sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A bolsa de terras gerida por uma entidade sem vocação...


Escolhi esta foto, da várzea, para ilustrar a questão que agora destaco, a bolsa de terras, mais precisamente a bolsa de terras que abrange a região de Sicó.
Foi com enorme desagrado que soube de uma novidade que, embora esperasse, não compreendo de forma alguma. Há poucos dias soube que é a "Terras de Sicó" que vai (tentar) gerir a bolsa de terras na região de Sicó. Lembro que esta entidade embora seja conhecida como uma Associação de Desenvolvimento Local, é reconhecida por muitos como uma entidade altamente politizada e partidarizada, daí a minha preocupação sobre esta, quanto a mim,  pouco desejável novidade.
A "Terras de Sicó" já mostrou, na minha opinião de geógrafo, que ao longo dos anos nunca conseguiu vestir o papel de dinamizadora de todo um território, o qual "gere" de gabinetes e pela mão de colarinhos brancos, facto altamente negativo em termos de desenvolvimento territorial. É uma entidade que, na minha opinião, não conhece verdadeiramente o território de Sicó, conhece sim aquilo que interessa à política e o que interessa aos interesses do costume (passe o pleonasmo), daí não ser de estranhar o seu insucesso enquanto Associação de Desenvolvimento Local. 
Eu nunca escondi o facto de, pessoalmente, não reconhecer esta entidade como verdadeira Associação de Desenvolvimento. Não aprecio a sua forma de "gerir" o território, pois mais me parece que gere interesses/visões de pessoas específicas, caso dos autarcas, os quais em vez de se centrarem nos seus territórios e deixarem as Associações de Desenvolvimento para os profissionais do território, açambarcam também este tipo de entidades. A macrocefalia é algo de altamente nocivo, daí autarcas e associações de desenvolvimento não darem bom casamento...
Voltando então à questão da bolsa de terras, propriamente dita, a "Terras de Sicó" não é uma entidade com vocação para gerir e dinamizar esta importante matéria que é a bolsa de terras. Na minha opinião falta-lhe o conhecimento sobre o território, o know-how associado à gestão de uma bolsa de terras e a visão de uma Associação de Desenvolvimento Local. Impera a miopia territorial e a falta de sensibilidade perante valores não compreendidos.
Uma bolsa de terras não é meramente um armazém de terrenos, uma bolsa de terras é puro ordenamento do território, facto que é esquecido por quem de direito. Além do conhecimento para gerir uma bolsa de terras, é necessária uma visão sobre todo um território muito valioso em termos ambientais. 
Para gerir uma bolsa de terras é necessário ver o território a várias escalas, desde o terreno que pode entrar para a bolsa de terras, até à própria paisagem. A paisagem não é compreendida pela "Terras de Sicó" e isso está expresso na sua visão sobre este território. O território evolui a várias escalas e nem a "Terras de Sicó" nem os autarcas compreendem isso, pois na teoria defendem o território, mas na prática atentam, de alguma forma, contra a integridade dela, já que promovem muito do que vai moldar a paisagem a favor de interesses particulares e não a favor de interesses comunitários. Além disso não promovem aquilo que mantém e faz evoluir, no bom sentido, a paisagem, aquela mesmo que tanto gabam lá fora. 
É por estas e por outras que tenho bastante receio, devidamente fundamentado, da anunciada gestão da bolsa de terras por parte da "Terras de Sicó". Parece-me apenas que, no final, as pessoas mais favorecidas por esta bolsa de terras, serão aquelas que orbitam em redor da política, parasitando desta forma um território que eu considero fenomenal. Parece-me que os objectivos da bolsa de terras serão altamente desvirtuados, pois em vez de uma gestão aplicada ao território, irá surgir inevitavelmente uma gestão mais favorável aos interesses partidários, dada a evidente politização da entidade "Terras de Sicó". Daqui a uns anos veremos o resultado, altura em que farei concerteza um ponto de situação.
Não poderia terminar sem apresentar a minha solução, a qual nem sequer é inovadora, já que se baseia em algo que já existe, embora esteja desaparecido do mapa. Falo, claro, do cooperativismo, o qual já teve tradição neste território.
É certo que o cooperativismo já quase não tem expressão, mas também é um facto que poderia haver muita gente que, aproveitando esta questão da bolsa de terras, poderia dinamizar o cooperativismo, criando assim um vector de desenvolvimento local que potenciasse este território. Isto seria muito interessante, já que a política ficaria daqui arredada e conseguir-se-ia integrar pessoas de valor, as quais tantas vezes estão fora da política e fora dos vícios e interesses predatórios a ela associada.
Temos muitos jovens que poderiam dinamizar o cooperativismo, com a ajuda dos anciãos deste território (juntando o melhor de dois mundos), no entanto temos também entidades que os impedem de dinamizar este território. Eu já fui uma das vítimas deste impedimento...
Temos aqui uma oportunidade para dinamizar todo um território, seja a nível da agricultura biológica, floresta e tudo aquilo que se pode imaginar, já que o território é um todo!
Vamos reclamar o que é nosso e que a política perversa nos retirou? Já repararam que a nociva política nos tem retirado poder de intervenção sobre o que é nosso? Quem está interessado em desenvolver o cooperativismo nesta região? Eu estou disponível para ajudar!

1 comentário:

João Gomes disse...

Um post que é uma lição de democracia e liberdade. Dizer o que se pensa sem medo. Tão simples mas tao pouco praticado!

Obrigado pelo exemplo.