quarta-feira, 27 de abril de 2016

Carta aberta à Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Alvorge

Exm.ª provedora da Santa Casa da Misericórdia do Alvorge, Srª Maria Luisa Ferreira

Venho por este meio dirigir-me a si, por meio do meu blogue, acerca do que você refere como uma "denúncia sem fundamento". Por esta altura será escusado dizer quem sou, porque sabe quem eu sou e o que faço em termos profissionais. Escusado será dizer que sabe que eu sou um cidadão e um profissional muito incisivo em termos de acção pelo património e pelo ordenamento do território. Da mesma forma eu sei quem é e a influência que tem em termos políticos, sociais e económicos no Alvorge, facto que não me limitará de forma alguma na minha acção. 
Decidi esperar umas semanas, de forma a dar tempo para que a comunicação social fizesse o seu trabalho e, melhor, que você pudesse responder através da imprensa aos factos que são imputados na denúncia que efectuei em sede própria. Assim sendo, passo então ao que mais interessa, querendo, contudo, registar o seu excelente sentido de humor quando refere que "a água sai límpida para uma linha de água". Aproveitando o facto, divulgo três fotografias que confirmam, de facto, o seu sentido de humor:



Na primeira fotografia, podemos ver uma lagoa de água bastante límpida. Talvez por isso foi aterrada depois da denúncia. Será que o reflexo de tal água cegava quem por ali passava? Se sim, foi uma excelente opção, não vá o reflexo da água causar algum acidente.
Na segunda fotografia, podemos ver um terreno, a montante, para onde escorreu cócó que saiu pela segunda tampa do esgoto/dreno ilegal. Gostaria de lhe perguntar várias coisas, uma delas é que como é possível água límpida transportar tudo aquilo, que demorou anos a acumular. Gostaria também de saber se sabe que eu tenho vídeos de 2012, 2013 e outros, onde mostra a água "límpida" a sair pela segunda tampa do esgoto ilegal, já que para montante o dreno já está completamente saturado de cócó, que acabou por começar a sair pela segunda tampa poucos meses após a obra (ilegal) feita.
Sabe que o cidadão comum tem de pagar para esvaziar a fossa que tem em casa? O cidadão comum não tem o privilégio que a Santa Casa da Misericórdia teve. Não vejo o comum cidadão ter a sorte de ter uma entidade pública a fazer-lhe um dreno, que, diga-se de passagem, fica mais barato do que ter de pagar para esvaziar os tanques, quando cheios. Se dependesse de mim, e enquanto especialista, esses tanques já teriam sido substituídos por um sistema que resolvesse o problema, pois sendo aquela área, situada numa região cársica, não é admissível que se pactue com uma poluição consentida, consciente ou inconscientemente.
Acho curioso, no mínimo, você não ter dito uma única palavra acerca do fundamental, ou seja, do esgoto ilegal, feito a seu pedido (Santa Casa da Misericórdia). Fala de tudo menos no que a compromete. Convenientemente é o facto de sua conversa sobre esta questão terminar no final do quarto depósito, quando a denúncia começa precisamente aí. Memória selectiva? 
Sei que não está habituada ao contraditório, contudo sendo esta questão de domínio público e relativa à temática ambiental, eu faço questão de exercer o meu direito à cidadania, tal como o tenho feito até agora. E, também como já deverá saber por esta altura, eu sou bastante dedicado a este tipo de causas.


A semana passada ouvi uma de muitas conversas, onde diziam que o assunto estava arquivado. Contra-informação ou populismo demagógico? O assunto não está arquivado e está apenas no seu início. Gostei de ver na notícia do Jornal Terras de Sicó o seu sincronismo com o Presidente Rui Rocha, já que ambos referem os mesmos factos. É também curioso que apenas agora, e tendo em conta que o recente PDM prevê para ali uma ETAR, o presidente Rui Rocha refira que afinal o sistema de esgoto do Alvorge é para ligar à ETAR de Santiago da Guarda, o que mostra que qualquer coisa está muito mal no domínio do planeamento. Brevemente irei falar sobre esta maravilha de ETAR...
Uma outra questão, porque é que a Srª Maria Luisa Ferreira não comentou uma única vez sobre a problemática da poluição associada a este esgoto (facto!), será porque não lhe convém ou porque simplesmente não tem competências na área ambiental? Se quiser eu dou-lhe umas dicas, mas, e para já, posso dizer-lhe que o esgoto ilegal não está previsto em sede de PDM. Sabe o que isto significa?
Continuando, achei particularmente curioso a visita dos inspectores da APA coincidir com o despejo dos tanques, mais ainda eles surgirem já após a limpeza concretizada e algumas das provas comprometidas, concretamente as escorrências muito regulares ao longo dos últimos anos, não sendo de forma alguma esporádicas, tal como a Srª Maria Luisa quer fazer crer. Mas terá sido uma mera  feliz e oportuna coincidência, pois num país de direito de outra forma não poderia ser. 
Um aspecto positivo foi a posição da Junta de Freguesia do Alvorge, que cedo se mostrou preocupada com esta obra, feita à sua revelia e sem conhecimento. É raro ver uma Junta de Freguesia a manifestar preocupação acerca dos lençóis freáticos, coisa que nem a Srª Maria Luísa nem mesmo o Srº Rui Rocha fizeram neste caso, e de acordo com o que consta no Jornal de Leiria e no Jornal Terras de Sicó. A poluição que ali ocorre é um facto consumado, resta apenas saber o grau de contaminação do aquífero, o qual se pode estender por dezenas de km...
Já agora, como é que eles confirmaram que está tudo bem quando não está? Tem algum documento que o comprove? É porta-voz da APA? E a queixa-crime, feita por outras pessoas, porque é que também não falou disso? Já agora, sabe que, decorrente da queixa-crime, alguma documentação, até agora indisponível ao comum do cidadão, vai ser tornada pública? Irei esperar para ver o que nessa altura dirá quando confrontada com os factos.
Após estas semanas tenho observado algo que me preocupa, ou seja o facto de muitas pessoas terem medo de falar, algo que não se compreende numa democracia. No Alvorge há uma asfixia democrática assinalável. Contudo as redes sociais conseguiram quebrar o medo e divulgaram a situação. O mesmo se passará com esta carta aberta.
Como deve imaginar, eu irei estar muito atento a esta situação, fazendo questão de a monitorizar nos próximos meses, ou na pior das hipóteses, anos. O que me move? Simples, água límpida e boa para beber nas próximas décadas.
Os meus cumprimentos.

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