento em breve. Com muita pena minha comunico hoje formalmente que não pretendo mais localizar ali a empresa que irei criar, ligada à temática ambiental. E é realmente uma pena, já que Ansião não tem o espaço que eu gostava que tivesse para albergar empresas como aquela que tenho idealizada.
Este episódio mostra que não há garantias no que concerne à preservação do património que tanto prezo e pretendo potenciar em termos ambientais, sociais e económicos. Para quê investir em algo que não temos garantia que continue a existir no curto prazo?
Portugal tem muito que evoluir e Alvaiázere não é excepção.


terça-feira, 10 de julho de 2018

Um livro por semana nem sabes como a barraca abana!

É um título chamativo e a intenção é mesmo essa, provocar o interesse pela leitura... Volto então às sugestões de leitura, de forma a vos espicaçar para este belo passatempo que é ler livros. E que tal começarem a pegar num livro e ir para os jardins devorar letras, palavras, frases e parágrafos? Há que aproveitar o bom tempo...
Este primeiro livro, do genial Jared Diamond, descobri-o por acaso numa livraria, e logo a muito bom preço. Nem foi preciso pensar muito e é mais um para a minha biblioteca pessoal.


É o primeiro livro que tenho deste autor, João César das Neves. Dei uma olhadela, na transversal, de forma a perceber se seria interessante. Percebi que sim e foi mesmo esta a minha escolha aquando da feira do livro de Ansião, há poucas semanas.


Quem me conhece, sabe que gosto de várias temáticas, sendo que as cidades e tudo o que se relaciona com elas se inclui nos meus interesses. Quando me deparei com estes dois livros de Charles Landry, dei uma olhadela e assim já vou ler sobre outras perspectivas sobre o espaço urbano. Nada a perder, tudo a ganhar.



Esta revista foi uma bela descoberta. Há poucos dias desloquei-me à Polónia, de forma a participar num congresso sobre património geológico e geoconservação. Já no último dia por aqueles lados, visitei uma livraria e deparei-me com este número desta revista. Bastaram poucos segundos para me decidir pela compra. Novas perspectivas que só enriquecem quem ousa ler coisas novas. Na viagem li dois dos artigos e confesso que adorei... 


Que dizer? National Geographic Portugal, em bom português. Leitura mensal que recomendo vivamente. Esta revista mudou o mundo para melhor!


Leitor desde o primeiro número, continuo a recomendar a Smart Cities portuguesa. Conteúdos de qualidade, que não só informam como ajudam a mudar mentalidades e paradigmas. Em bom português, claro! Desde este ano que alguns podem dizer que sou suspeito para sugerir esta publicação, já que por duas vezes escrevi conteúdos para esta revista, contudo, e como não recebo nada por isso, não me considero suspeito.


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Uma questão de mobilidade individual...


Quem é de Pombal ou quem conhece bem Pombal reconhecerá o que se vê nesta fotografia. É um dos poucos bons exemplos da integração arquitectónica necessária para facilitar a vida a quem tem mobilidade reduzida ou condicionada. Trata-se da escadaria do Mercado Municipal, a qual integrou de forma harmoniosa uma rampa, a qual possibilita transposição deste patamar por parte de cadeiras de rodas ou pessoas com muletas e afins. Quem não estiver com atenção nem repara no pormenor, mas é ver com atenção...
Porque abordo esta questão? Simples, porque trata-se de bom urbanismo, o qual é fundamental para que tenhamos cidades e vilas inclusivas, onde todos possamos mover-nos sem grandes dificuldades. Se acham que tudo está bem, imaginem-se numa cadeira de rodas e tentem imaginar as dificuldades que teriam para ir do ponto A ao ponto B. Falta sensibilização neste domínio, daí eu voltar a focar esta questão, com um exemplo de boas práticas, neste caso em Pombal. Agora vejam o que se passa nas vossas vilas e percebam o muito que há por fazer neste domínio. Há que pugnar não só pelo cumprimento da lei, bem como pela vulgarização das boas práticas. Todos temos a ganhar com isso. E mesmo que alguns pensem que isto não é importante, pensem como será quando tiverem 70 ou 80 anos e as pernas começarem a pesar....

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Arquitectura e paisagem na região de Sicó


Arquitectura e paisagem são dois temas que muito me interessam, seja de forma dissociada, seja de forma associada. Em 2014 participei na consulta pública do Plano Nacional de Arquitectura e Paisagem (PNAP) e julgo que até sugeri alguns pontos relativos aos que agora destaco. Em Março último, estive também num evento que decorreu do PNAP, sobre Arquitectura e Paisagem, na CCDR-Norte, que teve casa cheia. Fui porque fiz parte da equipa que elaborou o primeiro Plano Municipal de Paisagem em Portugal, daí ser, para mim, muito importante estar presente naquele evento. E valeu a pena, vos garanto.
A foto que utilizo como "alibi" para este comentário é o exemplo perfeito do problema que pretendo abordar, ou seja os monos na paisagem, que afectam e degradam a paisagem cultural de Sicó. Esta imagem é da colina de Trás de Figueiró, em Ansião. Uma das primeiras coisas que chama à atenção é aquela habitação em construção. Não tem enquadramento paisagístico e isso deve-se à falta de legislação. É possível construir respeitando o território e a paisagem, em harmonia. Basta olharem com atenção e verão que do lado esquerdo daquele mono na paisagem existem mais habitações, contudo estão minimamente enquadradas.
Podem dizer que é só um mono na paisagem, mas não se esqueçam que existem centenas destes exemplos e que são exemplos como este que degradam cada vez mais a paisagem cultural de Sicó. Em vez de valorizarmos as nossas características e mais-valias, estamos apenas a contribuir para que estas sejam cada vez mais prejudicadas. E depois não há volta a dar...
É preciso debate e consciencialização, daí lançar aqui um repto, o de organizarmos um congresso sobre arquitectura e paisagem da região de Sicó, onde se englobe isto e outros aspectos mais. Sicó fica a ganhar e a auto-estima de cada um de nós também. Se alguma entidade pública ou privada estiver interessada, já sabem onde me encontrar...


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Pára e pensa onde podes estacionar a tua bicicleta...


Volto a falar de uma questão que abordei já há uns tempos. Nesta altura do ano, muito propícia para andar de bicicleta, surgem cenários que mostram algo de importante. Falo, claro, da imensa falta de locais de estacionamento próprios para as nossas amigas bicicletas. Não é aceitável termos de deixar as nossas bicicletas presas com um cadeado a um poste, sinal ou outro qualquer objecto passível para prender as nossas amigas de duas rodas.
Desafio-vos a descobrir quantos locais de estacionamento para bicicletas existem na vossa vila ou cidade. Este, na imagem, fica em Pombal, cidade muito favorável para andar de bicicleta, mas pouco amiga dos modos suaves. O pópó é quem mais ordena...
Há poucos meses sugeri a uma autarquia a criação de mais locais de estacionamento para bicicletas, nas sedes de freguesia e nas escolas, a ver se as mentalidades continuam a mudar e se os modos suaves começam a recuperar o que também é seu. Modos suaves ao poder! A vossa saúde agradece e a qualidade de vida que tanto almejamos estará mais perto...