domingo, 30 de março de 2008

Um modelo de desenvolvimento realista para as "Terras de Sicó"

Não era suposto estar a escrever este post, já que ainda passaram poucos dias desde o último post e estou com a tese atrasada (devido aos acontecimentos que alguns conhecem), mas o facto de ser um assunto tão importante para todos nós não resisto a colocar este assunto no blog que é de todos vós, onde poderão conhecer assuntos tão interessantes como este que vos vou expor agora.
Algo que noto que faz falta em Portugal é uma ligação entre os cientistas e o cidadão "comum", há um afastamento bastante negativo entre a ciência e o mundo real e isso não favorece nem cientistas nem cidadãos... por isso tento neste blog fazer uma ponte, trato de assuntos da minha área científica, mas de uma forma acessível ao cidadão de forma a que ele não só saiba as riquezas (que doutra forma possivelmente não saberia..) da sua região.

Sendo assim mostro-vos uma ideia que lancei para discussão à 2 anos em alguns canais do meio científico e meses mais tarde na "praça pública", aquando do colóquio que organizei em Alvaiázere (pela Câmara de Alvaiázere). A ideia foi de se pensar seriamente em estabelecer um geoparque Terras de Sicó, isto claro só possível após larga discussão entre autarcas, universidades e os actores de desenvolvimento local (algumas empresas etc). Esta questão dos geoparques é muito complexa, pois é algo que está dependente acima de tudo da vontade política (ou falta dela...).
Na eventualidade de se chegar à conclusão de que não seria possível estabelecer um geoparque e tentar a sua inclusão na rede europeia (http://www.europeangeoparks.org/isite/home/1%2C1%2C0.asp), poderia ser ideal a solução passar por uma gestão semelhante a um geparque no âmbito das Terras de Sicó.
Alguns menos desconhecedores da matéria poderão dizer que a minha ideia não é plausível, mas afinal eu dedico-me fortemente à questão dos geoparques e tenho ido lá fora fazer formações especificamente na temática dos geoparques, onde apresentei a ideia e os passos para iniciar uma aventura deste género que no final pode bem permitir a criação de uma matriz que agrupe tudo o que de bom temos na região, algo transversal a todas as actividades económicas tendo por base o suporte territorial fantástico que aqui temos. Há poucas pessoas que tratam desta temática em Portugal e felizmente eu conheço-os quase todos, sendo que sei que se houvesse vontade política poderia fazer-se algo de muito bonito e proveitoso para a nossa região!
Deixo-vos com alguns excertos de alguns trabalhos que tenho feito (2006), onde se podem inteirar das potencialidades da região e de onde podem retirar muita informação. Sublinho que estes excertos são de um trabalho que já tem dois anos, até agora as coisas mudaram para muito melhor porque descobriu-se muita coisa de categoria internacional até, e há muita gente interessada em ajudar a que as coisas evoluam numa ideia pelo menos de gestão da região como que de um geoparque se tratasse!
Inicialmente dei a ideia falando apenas da área onde trabalhava, a ver se as cabeças duras abriam para a ideia, mas mais tarde alarguei o âmbito para a Terras de Sicó, consegui uma visita guiada a um elemento do executivo ao geoparque Naturtejo, onde fomos excepcionalmente recebidos: http://www.naturtejo.com/conteudos/pt/home.php

Estes primeiros excertos são de um pequeno exercício académico que fiz em 2006 no âmbito do mestrado e versam sobre a região de Alvaiázere, é algo extenso, mas garanto-vos que mesmo que desactualizado, tem tudo o que vos interessa para ficarem com uma pequena ideia das potencialidades desta região, está cá. Fica a promessa de quando eu terminar a grande aventura que está a ser acabar a tese, disponibilizarei tudo o que estou a fazer e de forma gratuita, só assim podemos avançar, já que por vezes os cientistas fazem coisas bonitas, mas não as disponibilizam (há muito que poderiam disponibilizar...)
Leiam ao menos esta parte inicial e a parte final (geoparques e geoturismo em Alvaiázere / Conclusão)

«1. Nota Introdutória
Sem pretensões de ser um estudo aprofundado sobre um sítio geomorfológico, este trabalho pretende sim ser uma primeira abordagem científico-pedagógica do ponto de vista da geodiversidade, sobre uma área ainda pouco explorada e muito desconhecida não só para a comunidade científica, mas sobretudo para a população desta mesma área.
As serras de Alvaiázere, Ariques e o Vale da Mata, consideram-se no âmbito deste trabalho, como um sítio geomorfológico de elevado interesse a nível regional.
Havendo um conhecimento por parte das populações que vivem nesta região, este sítio geomorfológico poderá ser um factor de desenvolvimento muito importante, já que possui valores, os quais não estão nem identificados nem potenciados.
Além deste facto os próprios autarcas, responsáveis pela tomada de decisões estruturantes para o município onde está inserido este sítio, desconhecem grande parte das potencialidades do mesmo, reflectindo-se este facto na abordagem de que este local será mais um constrangimento ao desenvolvimento da área do que um factor de promoção do território.
Desta forma, a estratégia a adoptar para este sítio geomorfológico, será de identificar alguns dos valores e elementos mais importantes existentes, de forma não só a divulgar às populações os valores aqui presentes, mas também de iniciar uma estratégia sustentada a curto prazo de valorização da área, tendo em conta e respeitando os valores presentes.
Pretende-se também que este trabalho suscite o interesse do município de Alvaiázere, para que este adopte esta estratégia, a nível municipal de valorização deste sítio geomorfológico.

2. O conceito de Geodiversidade
Apesar de estar presente em quase todas as nossas acções do dia-a-dia, a geodiversidade é algo de desconhecido aos olhos de muitos de nós.
Termo subjectivo e complexo, a geodiversidade surgiu em força na comunidade científica apenas no último quartel do século XX, onde as preocupações com o desaparecimento de muitos valores naturais suscitaram novas abordagens na temática da conservação da Natureza.
Num planeta onde a diversidade de paisagens e culturas é notável, interessa saber o porquê desta diversidade que é enriquecedora de todos os pontos de vista. Não só a biodiversidade é determinante para esta heterogeneidade, mas também a geodiversidade, só conjugando a componente viva da Natureza mas também a componente não viva da mesma se pode compreender toda esta questão.
A biodiversidade é já muito conhecida através dos notáveis documentários produzidos por esse mundo fora, mas afinal esta biodiversidade tem um suporte, o solo, o clima, os minerais, os processos naturais que decorrem da dinâmica da Terra, entre muitos outros.
A geodiversidade decorre então da óbvia necessidade de descrever a variedade existente na componente abiótica (não viva) da Natureza (Gray, 2004), é afinal um termo diferenciado da biodiversidade.
Desde o aparecimento deste planeta, à 4600 milhões de anos, toda uma série de processos moldaram a superfície terrestre, os quais resultaram no que actualmente podemos observar.
Algo que cada vez mais podemos observar é a exploração desenfreada dos recursos naturais, os quais resultam exactamente da geodiversidade, a qual é devida quer a formas, quer a processos naturais.
Stanley (2001) define a geodiversidade como “a ligação entre as sociedades, paisagens e culturas; é a variedade dos ambientes geológicos, fenómenos e processos que criam estas paisagens, rochas, minerais, fósseis e solos, os quais possibilitam as condições para a vida na Terra”.
Desde os materiais de construção (Fig. 1) que constituem nas nossas casas, desde o combustível que utilizamos nos carros, a estrada que percorremos todos os dias, a água que bebemos e as paisagens que observamos, em todas elas está presente a geodiversidade.
Desta forma pode compreender-se a importância da geodiversidade para a própria espécie humana, já que esta condiciona a evolução das civilizações, a qual é grandemente dependente dos recursos naturais.

2.1. Os valores da geodiversidade
“O acto de proteger e de conservar algo justifica-se porque lhe é atribuído algum valor, seja ele económico, cultural, sentimental, ou outro”.
José Brilha, 2005
Antes de iniciar qualquer estratégia com vista à preservação de algo, um dos factores primordiais é o de fundamentar o interesse para a preservação desse mesmo “algo”.
Gray (2004) responde à questão do porquê preservar e gerir a geodiversidade um pouco por todo o planeta, de acordo obviamente com as especificidades de cada região ou área, e para isso apresenta o interesse da geoconservação (algo que se faz na tentativa de preservar) e os diversos valores associados à mesma:
Valor intrínseco
Apesar de subjectivo, o valor intrínseco é primordial já que as coisas já têm valor mesmo antes de o Ser Humano lhes dar algum tipo de valor. É uma visão redutora o facto de só o que o Ser Humano dá valor ser efectivamente o que poderá ter interesse. Esta visão egocêntrica está na origem de muitos problemas complexos, pois o que não é importante para o Ser Humano será importante para outro qualquer ser vivo e num Planeta em que os processos são dinâmicos e interdependentes, esta ideia é muito negativa, mesmo para o futuro do Ser Humano enquanto espécie;
Valor cultural
Desde sempre o Ser Humano esteve ligado ao meio físico e este facto começou desde logo a reflectir-se quer na própria evolução dos povos, de acordo com a disponibilidade de recursos ali presentes, quer na própria região onde estes povos se implantaram.
Teve também reflexos marcados em termos históricos e arqueológicos, sendo por vezes estas características imagens de marca destas áreas, onde por vezes até os produtos regionais têm uma palavra a dizer;
Valor estético
Um valor fundamental, muitas vezes que faz a diferença na possível preservação ou não de determinados locais, é o valor estético. As paisagens naturais são algo de muito belo e que por vezes até serviram de ponto de partida para muitas obras de arte, mas não só.
O usufruir de paisagens é algo que já vem desde à muitos séculos atrás, sendo que muitas vezes a indústria turística baseia a sua actividade neste valor, as caminhadas, escalada, canoagem, entre muitas outras, são actividades que apenas pelo apelo estético de certas áreas compensam de várias formas a sua existência;
Valor económico
Os recursos naturais, dependendo das áreas, são muitas vezes a base de certas economias, podendo ser desde a existência de turismo, baseada no usufruto de algo, até à extracção de minérios fundamentais para uma sociedade baseada no consumo destes mesmos recursos, os quais são não renováveis;
Valor funcional
O valor fundamental para muitos na questão da geodiversidade, é o valor funcional da geodiversidade, pois a simples existência da componente abiótica, permite a existência por exemplo da componente biótica, é a base física para a sustentação dos sistemas naturais e os seus processos à superfície da Terra (Gray, 2004);
Valor científico e educativo
Determinante para preservação de certas áreas, foi o valor científico e educativo existente e comprovado nas mesmas, como foi o exemplo do Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios de Ourém.
Para compreender a história da Terra, obviamente os especialistas têm de estudar as mais variadas formas e processos à face da Terra (e não só), por isso há que preservar certas áreas fundamentais para a compreensão do mundo onde vivemos, caso isto não aconteça estamos nós próprios a colocar-nos em risco, pois para gerir há que conhecer.
Também a própria educação das gerações actuais é fundamental, pois para as próximas gerações terem um planeta o mais possível preservado e tendo em conta uma estratégia de sustentabilidade, há que educar de forma a compreender certas formas e processos determinantes para todos nós, mesmo que não o saibamos.

3.4. Geodiversidade local: património geomorfológico

Tendo em conta então as particularidades desta área, existem na mesma uma série de formas cársicas, que mostram a riqueza em termos geomorfológicos da mesma.
Estas formas são a herança geológica de tempos distantes, as quais numa estratégia de sustentabilidade dos ecossistemas e também numa estratégia de compatibilização entre recursos e actividades humanas, têm de ser tomadas em conta de uma forma efectiva e não apenas de uma forma supérflua pois os recursos naturais são a base do nosso dia-a-dia.
O património geomorfológico é então a base da geodiversidade, quanto mais diversificado for, mais valiosa será a geodiversidade de qualquer área ou região.
O património geomorfológico compreende:
“o conjunto de formas de relevo, solos e depósitos correlativos, que pelas suas características genéticas e de conservação, pela sua raridade e/ou originalidade, pelo seu grau de vulnerabilidade ou, ainda pela maneira como se combinam espacialmente (a geometria das formas de relevo), evidenciam claro valor científico, merecendo ser preservados” (Pereira, 1998).
Apresentam-se seguidamente alguns dos exemplos devidos a esta geodiversidade a que uma estratégia de geoconservação deverá permitir a sua continuidade, dada a sua importância a vários níveis:
Escombreiras de gravidade
Muito características quer na Serra de Alvaiázere mas também no Vale da Mata, são as escombreiras de gravidade, as quais são não só um belo exemplo da geodiversidade, mas também um bom objecto de estudo já que estes depósitos de vertente estão ligados a condições climáticas de tipo periglaciar. São também em termos visuais um elemento paisagístico notável.
Lapiás
Uma das características mais notáveis das regiões cársicas, onde as Serras de Alvaiázere, Ariques e Vale da Mata se inserem, são os Lapiás, os quais têm um papel muito importante na evolução do relevo cársico (Cunha, 1990).
Os Lapiás podem ser dever-se à evolução sob cobertura, lapiasação actual e subactual (Rodrigues, 1998), estar totalmente soterrados ou enterrados em vias de exumação (BÖGLI, 1960). Estes últimos sibdividem-se em lapiás em sulco, lapiás em mesa (foto 20 – ponto 5) ou lapiás em agulha (foto 21 – ponto 5).
Dolinas
Outra das características das regiões cársicas, são as dolinas, as quais não são mais do que pequenas depressões fechadas, sendo que a sua origem deve-se ao trabalho corrosivo das águas.
A dolina do Bofinho é um belo exemplo destas formas, a qual é do tipo dolina em funil (Cunha, 1990).
A existência desta dolina deve-se ao facto de esta se situar precisamente na passagem de um grande acidente tectónico, o qual devido à fracturação que promoveu na área, permitiu então a formação desta forma cársica marcante.
Canhões fluviocársicos
O pequeno canhão do Vale da Mata (foto 11 – ponto 5) é outra forma cársica (fluviocársica), a qual aproveitou a linha de fragilidade de um acidente tectónico para se formar, ultrapassando as bancadas calcárias do Dogger.
Apesar de não ser na verdadeira acepção da palavra um vale profundo de vertentes verticais, do ponto de vista morfológico pode considerar-se como um canhão fluviocársico e é um belo exemplo destas formas fluviocársicas que se pode encontrar nas regiões cársicas.
“Buracas”
Ainda não descritas devido à sua “invisibilidade” no Vale a Mata (foto 17 – ponto 5), a qual é possibilitada por uma intransponibilidade ao comum do cidadão a este vale, estão localizadas no fundo deste vale algumas pequenas buracas de diâmetro inferior a 1,5 metros, estando por defenir se existirão mais a montante deste vale.
As “buracas” são afinal pequenas reentrâncias de desenvolvimento horizontal em vertentes abruptas, as quais são geralmente de pequena dimensão.
Algares
Estas sendo já formas cársicas de profundidade, são muito abundantes não só na área em análise (foto 19 – ponto 5) mas também nas proximidades da mesma (Anexo 6). Esta abundância deve-se à extensa rede de fracturação associada aos grandes acidentes, que com orientação sensivelmente N-S, limitam a serra de Alvaiázere (Cunha, 1990).
“Reculées”
Outra das formas fluviocársicas é a “reculée”, a qual é um exemplo raro em toda a orla ocidental e daí advém a sua maior importância para a geodiversidade.
A “reculée” do Bofinho é outro belo exemplo deste tipo de formas as quais se formam devido ao facto de existirem diferenciações litológicas de calcários mais duros para calcários margosos e margas exploradas por exurgências basais (Cunha, 1990).

3.5. Ameaças à geodiversidade

Sendo as Serras de Alvaiázere, Ariques e o Vale da Mata uma área imponente do ponto de vista paisagístico, esta não é de todo uma área com uma resistência a toda a prova, apresentando algumas fragilidades decorrentes do facto de o seu ambiente geológico de formação ser sedimentar, menos resistente do que a área a Este, o Maciço Antigo, composto por rochas metamórficas, as quais são muito mais resistentes e com uma dinâmica muito diferenciada.
É um erro comum pensar não só que a componente abiótica do geosistema é estável e dificilmente perturbável, mas também o facto de apenas a componente viva (biótica) dos ecossistemas estar em risco.
Na geoconservação, não é apenas a preservação dos elementos estáticos do geosistema que será importante, mas também os processos naturais que deles possam decorrer. São processos dinâmicos e interceder de forma irresponsável sobre uma qualquer das fases destes processo pode pôr em causa toda a cadeia natural, tendo um efeito cumulativo e podendo inclusivé nalguns casos ser irreversível.
As principais ameaças para a geodiversidade decorrem da acção antrópica, a qual é cada vez mais intensa à medida que a população cresce e “necessita” de mais recursos, sendo estes na sua esmagadora maioria não renováveis. Mas pode ocorrer também que estas ameaças sejam de ordem natural, como por exemplo as mudanças climáticas.
No que concerne às principais consequências da acção antrópica sobre a geodiversidade, Gray (2004) agrupa-as em:
• Perca total de um elemento da geodiversidade;
• Dano físico ou perca parcial;
• Fragmentação de interesse;
• Perca de visibilidade;
• Perca de acesso;
• Interrupção de processos naturais;
• Poluição;
• Impacto visual.
Estas consequências podem ocorrer a uma microescala ou a macroescalas, mas todas elas podem levar à perca ou dano de alguns dos elementos da geodiversidade.
Tendo em conta estas consequências e de acordo com os valores presentes na área em análise, apresentam-se as principais ameaças a esta mesma área:
Exploração de recursos minerais
A já referida sociedade de consumo, necessita cada vez mais de recursos minerais para as suas actividades do dia-a-dia e este facto vai reflectir-se na geodiversidade com impactos cada vez maiores.
A Sul da Serra de Alvaiázere, situam-se duas pedreiras (pontos 2 e 3), as quais têm um grande impacto a nível paisagístico, as quais não têm nenhuma estratégia minimizadora dos impactes, que a necessária extracção de britas causa.
Além deste facto não está disponível nenhum estudo que identifique eventuais consequências destas extracções, as quais podem ter impactos a nível da contaminação dos recursos hídricos, quer superficiais quer subterrâneos.
Na vertente NW da serra de Alvaiázere (1), situa-se também uma abertura para extracção de inertes, a qual não está limitada por qualquer tipo de barreiras que impeçam que termine a extracção de inertes aqui começada à tempo indeterminado. Os impactos além do paisagístico são até agora desconhecidos. Apesar deste facto negativo, poderia utilizar-se este corte na vertente da serra para ser uma janela privilegiada para a observação da litologia.
Outras das consequências desta ameaça, são a destruição da fauna e flora e habitats, algo que não está de forma alguma contabilizado quer na área em análise, quer na área em redor, sendo que a serra de Alvaiázere, Ariques e Vale da Mata estão integrados na Rede Natura 2000.
Desenvolvimento de obras e estruturas
Este é outro aspecto que tem impactos negativos nesta área, sendo que alguns são já antigos, quando as obras dificilmente teriam em conta a minimização dos impactes negativos em áreas de alguma vulnerabilidade.
A estrada que atravessa o Vale da Mata, a qual separa a serra de Alvaiázere da serra de Ariques é um exemplo de como uma obra tem impactes negativos sobre o meio físico, pois não teve em conta aquando da sua construção aspectos de minimização de impactes. Basta para isto visitar este belo vale e observar por exemplo o entulhamento de parte da vertente SW do Vale (5).
Outra ameaça, esta recente, é o projectado parque eólico (4) que poderá causar danos não determinados, a nível por exemplo das estruturas calcárias frágeis ali presentes, grutas, algares entre outras. O problema não será o parque eólico em si, mas as consequências das obras a nível de estruturas de apoio que possibilitem o acesso a veículos de grande porte e postes para transporte de energia a partir deste parque eólico, que brevemente poderá começar a ser efectivado.
Além deste facto poderá ser afectada uma área de relevante interesse arqueológico e histórico, já que nesta serra situam-se importantes vestígios de antigos povoamentos da idade do bronze e medievais.
Florestação/desflorestação
Facto curioso para muitos é a questão de haver a possibilidade de a florestação de uma área ser uma ameaça à geodiversidade, isto porque pode levar a um desinteresse devido à perca de visibilidade de pequenas ou grandes áreas.
Quer na serra de Alvaiázere, serra de Ariques e Vale da Mata este facto ocorre já que impossibilita o acesso a certos locais para a observação e estudo desta mesma geodiversidade. A plantação de eucaliptos que ocorre na vertente NE da serra de Alvaiázere (8) é um exemplo disso, pois promove a não visibilidade da bonita escarpa de falha. Apenas a vertente Este da serra de Alvaiázere e o topo da mesma são facilmente transponíveis por quem queira se deslocar a esta mesma serra. Também na serra de Ariques ocorre este facto, sendo que apenas se consegue caminhar livremente no topo desta, sendo dominada por tomilhais, carrascais e azinhais baixos (Lousã, 1994), vegetação que impossibilita muitas vezes a passagem de muitas áreas com interesse nestas serras.
Igualmente no Vale da Mata ocorre este facto, onde a vegetação impossibilita a passagem no fundo de vale, local onde há valores geomorfológicos ainda não descritos.
No que concerne à desflorestação, as ameaças presentes nesta área prendem-se essencialmente com os incêndios que regularmente percorrem estas serras, sendo que a área mais afectada é a vertente Este da serra de Alvaiázere, onde um grande incêndio causou muitos estragos há poucos anos. A desflorestação causada por estes incêndios tem promovido uma erosão acentuada desta vertente com reflexos acentuados na sua evolução temporal e estrutural (Foto 5 – Ponto 5).
Iliteracia cultural
O facto de não se conhecer algo importante tem reflexos marcados no território um pouco por todo o país. A iliteracia cultural por parte dos responsáveis políticos em geral é a maior ameaça à geodiversidade, pois quem toma as decisões finais são estes mesmos responsáveis pelo desenvolvimento harmonioso que se pretende para o país, sem o exemplo destes, nem os técnicos na área poderão fazer algo de importante na temática, nem os cidadãos em geral poderão ficar conscientes da importância da geodiversidade.
Outras mudanças a nível da gestão do território
Um exemplo que ocorre nesta área no que concerne a outras mudanças a nível da gestão do território, tem a ver com a mudança de formas naturais que ocorre devido por exemplo à já falada plantação de eucaliptos na vertente NE (8) da serra de Alvaiázere, a construção de terraços para a plantação destes eucaliptos e mudanças nos solos são problemas não acautelados aquando da sua plantação.
Também o lixo depositado em alguns locais (5) é uma grave ameaça à geodiversidade, promove a poluição ambiental numa área muito frágil, provoca odores e cheiros temporários e um grande impacto visual nesta área.
Pressão turística
Apesar de ainda não ocorrer, a pressão turística é uma ameaça real à geodiversidade nesta área caso não seja de uma forma sustentada.
Certos componentes da geodiversidade são muito frágeis e não são susceptíveis de serem visitados de uma forma intensa, sendo alguns dos exemplos as grutas existentes na serra de Alvaiázere, alguns algares, entre outros.
Um elemento muito importante quer na vertente Este da serra de Alvaiázere, quer na vertente Norte do Vale da Mata, são as escombreiras de gravidade, as quais apesar de visíveis ao mais desatento visitante, são no entanto muito susceptíveis de serem afectadas devido ao pisoteio.
Além de espectaculares em termos visuais, são também importantes do ponto de vista científico, pois revestem um interesse particular pelas possíveis indicações que podem fornecer relativamente aos processos geomorfológicos herdados (Rodrigues, 1998).

3.6. Medidas de prevenção e de valorização
Decorrente das ameaças que possam surgir a qualquer sítio com relevante interesse geomorfológico e/ou geológico, terá de ser elaborada uma estratégia de conservação destes mesmos sítios e/ou aspectos presentes nos mesmos.
Esta mesma estratégia terá então de passar por uma metodologia (Fig. 18) própria e adaptada às particularidades de cada área, podendo ser esta virada apenas por exemplo para as serras de Alvaiázere, Ariques e Vale da Mata, ou podendo esta estar inserida numa estratégia a nível concelhio, promovida pela autarquia local.
A primeira fase desta estratégia terá início através da inventariação de geossítios na área que compreende as serras de Alvaiázere, Ariques e Vale da Mata. O objectivo final desta primeira fase será através de um reconhecimento geral da área, defenir as tipologias dos aspectos ali presentes, sublinhando apenas o que é realmente importante, algo que se destaque, pois é precisamente este o objectivo o de identificar as mais valias.
Depois de ocorrida esta primeira fase, terá de se passar à sua quantificação de forma a determinar de forma concreta a sua relevância na área, permitindo obter resultados que facilitem determinar as prioridades no que concerne à conservação, ou geoconservação.
Após este processo de quantificação já se poderá passar a um processo de classificação da área em análise, neste caso podendo e devendo ser no âmbito municipal. Através do Decreto-Lei nº 19/93, de 23 de Janeiro, poderá classificar-se esta área como geossítio de âmbito municipal, um primeiro passo para uma estratégia sustentada nesta área com muito potencial a vários níveis.
Terminada esta última fase, onde se concretiza a primeira fase estrutural do processo, a da efectivação do interesse da área, passar-se-á então a segunda fase estrutural muito importante que já se refere concretamente à conservação do geossítio, o qual está já legalmente reconhecido.

Esta segunda fase estrutural, de conservação do geossítio passará por uma avaliação relativa à vulnerabilidade diferenciada nesta área dos diferentes aspectos ali presentes, sendo que alguns há que não são compatíveis com usos frequentes (exemplo Fig.17) como por exemplo o pisoteio por parte de turistas.
Desta forma poderá definir-se uma estratégia a implementar de acordo com as suas vulnerabilidades, sendo que no caso de baixa vulnerabilidade poderá partir-se logo à partida para estratégias de divulgação e valorização. No caso de alta vulnerabilidade, a estratégia será de protecção e conservação.
Estas duas últimas estratégias deverão ser posteriormente monitorizadas de uma forma contínua de forma a permitir sempre actualizações e modificações dinâmicas a todo o processo, necessárias para que esta estratégia não caduque ao final de alguns anos devido ao facto de não terem sido tomados em conta os factores dinâmicos, naturais e antrópicos.

3.7. Geoparques e geoturismo em Alvaiázere
Numa região onde cada vez mais a desertificação tem consequências muito acentuadas no desenvolvimento de concelhos como o de Alvaiázere e onde os actores do desenvolvimento local não mostram capacidade de encontrar uma estratégia de desenvolvimento sustentado que reverta esta tendência de desertificação, é necessário encontrar formas de conciliar a vertente humana com a vertente Natural, permitindo no final chegar ao desejado desenvolvimento sustentável.
A criação de um geoparque na região, onde se inserem as serras de Alvaiázere, Ariques e Vale da Mata, incluídas numa área que engloba também a serra de Sicó, seria um passo fundamental para o desenvolvimento social, económico e ambiental para toda esta região, já que este geoparque seria um instrumento notável para uma viragem a estes níveis.
Um geoparque é afinal “uma área em que se conjuga a Geoconservação e o desenvolvimento económico sustentável das populações que o habitam. Procura-se estimular a criação de actividades económicas suportadas na geodiversidade da região, com o envolvimento empenhado das comunidades locais” (Brilha, 2005).
Dado o facto de à partida as serras de Alvaiázere, Ariques e Vale da Mata apresentarem valores importantes, valor cultural, estético, económico, científico, educativo, entre outros, justifica-se claramente a aposta na criação de um geoparque que inclua esta área. Este facto teria resultados muito positivos para todos os sectores económicos de toda a região, como por exemplo a criação de actividades comerciais de apoio aos visitantes, infraestruturas de vária ordem, actividades culturais relevantes, produtos artesanais e locais, entre muitos outros.
O geoturismo poderia surgir então como uma alavanca de desenvolvimento local sustentado e não baseado em falsos e infundados pressupostos de desenvolvimento.
Estando ligado intimamente com a geodiversidade, o geoturismo é algo que poderia reforçar os valores ali presentes, ainda desconhecidos à maior parte da população, permitindo não só a fruição desta área por parte dos visitantes, como o desenvolvimento das actividades dos locais e não só, de uma forma sustentada, a qual permitiria no final a sustentabilidade ambiental, social e económica do concelho de Alvaiázere e concelhos limítrofes.

4. Conclusão
Numa altura em que o modelo de desenvolvimento ocidental dá cada vez mais sinais de fragilidade, no qual as populações estão cada vez mais dependentes de recursos naturais não renováveis, surgem por outro lado novas oportunidades de desenvolvimento.
Apesar deste último facto, novas oportunidades esbarram muitas vezes na falta de preparação dos principais actores de desenvolvimento, os quais vêem a Natureza como um adversário ao desenvolvimento das sociedades, mesmo apesar de a mesma ser a base de todo o desenvolvimento, sustentado ou não.
Por outro lado há também o facto de muitos técnicos na área ambiental não tomarem a necessária atenção para um dos factores primordiais do desenvolvimento sustentável, o de que sem o conhecimento por parte das populações, este será difícil de ocorrer. Caso as populações conheçam de facto a importância dos valores e processos naturais, estas verão a Natureza não como um adversário mas sim como um parceiro.
O património geomorfológico representa não um constrangimento para o desenvolvimento, mas sim uma potencialidade não explorada pelos actores de desenvolvimento e ainda pouco divulgada pelos técnicos responsáveis na área ambiental.
O uso sustentável dos georecursos é cada vez mais uma prioridade nesta sociedade baseada na depredação dos recursos naturais, a qual tem ao seu dispor recursos que se bem geridos estarão disponíveis para a fruição sustentável das próximas gerações.
Depois de estabelecida uma estratégia de geoconservação para as serras de Alvaiázere, Ariques e Vale da Mata, a criação de um geoparque poderá ser talvez um dos poucos modelos de desenvolvimento sustentável que permitiria a regressão da tendência de desertificação de uma área tão necessitada de um modelo de sustentável do ponto de vista ambiental, social e económico.»

Eu faço o meu papel disponibilizando-vos informação que vos interessa, longe de interesses partidários ou outros quaisquer, mesmo alguns fundamentalistas que por aí andam... Agora vocês só têm de exigir mais e melhor aos vossos autarcas. Um dos problemas que temos em Portugal é sermos passivos, dizemos que as coisas estão mal, mas ficamo-nos por aí!!
Eu sinceramente ando chocado com uma notícia fresca, temos um património natural, construído, cultural, gastonómico (e muito mais) e isso pode trazer-nos muita riqueza sem destruir o que temos de valor, andamos a querer inventar a roda quando afinal já a temos, só temos de dar um empurrão, mas parece que há aí uma pessoa com falta de capacidade intelectual que anda em reuniões com o embaixador chinês para "vender" um território a interesses externos ao interesse nacional. Será que não temos jovens capazes? Será que não temos património? Será que as nossa cultura, gastronomia, etnografia não valem de nada?!!
Pelo contrário, temos tudo o que necessitamos para ser uma região que tenha tudo o que precisamos para viver, emprego e um ambiente saudável, isto claro, sem termos de destruir o que aqui há, que é mesmo, mesmo muito importante!
Eu não me conformo e daí esta é uma pequena contribuição para que quando vos digam que não temos coisas de valor, não acreditem...

Espero sinceramente que invistam na leitura destas últimas linhas, mesmo que extensas...
Breve darei seguimento a este assunto, para já fica um cheirinho!!

3 comentários:

anónimo disse...

Caro Dr. João Forte:

Tenho várias perguntas. Ei-las:


1º- Este blogue é lido?
É de minha curiosidade pessoal saber quantas são as visitas a este espaço e com que regularidade ocorrem. São habitantes e naturais de Alvaiázere-Sicó-Ansião os visitantes? Porque se registam tão poucos ou nenhuns comentários sobre os assuntos/posts?

[Nota do Comentador - Tomei conhecimento deste blogue da seguinte forma: lendo o jornal regional "O Alvaiazerense", através de um artigo de opinião de um comentador residente, apercebi-me do caso das Azinheiras abatidas denunciado por uma "experiência youtubeísta"; numa das referidas páginas de visionamento do YouTube havia a indicação-endereço do blogue, cujo link me redireccionou directamente para aqui. Este blogue está divulgado? ]


2º- A Câmara Municipal de Alvaiázere disponibiliza aos cidadãos, em geral, e aos construtores civis, em particular, um lugar para vazamento de entulho e resíduos de construção e demolição?

[Nota do Comentador: Conheço o Vale da Mata, precisamente porque vou lá vazar lixo de demolições. Não é de ânimo leve que eu, e o meu patrão, bem como os demais pequenos construtores civis que conheço, vazamos lixo (entre o qual, por vezes, plásticos e recipientes de materiais químicos e perigosos) no Vale da Mata. Conscientes da riqueza bio-geológica do local, é com regularidade que interpelamos a Câmara Municipal de Alvaiázere para que arranje um local legal e ecologicamente controlado para o efeito, de forma a resolver o problema constante (e significativo, tendo em consideração a quantidade de pequenos construtores civis da região) do lixo da construção civil.
Em notícia do Diário de Notícias, a jornalista Rita Carvalho, refere que, segundo estudo estimativo do Instituto Sup. Técnico (2004), 4,4 milhões de toneladas de resíduos da construção são produzidos anualmente em Portugal, e que estes poderiam ser reutilizados e reciclados como matéria-prima em outras obras, pavimentos e requalificação de pedreiras. Na Dinamarca esta taxa de reciclagem é da ordem dos 90%. Em Portugal não há registo da quantidade de entulho produzido, e a fase de reciclagem é ainda embrionária e com muitos entraves psico-económicos, de entre os quais a desconfiança do cliente-comprador que opta por um produto/material novo em detrimento de um produto reciclado com igual funcionalidade e qualidade (submetidos a controlo pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil).
Aliás, no nosso país, existe um vazio legislativo e jurídico-penal grandes o suficiente para que eu possa aqui confessar o crime e sair ileso. Só em flagrante delito será emitida uma simples e pouco dissuasora contra-ordenação por parte das autoridades.
Contudo, os pequenos construtores da região desenvolveram uma estratégia "ambientalista" muito interessante e que evidencia que o único motivo do seu crime ecológico é a inexistência de alternativas (quaisquer que sejam). Quando um construtor da região tem entulho que precisa ser vazado, ele telefona para os outros construtores procurando saber se precisam de entulho para enchimento de valas ou para qualquer outro fim de sustentação de estruturas. Se, após os telefonemas, forem negativas todas as respostas, o construtor tenta ainda "chamar" um máquina escavadora para "enterrar" o entulho no quintal da propriedade privada em que se encontra a obra. Caso seja mal-lograda esta tentativa, não resta outra solução que não seja o vazamento ilícito e ilegal e poluidor de, quase sempre, propriedade pública.
A Quercus, e as demais associações de Defesa Ambiental, já deviam ter pressionado os governos para "obrigar" os municípios a arranjarem um local próprio de vazamento, com legislação própria, e com o objectivo, a curto-médio prazo, de se tornarem centros municipais de recolha de lixo de construção e demolição para reciclagem obrigatória.
O vazio legal, em Portugal, é compreensível (devido à influência que o sector da construção civil tem sobre os governos, alguns dos quais constituídos por ministros e secretários gerais que são empresários da área), mas inaceitável. E os pequenos construtores, e os proprietários, anseiam rapidamente por uma opção justa e correcta, pois estamos todos cansados de andar a brincar "ao gato e ao rato" por um problema que é de todos.]


3º - A tese de mestrado do Dr. é muito curiosa. Qual foi/é o efeito que produziu no concelho? Quais foram, ou quais são, as reacções das gentes que habitam a região?

[Nota do Comentador: Segundo percebi, a tese parece apontar o seguinte às gentes locais - "Alvaiazerenses, as pedras e calhaus que ao longo dos séculos vós maldizestes, por serem motivo constante de penúria e esforço, são, afinal, valiosas, e podem, até, constituir o vosso sustento". Ora, um geoparque sustentaria quantos empregados e com que níveis de formação-literacia?
A agricultura, a pequária e a exploração florestal são o sustento do concelho, com prova aferida na maior e mais representativa feira das gentes locais - FAFIPA - uma feira dedicada a estas actividades. O nível de escolaridade, bem como a natureza profissional das ocupações da maioria da população coadunam-se com o projecto de um geoparque?
É verdade que há um crescimento de literacia nas gerações novas, e que estas poderão ocupar o emprego de "guia turístico", similares ou superiores funções. Mas, com uma taxa de perda de 3 habitantes por semana (segundo o que a minha memória recorda ter lido no jornal concelhio), justifica-se o investimento de médio-longo prazo?
Certamente, a criação da Reserva Ecológica Nacional do Sítio Sicó-Alvaiázere é de importância sumária e indiscutível, mas o turismo não exercerá maior pressão sobre ela do que as actividades locais? E qual o potencial real (estimado em número de visitantes, ou em lucro para a autarquia/população, ou em escolas e alunos de visitas de estudo, ou quantidade e/ou qualidade de actividade científica) do geoparque?]


4º: A respeito da Energia Eólica, a minha questão é a questão pertinente do meu colega de trabalho.
Se foram já criados vários centros de produção de energia eólica (limpa e renovável) em Portugal, com respectiva redução da dependência energética nacional (sobretudo energia eléctrica) de fontes estrangeiras, porque é que o custo da electricidade se mantém constante ou ascendente em ritmo superior ao da inflacção anual?
Se temos mais energia, e sacrificamos impactos paisagísticos (e alguns ambientais), porque é que as gentes aindam pagam o mesmo custo de compra de energia ao estrangeiro?
Eu e o meu colega somos unânimes: a energia eólica é fundamental para acabar com a dependência; os aerogeradores podem ser construídos, mas nunca numa área de preservação ecológica ou prioritária; esta Era de aerogeradores gigantes e anti-paisagísticos é transitória e abre as portas para os séculos vindouros onde o mercado possibilitará que cada casa produza a energia consumida. Portanto, se a Serra de Alvaiázere é protegida e está vedada a aerogeradores, porque existe, ainda, a discussão? Não é já um assunto acabado e resolvido? ]


5º: E por último, a questão que se impõe:
- Porque é que o "nosso" autarca "dispensou" o "nosso" geógrafo de Ordenamento do "nosso" território?

[Nota do Comentador: O "nosso" autarca "disse-nos" que o "nosso" geógrafo não tinha cumprido a elaboração de um mapa-plano de Ordenamento do Território para o "nosso" concelho, para o qual havia sido contratado e que, por isso, o tinha dispensado. Corrobora a informação, Dr.? ]



Sem mais nada a acrescentar, apresento os meus cumprimentos, e fico agradecido pela atenção.
(sou compreensivo com a falta de disponibilidade e tempo para uma resposta, em virtude da tese de mestrado do Dr.)


(Uma vez que este comentário tem matéria passível de ser constituída crime, reservo-me no direito ao anonimato que aqui me assiste.)

João Paulo Forte disse...

Caro Anónimo
Agradeço a mensagem e a sinceridade, mesmo apesar do facto de não se identificar. Peço só que não me trate por Dr. , isso é para quem gosta de ser maior do que efectivamente é, infelizmente há pessoas que fazem questão em serem tratadas por Dr. eu não! Esquecem-se que o que dá o valor à pessoa não é o grau académico...

1- Sim, este blog é lido. Para já não sei quantas pessoas visionam este blog porque ainda não vi na parte de edição do blog um local onde apareça a contabilidade, prometo se isso for possível, disponibilizar a informação.
Para já sei que apesar de o blog ter poucas semanas já começa a ser visto no meio onde me movo (ambiental) e que daqui a mais umas semanas a divulgação será maior. Há pessoas de Alvaiázere, das Terras de Sicó e pessoas externas à região a visionar o blog.
Relativamente aos comentários ainda são poucos, há alguns que não publiquei porque a intenção de alguns era a de obter informações que não devem ser discutidas na praça pública. Um dos últimos era precisamente sobre um habitante de Alvaiázere que pretendia informações, mas que não queria que a informação fosse "partilhada".
No que concerne à questão dos comentários, isso não me preocupa, porque acima de tudo o que me interessa é colocar temas à discussão de todos e não "perder" tempo com comentários que devem ser tratados directamente comigo (via mail). Isto para evitar que se perca tempo e energias com as capelinhas de cada um.... o que me interessa é o interesse de todos e não o interesse de cada um.
Este blog vai amadurecer nos próximos meses e será um primeiro passo para um projecto que irá incidir sobre a região Terras de Sicó e que consistirá em colocar à disposição de todos informações sobre as mais valias da região de uma forma gratuita e imparcial.
Resumindo, este blog é muito recente e está em plena divulgação, está a ser incorporado noutros blogs em poucos meses vai ter outra projecção.

2- A Câmara Municipal de Alvaiázere, até ao momento em que lá estive a trabalhar, não disponibilizava um local para vazamento de entulhos, apenas monos. Apesar deste último facto sei que à altura estava a ser estudada a possibilidade. Espero sinceramente que este facto se torne realidade brevemente a bem do ambiente. Fico envergonhado em ver na região muitas lixeiras de materiais e por vezes a vergonha que alguma pessoas fazem em aproveitar a abertura de caminhos florestais para deixar lá o lixo.

Em alguns casos sei que não é de ânimo leve que algumas (poucas) pessoas levam o lixo a locais como o Vale da Mata. Há que criar condições para que isso não aconteça e que se aposte na sensibilização ambiental. Eu pessoalmente aposto muito nessa área, especialmente nas gerações mais novas, garanto-lhe que o resultado às vezes nos surpreende pela positiva!

relativamente à notícia que refere do Diário de Notícias, é realmente verdade, na Holanda a percentagem de reciclagem dos resíduos é semelhante e é pena que haja poucos casos em que se recicle os resíduos da construção. Um exemplo deste género foi a demolição dos estádios antes do europeu, reaproveitou-se muita coisa, mas foi uma gota no oceano. Há outros casos, como por exemplo a reciclagem dos pneus, há soluções fantásticas para a recuperação deste material em vez da pseudo-valorização da inceneração, por exemplo recorre-se à inclusão de bolas de borracha (resultante da trituração dos pneus) no alcatrão, o que reduz o tempo de travagem, consumos, melhora a aderência etc. Por exemplo ainda são raros os casos em que quando se reasfalta as estradas se reutiliza o alcatrão. Em Alvaiázere há um sector da estrada que vai para a Venda do Preto, em que foi experimentado!
Tenho a certeza se as entidades vos criarem alternativas, a maior parte de vós cumpre com as obrigações relativamente aos entulhos.
As várias Associações de Defesa do Ambiente já falam nesta questão à anos, infelizmente o facto de algumas estarem rotuladas como "fundamentalistas" retira-lhes visibilidade. Garanto-lhe que elas fazem muito! Não faço parte de nenhuma, mas falo com muitas delas, inclusivé internacionais, como é a Greenpeace.
O Srº/ª Anónimo/a refere muito bem o facto de o lobby da construção ser "demolidor", quando toca a dinheiro, quase tudo se desvirtua e é uma pena que assim seja, mas informo-o que eu não sou desses, pugno para que as coisas melhores.
Dou-lhe um exemplo concreto. O ano passado soube de uma empresa que apesar de ter interesse em resolver a situação, à falta de alternativas coloca as lamas do corte da pedra (calcários) em antigas pedreiras. Quando soube do facto, informei-me e talvez ainda este ano, devido ao meu interesse na resolução a situação (a bem de todos), a situação fique resolvida. A empresa não só ficará com o problema resolvido, bem como ainda ganhar algum dinheiro com isso.
Deixo-lhe um link útil (caso não conheça:
http://www.netresiduos.com/cir/index.htm
No blog tem uma série de links que porventura lhe interessam!

3- A minha tese ainda está a ser elaborada, talvez daqui a dois meses esteja finalizada, por isso para já ainda não podemos falar de efeitos.
O que lhe posso dizer sobre este facto, é que já estive num curso na Suiça, outro na Grécia e dois outros na Eslovénia, portanto já pode ver que para andar nestas coisas é porque aqui há algo com potencial! Este ano tenho mais três saídas lá fora para mostrar trabalho feito sobre Alvaiázere e Ansião.
As reacções das gentes que habitam a região são positivas, já que além de verem que há alguém que desinteressadamente e pagando do bolso, vai lá fora mostrar o nome e as riquezas da região, as quais se os políticos da região realmente quiserem podem reverter a favor das nossas gentes.
Até agora esta questão está quase apenas que tratada a nível de comunidade científica afecta a esta temática, efectivamente quem percebe e pode fazer juízos de valor.
Eu pessoalmente fico radioso quando vou lá fora e o segundo responsável da rede europeia dos geoparks me diz (Zouros) como está a nadar a minha ideia, mas fico triste quando digo que os políticos têm uma oportunidade e andam a desperdiçar, não é sequer acerca da questão dos geoparques, mas sim de haver um modelo de desenvolvimento para a região que é desperdiçado a favor da política do Elefante Branco...

As pessoas não dizem mal dos calhaus, só dizem que eles como estão de nada lhes serve senão para ficarem maravilhadas com a sua beleza. Aconselho uma visita aos megalapiás da Mata de Baixo, pode ver uma imagem no googleearth que eu lá coloquei (entre outras).

Bem, relativamente à criação de emprego é relativo, temos de contar com o sector privado e público, tem de haver também interesse do sector privado, não digo fábricas gigantes, mas indústrias de base regional, hotelaria, gastronomia etc. Como os geoparques são algo de transversal à economia, podem significar emprego e riqueza para todos os sectores, basta haver interesse. Uma sugestão e que não é aproveitada na região é o microcrédito, há muita boa gente que se tivesse umas ajudinhas poderia fazer muito...
Os empregos e o nível de literacia é também uma questão subjectiva, mas a maior parte dos empregos seriam dos habitantes da região e não externos, só uma muito reduzida margem teriam de ser de literacia mais elevada. Subjudar as pessoas menos abonadas de escolaridade é um erro, elas têm um know how sobre a região fantástico!!

A perca de população é algo de muito complexo, daqui a poucas décadas mais de 80% da população estará centrada nas grandes cidades, é algo que no geral não se pode inverter em termos globais, Alvaiázere não goge à regra. No que poderíamos investir é na proximidade de cidades como Coimbra e Leiria, com o IC3 as coisas serão mais fácil, mas se houver uma estratégia de marketing territorial e uma estratégia de desenvolvimento audaz, Alvaiázere e a própria região pode chegar longe.
O problema é que os políticos pensam que são pau para toda a obra, pensam que por serem quem são só eles podem estar à frente de endidades que mais não fazem do que estar à mercê dos interesses políticos e assim andamos a perder tempo...
Por isso o investimento a médio-longo prazo justifica-se no que realmente é importante e com uma estratégia adequada às particularidades e não com investimentos megalómanos e depradadores. Considero por exemplo que a estalagem que está pensada para a Serra de Alvaiázere além de ser um erro estratégico, na medida em que estraga algo que é de valor nacional, prejudica o futuro de Alvaiázere. Há tanta casa (género apalaçada) para recuperar em Alvaiázere que até os estrangeiros que as compram ficam a pensar que nós somos "burros". Em vez de se recuperar o que temos e ficarmos com uma vista para a serra virgem, destrói-se algo de valor e fica-se com vista para o que já está destruído/afectado, é o que chama de dois em um!
O sector imobiliário destas relativo à recuperação de casas tem um potencial enorme, se algumas empresas que estão em dificuldades se reconvertessem para este mercado, ganhavam muito, lhe garanto.

Faço só uma nota, a Reserva Ecológica Nacional já existe e não tem nada a ver com a Rede Natura 2000.

Relativamente ao lucro para a região, no que concerne a um eventual geoparque ou um modelo de desenvolvimento baseado nos mesmos pressupostos, em vez de estar aqui a divagar em demasia, deixo-lhe um link para visionar:
http://www.progeo.pt/pdfs/naturtejo1.pdf

4- Relativamente às energias eólicas, o problema centra-se num aspecto só, os interesses e lobbys que muitas das vezes estão em redor desta temática. O raciocínio é semelhante ao petróleo, os preços resume-se à pura especulação e geopolítica obscura. Lembra-se de quando se falou na liberalização dos mercados das gasolinas, o preço ia baixar (supostamente), mas afinal está cada vez mais alto e brevemente o preço da gasolina vai igualar o do gasóleo...

Relativamente à Serra de Alvaiázere, ela supostamente está protegida, mas como vai ver nos próximos tempos essa protecção não é tão efectiva. A discussão e a desinformação promovida pelos supostos amigos das energias renováveis ainda está para durar, motivo?! o facto de cada torre significar 200 contos e com isso muito se desvirtua...
Á coisa de 15 anos trás chamavam-nos futuristas pelo facto de chamarmos à atenção para as energias renováveis, mas agora que vêm que aquilo dá muito dinheiro, chamam-nos impedidores (entre outros...)ao desenvolvimento por chamarmos e denunciarmos atropelos ao que normativamente está instituído na vasta legislação nacional e internacional.
Mas o presente já nos está a dar razão e o futuro bem mais, só é pena é que já andemos a sofrer na pele o "interesse" tardio pelas energias renováveis dos nossos políticos...

5º Por último a questão que também muito me interessa, as razões do meu afastamento ou mais concretamente o facto de o meu contrato não ter sido renovado por mais um ano e pela coincidência de ter recebido a carta registada em casa a referir este facto(sem que nada me tivesse sido dito) menos de uma semana depois da denúncia do abate das azinheiras na Serra de Ariques e do caso ter dado problemas ao/s autores da acção.

É curioso que o "nosso" autarca tenha dito à semanas atrás que o contracto não foi renovado porque não implementei os SIG´s na Internet. É curioso que como refere agora (não estou ao corrente desta afirmação) o "nosso" autarca diga que não elaborei um mapa-plano de Ordenamento do Território, curioso, agora já há dois motivos? relativamente à primeira afirmação já exerci o direito de resposta na edição deste mês(Abril) do Jornal O Alvaiazerense, onde refiro os factos, nomeadamente os motivos para que fui contratado, onde não consta nada do que o "nosso" autarca refere de forma muito conveniente, mas de forma muito pouco convincente. Neste aspecto não sou eu que tenho a minha posição fragilizada, já que basta ir a Alvaiázere e falar com a generalidade das pessoas para ver que eu sou bem visto do ponto de vista pessoal e profissional.

No que toca ao facto de referir que o seu comentário poder ser passível de constituir matéria "crime", concerteza não será por mim, já que além de estar a exercer o seu direito de liberdade consignado na Constituição Portuguesa, representa uma nota de dignidade, já que mesmo que de forma anónima, coloca à discussão assuntos importantes e factos concretos baseados em dados técnicos e científico.
Pode haver alguém que tenha problemas com a sua liberdade de expressão e frontalidade, mas já sabe que não sou eu, só mesmo pessoas desprovidas de dignidade e ética podem fazer algum juízo de valor negativo relativamente ao seu comentário.

Os nossos pais e avôs lutaram por um Portugal livre, onde todos pudéssemos expressar as nossas opiniões, por isso não nos podemos rebaixar a gente sem ética.
Por isso o meu muito obrigado pelos comentários.

Aproveito para sugerir que acompanhe este blog, assuntos muito pertinentes, fora de chantagens políticas (não pertenço a nenhum partido político!)serão tratados de forma imparcial. Brevemente começarei com colaborações de pessoas entendidas em várias disciplinas, as quais vão dar a sua contribuição pela causa que é o desenvolvimento desta região e pela melhoria de todos os que cá vivem, sejam de que partido forem, ricos, pobres,etc!
Eu trabalho com todos, desde que sejam competentes e honestos!!

João Paulo Forte disse...

E caro anónimo, não se cale perante os fortes lobbys que há não só em Alvaiázere, mas também nas Terras de Sicó, a liberdade de expressão é algo sagrado num estado democrático!
Outro dia uma determinada pessoa que eu não conhecia de lado algum e que gosta imenso de Alvaiázere disse para mim quando me encontrou em Ansião:
«eu não o conhecia, mas estive sempre a torcer por si..»
Fiquei embevecido por este elogio, não só por ser de alguém que desconhecia e desta forma imparcial, mas também pelo facto de ser jurista!
Disse-me para continuar uma pessoa íntegra e que luta pelo povo contra lobbys perigosos,de uma forma legal, correcta e original, sendo que disse também para não me preocupar com o que tenho feito, à luz da lei quem fez coisas pouco dignas e muito graves não fui eu e quem poderá sofrer na pele por isso não serei eu, isso é garantido....
Até agora não me chateei em demasia, mas se estes lobbys me tentarem tramar a sério, vão apenas abrir a caixa de pandora e ter sérios problemas legais. Muitas vezes por sermos honestos temos de engolir alguns sapos, mas quando nos tentam tramar cobardementee e vêm que não temos telhados de vidro, a coisa fica muito feia para o lado deles...
Algumas pessoas há que tentam demonstrar que são grandes, mas afinal é apenas para os outros olharem para cima e não verem que afinal por baixo os pés são de barro!
Os apoios que tenho tido por parte de várias pessoas dos vários estratos económico/sociais, de várias entidades, de pessoas muito influentes e poderosas,da maior parte dos Alvaiazerenses e outros, enfim de muita gente amiga conhecida ou não, dão-me imensa força e elas não vão deixar que algum tipo de interesse obscuro associado a lobby me tente prejudicar, isso lhe garanto!