Quinta-feira, 15 de Março de 2012

O património e as questões fracturantes


Muitas vezes ouvi dizer que uma imagem vale mais do que mil palavras, no entanto há imagens que para serem descritas necessitam de mais de mil palavras. Esta é a primeira vez que trago à discussão um tema que considero fracturante no domínio da questão patrimonial.
Alguns de vós saberão onde se situa este lugar, no entanto o importante da imagem é o significado de algo maior, que representa um verdadeiro problema no domínio não só patrimonial, bem como do próprio âmbito territorial.
A imagem que hoje vos trago é singela, já que há um evidente contraste na mesma. De um lado uma capela já com uma longa história, enquanto que do outro lado está um edifício habitacional recente.
Recorri a este exemplo por dois motivos, o primeiro tem a ver com o meu conhecimento do lugar, pois este foi um dos que fez parte da minha infância. O segundo tem a ver com o tal contraste evidenciado na mesma.
Aliada à já por si complexa questão, está o que eu denomino como choque patrimonial de gerações. São poucos os que sabem, mas neste exemplo, em concreto, está-se a lidar com um problema que já trouxe muita conflictualidade a nível local. A construção deste edifício habitacional trouxe à ribalta o tal choque entre gerações, já que de um lado está a população, maioritariamente idosa, de outro lado gente jovem. Os primeiros, e alguns mais jovens, não acharam muita graça aquele objecto estranho que surgiu ao lado da capela, os segundos fizeram aquilo que afinal tinham direito, construir a sua residência.
Não estou aqui para julgar nem uns nem outros, estou sim para apontar uma questão que raras vezes é tida em conta na temática do património e mesmo no âmbito territorial, nomeadamente PDM. Não raras vezes surgem atritos em situações como esta, mas esta é especial, já que mexe com valores e crenças ancestrais. Já raras são as vezes em que se tenta de alguma forma evitar o que afinal é um problema, onde se poderia reunir os jovens e os menos jovens para que situações como esta não acontecessem. 
Pessoalmente considero que se deveriam debater questões como esta, de modo a que quando surgisse a intenção de construir em áreas sensíveis, tal como é a envolvência de locais de culto (ou outros) como é aquele, as coisas corressem bem, de forma integrada e não desconexa
Pessoalmente considero que há ali um contraste fracturante, ou seja considero que há realmente um "objecto" estranho que perturba a paz do lugar. Para que não digam que eu sou parcial, eu nem sequer sou religioso, facto que logo à partida deitará por terra quem tentar puxar por este argumento. Podem apontar a parcialidade de eu falar de um local que conheço, mas afinal é esse meu conhecimento que me dá as mais valias para falar sobre o caso.
Considero apenas que em pequenos lugares como é este, há certas coisas que têm de ser salvaguardadas, como por exemplo a identidade do lugar. Quem, como eu, conhece aquele lugar, saberá do que estou a tentar falar.
Lembrem-se que no final de tudo está a nossa identidade, que urge preservar. É certo que as identidades constroem-se, mas essa construção deve ser feita de forma dinâmica, e não de forma fracturante, tal como é este o caso. Isso além de não ser saudável, só representa uma perda de identidade local.
Esta é uma questão que certamente não vai suscitar muito interesse, no entanto eu não me movo por número de visualizações, movo-me apenas e só pelo património. Para bom entendedor...

Quarta-feira, 7 de Março de 2012

Memórias do património


É uma fotografia que eu considero bem interessante, pois ilustra bem a questão que agora pretendo abordar.  O belo pião, que ilustra o património, tem uma sombra que representa, nesta caso, a memória dele mesmo. Gosto de pensar em fotografias diferentes daquilo que a maioria de vós costuma ver, pois é uma das formas de conseguir estimular o pensamento activo sobre questões estruturantes. Por isso mesmo é que de vez em quando lembro-me de fazer algo como o que a foto ilustra.
Na minha juventude eu fartava-me de jogar ao pião e outro dia, ao visitar um centro interpretativo  (Escola do Monte), deparei-me com este que fez de modelo para a fotografia. Quando voltei a jogar ao pião, pareceu-me que retrocedi uns 20 anos no tempo, sensação rara de se ter.
Indo então ao cerne da questão, o pião serve, neste caso, para estimular a reflexão sobre as nossas memórias acerca do património. Obviamente que a palavra património abarca muita coisa, mas as definições são chatas e eu gosto de tratar aqui as coisas de uma forma atractiva. 
Importa-me fundamentalmente alertar sobre o que se tem perdido, em termos de património, seja ele qual for. Parte deste património infelizmente já só existe nas memórias perdidas de cada vez menos pessoas, as quais aos poucos vão partindo. Escusado será dizer que partindo estas pessoas, extingue-se algo, um património que depois de perdida a memória, fica perdido para todo o sempre. 
Há muitas formas de falar desta questão, mas desta vez penso que o ideal será mesmo fazer lembrar aqueles que se lembram bem da sua juventude, onde brincadeiras e traquinices à parte, aprendia-se muito. Estas aprendizagens tiveram sempre, directa ou indirectamente, uma influência positiva quer no crescimento das nossas capacidades cognitivas, quer no nosso crescimento físico. Era portanto uma aprendizagem consequente.
Algumas brincadeiras eram perigosas, caso de subir lá ao cimo dos pinheiros e/ou outras árvores, mas isso faz parte do processo. Outras não eram perigosas, mas eram igualmente importantes, caso das incursões ao meio do mato. Era nestes e noutros "simples" gestos que cada um de nós tomava contacto com a terra, com as árvores, com os animais e com aqueles girinos que íamos apanhando na ribeira. Isto já para não falar quando cada um de nós entrava furtivamente naqueles edifícios abandonados, cheios de instrumentos vários. Aprendíamos a lidar com tudo aquilo que fazia crescer as nossas capacidades, facto que claramente foi uma mais valia para todos.
Outro facto importante, e que prefiro destacar à parte dos outros que já referi, é aquele de quando muitos de nós iam trabalhar para os terrenos da família em certas ocasiões, como por exemplo a apanha da azeitona. Aí acontecia termos de beber água dos regatos, por vezes com uma folha de couve. Nessa altura não dávamos valor ao facto da água se beber bem e não estar poluída (era algo de normal), mas agora já damos o real valor, pois hoje em dia já não é tão seguro fazer o mesmo...
Reviver estas e outras memórias é claramente importante nos dias de hoje, pois as alturas de crise são óptimas para mostrar a todos vós que o que é realmente importante é esta memória de que vos falo. É esta memória que fez de nós quem somos, restando que cada um de nós valorize e potencie tudo o que de bom esta memória representa neste valoroso território.
Alguns dos próximos comentários vão salientar a importância desta memória do património, pois ultimamente tenho tido a sorte de encontrar algumas dessas memórias, tudo com a ajuda de alguns amigos que também pugnam pelo fabuloso património da região de Sicó.
Sei que algumas pessoas não vão compreender bem o alcance deste breve comentário, já que algumas são novas demais para saber do que falo, no entanto muitos outros irão compreender e sentir bem o que pretendi destacar. São esses que neste momento podem fazer toda a diferença e são esses que me podem ajudar a ensinar e a partilhar conhecimento com os mais jovens!

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Moinhos de água de Sicó


Não sei quantos existem na região de Sicó, sei apenas que o cenário relativo a "99,9%" deles é o que a foto espelha, ou seja o abandono e a ruína. Conheço alguns e inclusivamente em criança brinquei num ou dois deles.
É certo que os tempos são outros, pois afinal a base que sustentava o funcionamento dos moinhos de água da região de Sicó, pura e simplesmente desapareceu. O modo de vida actual levou à extinção de um modo de vida típico e valoroso, mas será que devemos ficar passivos perante o desaparecimento de partes importantes da nossa identidade local e regional?
Recuperar o passado é uma das coisas mais valiosas que poderemos fazer, a bem do presente e do futuro. Não digo recuperar na lógica circense que muitas vezes se observa, digo recuperar na lógica de não deixar morrer uma identidade que a todos nos diz respeito. Não vejo um moinho de água simplesmente como um objecto, pois afinal este mesmo objecto é a face de algo maior, a evolução humana e tudo o que isso encerra em si mesmo.
Há que envolver esta juventude nestas questões. Não têm tempo? Ter têm, mas os valores que lhes foram incutidos levou a que muitos percam mais tempo em facebooks e afins do que naquilo que é realmente essencial, o viver o território e o património. As vantagens são evidentes, embora a maioria não se aperceba disso mesmo. A aprendizagem faz-se através do contacto com as coisas, e isso é realmente importante para toda uma juventude cada vez mais alicerçada no conhecimento supérfluo e, portanto, inconsequente.
Factos importantes a pensar, a bem de todos nós e na nossa identidade. Fica o desafio!

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Centro de Interpretação da Nascente dos Olhos de Água: a confirmação de um "elefante branco"


Quem o viu e quem o vê, é esta a melhor expressão que encontro para voltar a falar de uma questão me muito me diz. Apesar de não ter sido contra o projecto, fui contra a forma como ele foi feito. Manifestei isso mesmo desde o início e só tenho pena de quem lançou o projecto não responda agora pelo seu insucesso.
Foi um projecto que alguns denominaram como "espelho de Ansião", mas quem disse isso mesmo deve estar amargamente arrependido...
Lançou-se um projecto mal pensado e mal elaborado, tendo-se baptizado o mesmo como "Centro de Interpretação da Nascente dos Olhos de Água". A "criança" foi mal baptizada, pois na realidade de Centro de Interpretação da Nascente dos Olhos de Água, este nada teve.
A minha intenção com este comentário não é falar do que já falei, é sim juntar factos recentes à questão. As actuais obras que podem ver na envolvência do edifício, ou aquelas que não se conseguem ver dentro do edifício, confirmam aquilo que sempre disse. Este projecto foi, além de um sorvedouro de fundos comunitários, e públicos, um erro crasso que hipotecou Ansião. Foi uma obra "só para inglês ver" e quiçá, "meter inveja" a concelhos vizinhos.
Se as coisas tivessem sido feitas com cabeça, tronco e membros, o cenário não seria o que passados quase 4 anos se vê, ou seja novas obras. A cerimónia de inauguração foi com pompa e circunstância:
Mas passados poucos meses o espaço já era pouco mais que um espaço sem vida e propício a vandalismo (que tristemente já dei conta...). Infelizmente as memórias são curtas e a responsabilização de quem promoveu este projecto é nula. Sinceramente gostava de ouvir o anterior autarca, precisamente aquele que é responsável pelo insucesso de tal projecto que nos ficou bem caro. Quando é para ouvir palmas os políticos estão sempre presentes, mas quando é para ouvir críticas, mesmo que honestas e construtivas, eles ou não aparecem ou então dizem que as críticas são mal intencionadas, típico de quem não tem argumentos contra factos concretos.
Curiosamente, ou não, nunca foi devidamente valorizado e potenciado o principal valor daquele lugar, ou seja a nascente dos Olhos de Água e o importante aquífero ali existente. Ao invés preferiu-se retirar água, através da captação, só para encher a pequena represa, de modo a criar um pequeno lago de água parada na maior parte do tempo. Sensivelmente nos últimos 15 anos, a ribeira só corre 2 ou 3 meses por ano, lembro-me de há 20 anos ela correr de Outubro a Abril, facto que nunca foi tido em conta no projecto (se a base é a água e ela é escassa...).
Outro aspecto que lamento, é o da falta de capacidade de dar alma e vida aquele espaço, É certo de teve um pequeno café, um pequeno posto de turismo, que teve meia dúzia de actividades, mas foi muito, mesmo muito pouco para 4 anos. Das actividades que mais interessavam, nomeadamente no âmbito educativo, pouco ou nada se viu. Quando a obra foi inaugurada, eu disse claramente que mesmo discordando de como esta foi feita, poder-se-ia aproveitar devidamente o espaço, no entanto assim não aconteceu. Não se apostou num leque diversificado de actividades várias, que abrangessem desde as escolas, comunidade local, turistas e inclusivamente universidades ou institutos politécnicos existentes a escassas dezenas de km.
Não se apostou igualmente nos jovens do concelho, alguns dos quais de forma gratuita poderiam ter dado vida e alma aquele espaço, através de actividades várias, devidamente enquadradas e tuteladas pela autarquia local.
Enfim, são factos que gostava que fossem abertamente discutidos, especialmente pelos ansianenses. Sinceramente não espero que estes o façam, já que quando a maioria de nós fala sobre o assunto, fala baixo e apenas ao pé dos amigos. Mesmo assim fica o apelo ao debate, pois isto interessa a todos, ansianenses ou não. Quando nos queixamos do facto das coisas correrem mal, temos de ir mais adiante, já que as lamentações não levam a lado nenhum, ao contrário do debate honesto, construtivo e longe de politiquices encapotadas. Não há que ter receio de abordar estas questões, pois sendo as pessoas de bem todos nos conseguimos entender.

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

A justiça não folga ao domingo!


Foi num belo domingo de sol que certo cidadão teve uma atitude reprovável, quando se lembrou de queimar resíduos altamente poluentes, o que configura um crime ambiental grave. Sinceramente, e por mais esforço que faça, não compreendo o que é que passa pela cabeça de alguém que tem atitudes reprováveis e altamente lesivas em termos de saúde pública. Será que esta pessoa pensou que aos domingos não haveria fiscalização? Será que confiou no facto da grande maioria dos ansianenses ser passivo perante tais actos?
A resposta não sei, sei apenas que pensou mal, já que a fiscalização não folga aos domingos, e que confiou em demasia, já que apesar da grande maioria dos ansianenses ser passivo e tolerante perante tais actos, basta um para denunciar.
A manhã de sol até estava a correr bem, mas foi sol de pouca dura. O fumo negro deu muito nas vistas e eu obviamente fiz o que que qualquer uma das muitas centenas de pessoas que viram, deveria ter feito, ou seja denunciar! As mentalidades têm mudado, é certo, no entanto é um processo que demora muito e que teima em ter muitos desvios. Não compreendo porque é que os ansianenses (e outros) vendo algo que está mal, pouco nada fazem para mudar o que está mal. São escassos os que fazem algo, é a esses que agradeço os telefonemas que me fazem!
Estou para ver se um determinado jornalista, que vive ali bem perto, publica uma notícia sobre esta questão, pois afinal o fumo tóxico chegou-lhe às portas de casa...
Há que denunciar casos como este. Não há que ter medo, pois caso não queiram denunciar publicamente, sempre podem denunciar de forma anónima! Eu não tenho esse problema ou essa condicionante, pois faço as denúncias assinando por baixo. 
Por vezes vejo situações onde não vale a pena denunciar, valendo a pena sim ser pedagógico (já tive sucesso em algumas situações de pouca gravidade), no entanto em situações como esta não há perdão, dada a sua gravidade. Não é o ambiente que perdeu com esta queima ilegal de resíduos tóxicos, foi sim a comunidade, pois além de respirar gases tóxicos, irá beber, directa ou indirectamente, água poluída (dos aquíferos), é isso afinal que está em causa. Pensem nos vossos filhos, netos ou outros! Vão continuar a ser passivos perante actos tão gravosos como este?