sexta-feira, 27 de março de 2015

As chaminés de Sicó



É curioso como pensando apenas num objecto patrimonial se encontra muito mais objectos do que se não estivesse concentrado apenas num só. Falo claro das chaminés de sicó, esta bela obra da arquitectura vernacular de Sicó. Os exemplos ilustrados pelas fotos são apenas parte de um todo, para meu encanto.
São várias as chaminés, autênticas obras de arte, que se vão perdendo, pois a ruína é o cenário mais provável (infelizmente...) para muitas destas chaminés. Este comentário é mais um alerta, entre outros, para o mau estado do nosso património.


 


Penso que estas imagens falam por si mesmo, portanto vou deixar-vos com os vossos pensamentos acerca das chaminés de Sicó. Em vez de olharmos para baixo, para os écrans do nosso telemóvel, que tal começar a olhar para cima e ficar com um sorriso a contemplar as belas chaminés da região de Sicó?! Há que proteger, preservar e valorizar também este recurso!



domingo, 22 de março de 2015

O mau planeamento fica caro, muito caro...


Tenho esta imagem guardada desde o Verão de 2014. Como muitas, estava à espera de um comentário onde esta se pudesse enquadrar de forma concreta e objectiva. Apesar de ser uma fotografia com poucos meses, pretende ilustrar algo já com alguns anos. Trata-se de um exemplo de mau planeamento territorial, não per si, mas sim pelo que está a montante do mesmo.
Começando pelo início, e pela parte positiva, o que se vê na fotografia é uma obra onde um intuito principal foi o de ir buscar água de um poço situando a umas dezenas de metros dali. Isto com um propósito quase  nobre, o de poupar água da rede para a rega do relvado. Disse quase nobre porque a relva não tem valor ecológico e consome demasiados recursos, tendo consequências negativas. Ou seja, os relvados não são propriamente verdes... Mas já lá vamos.
O problema começou na década de 90, quando foi elaborado o projecto que contempla aquela rotunda e o acesso ao IC8 adjacente. Nessa altura existia por ali um enorme poço, e houve uma mente brilhante que achou por bem tapar o enorme poço. Confesso que não sei quem foi tal mente brilhante. Fez-se asneira e gastaram-se umas centenas de euros para tapar o "bicho". A mente brilhante era tão brilhante que se esqueceu que eventualmente o poço até podia ser enquadrado na obra, tapado por cima, ou não, tendo ali um recurso e uma mais-valia para utilizar no futuro. A obra foi feita, a rotunda finalizada e surgiu então o relvado. Para que pudesse haver relvado havia que proceder à sua rega, com água da rede pública. Em 2014 fez-se então uma obra (na fotografia) que pretendia evitar a utilização de água da rede, indo buscar água aos poços que ainda existem por ali. 
Resumindo, o mau planeamento resultou num gasto, perfeitamente evitável, de milhares de euros, pagos, claro, com o dinheiro dos contribuintes. Fica evidenciada a péssima decisão tomada na década de 90, a qual teve claros reflexos económicos em 2014.
Poucos de nós são aqueles que, quando confrontados com uma obra, pensam a mesma a curto, médio e longo prazo. Planeamento é isto mesmo, mas infelizmente temos ali um não planeamento, o que é pena.
À parte disto, queria apenas introduzir a questão dos espaços verdes. Como já referi, a relva não tem valor ecológico. Esta foi uma lição que aprendi há 13 anos, através de um notável geobotânico. Até essa data eu não ousava pisar relva, mas depois disso deixei-me de tretas. Se tiverem de pisar relva, pisem!
Outra lição que aprendi foi acerca dos espaços verdes, disciplina que fiz questão de ter, enquanto opção, ainda na licenciatura, já lá vão uns bons anos. Depois disso a minha visão sobre espaços verdes mudou radicalmente. Um espaço verde não é uma rotunda com relva, um espaço verde é uma rotunda sem relva, mas com vegetação a sério. Vegetação que não precisa de tanta manutenção, que não causa tanta despesa e que é realmente bonita. Brevemente irei dedicar-me especificamente a esta questão, de modo a partilhar convosco uma temática bem engraçada!
Já agora, porque é que, mesmo estando a chover, a relva é regada?!

quarta-feira, 18 de março de 2015

Quintas de Sicó: porque não nos recuperam?


Volto para mais um episódio da crónica "Quintas de Sicó", a qual visa fundamentalmente a sensibilização de toda a comunidade, bem como entidades públicas e privadas, para a importância estratégica da recuperação/reabilitação do vasto património construído na região de Sicó. 
Como é minha intenção, não divulgo a localização exacta dos edifícios em destaque. Isto de forma a evitar que gente sem escrúpulos possa degradar ainda mais este potentoso património. Quem reconhece saberá onde é e quem não conhece tem assim mais um bom motivo para a aventura nesta bela região que é Sicó. Usufruam deste território e descubram as maravilhas da região de Sicó!
Esta quinta, em particular, já não me lembrava dela, pois foram longos anos sem passar por ali. Num dos meus recentes "mergulhos" no território Sicó, acabei por me deparar com este fantástico edifício. Recuperado ficaria um espectáculo para todos verem e alguns usufruirem. Infelizmente está como a fotografia mostra. Nem imagino como estará por dentro. Não sei de quem é este edifício, no entanto espero que de alguma forma este humilde comentário possa ajudar de alguma forma à mudança. Sei que isso é muito difícil, no entanto tentar não custa. Há toda uma série de questões, por vezes interligadas, que dificultam a reabilitação e a manutenção de edifícios como este. Por estas e por outras é que iniciei há alguns anos a crónica "Quintas de Sicó". Se todos fizermos um bocadinho que seja por esta causa, concerteza que o cenário poderá mudar de alguma forma no curto, médio e longo prazo.
Nos próximos meses tentarei inovar nesta questão, convidando um arquitecto para debater esta problemática. Será interessante trazer aqui a voz de um arquitecto, esperando assim dar mais solidez a esta crónica. Entretando irei continuar a minha busca pelas belas quintas de Sicó, pois o património merece!

sexta-feira, 13 de março de 2015

A estratégia do cai cai...


Já andava a pensar neste caso em particular e, depois de uma conversa casual, onde surgiu a casa em causa, decidi que era hora de, utilizando a casa como motivo, abordar uma questão que muito me perturba enquanto geógrafo e enquanto cidadão.
A imagem que a fotografia ilustra faz parte de uma paisagem urbana que me acompanha há muitos anos, representando também património a preservar. Esta paisagem urbana tem-se caracterizado por dois factos principais, (1) a descaracterização urbana que, sob o propósito de uma espécie de requalificação urbana, se assistiu na Vila de Ansião e (2) a ruína consentida de vários edifícios com história. Esta casa catita é um dos exemplos da ruína consentida, a qual ganhou força nos últimos anos, desde que o telhado caiu. Felizmente que, na parte das paredes mestras, concretamente na fachada, o telhado tem-se aguentado, o que garante que a parede vai aguentar mais uns anos. Para o dono isto será eventualmente uma má notícia, pelo menos fico claramente com essa impressão depois de ver o desprezo a que este belo edifício tem sido votado na última década.
Estou curioso para ver se de alguma forma no novo PDM de Ansião irá incluir algumas medidas que impeçam de alguma forma a ruína consentida deste tipo de edifícios e que dificultem a vida de quem prefere deixar cair a recuperar. Aproveito para informar quem ainda não sabe, que o PDM de Ansião está em discussão pública, portanto toca a participar, pois a cidadania passa também por aí!
O eventual interesse no "cai cai" poderá dever-se a um facto muito simples, o de que esta área é bastante apetecível em termos de promoção imobiliária. Depois desta casa ir completamente abaixo fica o caminho livre para eventual construção de duas ou três moradias, o que em termos económicos é altamente vantajoso para o proprietário. Isto acontece um pouco por todo o lado, sendo infelizmente uma realidade bem presente neste país. O ordenamento do território é um faz de conta.
Eu vejo a coisa de um outro prisma, pois para mim o interesse da comunidade está acima do interesse individual, daí defender a reabilitação deste edifício, bem como de muitos outros por ali e não só. Não deve ser o lucro a guiar a questão urbanística, o lucro deve ser um meio para e não um fim.
Apesar de serem várias as pessoas que partilham a minha opinião, reparei que são nenhumas as que fazem questão em debater abertamente este assunto. Não lhes perguntei porquê, mas imagino...

segunda-feira, 9 de março de 2015

Iniciativa "investigadores na região de Sicó": Bosques e Galerias Ripícolas (1)

É com um enorme orgulho que vos apresento uma nova iniciativa no blogue azinheiragate. Tal como prometido, faço questão em inovar neste espaço dedicado ao património. Nos próximos meses, e numa base regular, serão vários os investigadores convidados a mostrar, em bom português, aquilo que melhor fazem na região de Sicó. Isto independentemente de serem naturais da região, pois aqui o mais importante é o património da região. É mais uma forma de construir pontes entre a ciência e a sociedade. E como bem sabem eu faço questão de trabalhar nestas pontes. 
O primeiro investigador convidado é doutorado em Geografia Física (IGOT - Univ. Lisboa) e a sua tese de doutoramento versou sobre a temática: Geobotânica dos Bosques Ripícolas. Parte da região de Sicó foi alvo de investigação por parte do Doutor Estevão Portela-Pereira, daí o convite à elaboração de um texto (original), o qual está dividido em 3 partes. Inicio com a primeira parte deste texto:

Bosques e Galerias Ribeirinhas das Terras de Sicó

Parte 1 – As diferentes comunidades vegetais nativas

A vegetação nativa de uma região está intimamente relacionada com o seu tipo de clima e solo. No entanto, no caso da vegetação ribeirinha, mais do que estes factores depende sobretudo da quantidade de água no solo que é proporcionada ao longo do ano por um curso de água. Assim sendo considera-se não só a vegetação das margens do curso de água, mas também a das várzeas e outros fundos de vale afectados pela sua dinâmica, p.e. quando ocorrem cheias. Devido às características cársicas desta região de clima sobretudo mesomediterrânico, onde um rio no seu curso pode ter trechos com água corrente todo ano e outros, logo a seguir, onde essa escorrência é sobretudo subterrânea, funcionando superficialmente como um curso de água temporário, a consequência é a ocorrência de vários tipos de bosques e galerias ribeirinhas nativas.  

- Tamargais – galerias arborescentes dominadas por tamargueira (Tamarix africana Poir.) nos leitos cascalhentos de cursos de água temporários;


Fig. 1. Tamargal no leito seco cascalhento do Rio Nabão, ponte da Póvoa (Pelmá – Alvaiázere)

- Salgueirais-brancos – galerias arbóreas de salgueiros-brancos (Salix alba L. var. alba e Salix neotricha Goerz) e  choupos-negros mediterrânicos (Populus nigra L. subsp. neapolitana (Ten.) Asch. & Graebn.) nos cursos de água permanentes ou semi-permanentes de corrente mediana com margens arenosas em áreas margosas/calcárias onde a influência agrícola ancestral é bem marcada.

- Borrazeirais-pretos – galerias arborescentes ou arbóreas de borrazeira-preta (Salix atrocinerea Brot.) em cursos de água (semi-)permanentes de corrente fraca e arenosos sobretudo em áreas areníticas; ou então bosques em várzeas baixas onde o encharcamento/inundação do solo se prolonga para além da época das chuvas.

- Amiais – galerias arbóreas de amieiro (Alnus glutinosa (L.) Gaertn.) em cursos de água permanentes ou que mantenham humidade no solo ao longo de todo ano, sobretudo em locais onde a intervenção agrícola ancestral nas margens dos rios não foi muito intensa (são raras nesta região). Podem também formar bosques em pauis nas áreas mais deprimidas de grandes várzeas ribeirinhas.



Fig. 2. Pequeno amial em Almoster (Alvaiázere) com regeneração de freixos num silvado em 1.º plano

- Freixiais – galerias arbóreas de freixo (Fraxinus angustifolia Vahl subsp. angustifolia) nas margens de cursos de água sazonais ou que sofram grandes oscilações de caudal e bosques em várzeas de matriz mais arenosa inundáveis temporariamente apenas em grandes cheias.


Fig. 3. Interior de uma galeria de freixial no Rio Nabão, num trecho de leito seco na ponte de Pechins (Freixianda, Ourém)

- Olmais – galerias normalmente arborescentes (devido à grafiose – doença que ataca os ulmeiros - Ulmus minor Mill. s.l.) nas margens de pequenos cursos de água sazonais ou, mais comum, sebes nas várzeas esporádica e temporariamente inundáveis com solos mais argilosos, e.g. regos e divisórias dos terrenos ribeirinhos.

- Cercais ribeirinhos – galerias arbóreas de carvalho-cerquinho (Quercus faginea Lam. subsp. broteroi (Cout.) A.Camus) em pequenos cursos de água efémeros nas cabeceiras dos rios, cuja degradação poderá dar origem a louriçais (de Laurus nobilis L.).

Estes são os tipos de vegetação ribeirinha nativa potencialmente mais complexa que podem ocorrer nos cursos de água desta região. Infelizmente, dada a intervenção humana ancestral a vegetação actual pode ser bastante diferente. Para além de muitos cursos de água não possuírem actualmente galerias arborescentes ou arbóreas nativas, mas apenas silvados ou juncais e outros prados naturais, não necessariamente com menor biodiversidade, infelizmente muitos deles de vegetação nativa já pouco têm. Por um lado esta vegetação foi substituída por plantações de exóticas, sobretudo nas várzeas, p.e. de choupais de choupos-negros híbridos (e.g. Populus x canadensis Moench); ou, por outro, ter sido substituída ou invadida por espécies exóticas, p.e. as extensas galerias arborescentes de canavial (de Arundo donax L.) que invadem quilómetros de cursos de água nesta região, ou então salgueirais dominados/invadidos pelo vimeiro-amarelo (Salix alba L. var. vitellina (L.) Ser.), variedade de salgueiro exótico muito utilizado pelos seus vimes e que com o abandono desta arte se espalharam pelos cursos de água. Ambas situações são uma ameaça e colocam em causa a biodiversidade destes habitats.