domingo, 6 de abril de 2008

O investimento que os geoparques trazem (complemento ao último post)

Era para ter deixado este link no último post, de forma a que os leitores possam ter na prática uma ideia das mais valias que os Geoparques podem trazer, não só em meios financeiros, mas também no seu reflexo em termos de empregos e outras coisas mais.
Para já deixo-vos um link de uma notícia já com quase dois anos, mas que pode mostrar aos mais cépticos que isto não é uma fantasia, é apenas a realidade concreta.

http://www.progeo.pt/pdfs/naturtejo1.pdf

Como referi no último post, trata-se apenas do abrir para discussão o assunto, infelizmente para já não tenho muito tempo para discutir o caso, mas fica prometido que nas próximas semanas darei uma achega e informo-vos que há 4 semanas atrás enviei um pequeno dossier informativo a um autarca aqui da Terras de Sicó, de forma a que ele se aperceba e pense bem na ideia, já que infelizmente não teve a disponibilidade para estar no colóquio do qual estive responsável pela organização o ano passado e que refiro no último post.
Temos pessoas para trabalhar, temos universidades e pessoal de várias áreas interessado em ajudar a fazer algo de bonito pela região e com as evidentes vantagens económico-sociais, para quê demorara mais e andar com versões estereotipadas de desenvolvimento?!
Aviso já que esta temática é complexa, mas afinal quem disse que não se tem de trabalhar bem para um futuro melhor?!
No entanto espero que não pensem que basta clicar os dedos, não é assim que funciona. Apesar de estar a "correr um risco" ao expor esta questão, já que a questão só se percebe investigando e investindo muito na percepção da temática, considero que o mais importante é falar em algo que a todos nós interessa e não é nada positivo fechar em gavetas, coisa que nós investigadores por vezes fazemos...

4 comentários:

anónimo disse...

Caro Dr. João Forte:


- Este será o meu último comentário.
Antes de mais, estou profundamente agradecido pela sua atenção, e pelas suas respostas às minhas impertinentes perguntas que, por certo, constituiram incómodo acrescido à sua vida pessoal e académica.

Estudei atentamente os "dossiers", os artigos, que me entregou, e muitos outros que lhes seguiram através de pesquisa minha.

Estudei o primeiro Geoparque português - Geoparque Naturtejo da Meseta Meridional -, bem como um outro candidato a Geoparque em Arouca, local das famosas "pedras parideiras". Debrucei-me sobre o conceito de "Eco-turismo", sobre a recente filosofia do "Desenvolvimento Sustentável", e sobre todas as "pastas" que estão anexas a estes assuntos. Naturalmente, a "Ecologia" foi também aprofundada.

Assim, a minha humilde opinião é a tão somente uma opinião, sem diplomas ou viagens ao estrangeiro que a possam sustentar. Sou tão somente um leitor que "tropeçou" neste espaço, cujos conteúdos interpelaram a uma profunda reflexão pessoal e, inclusivamente, a uma mudança de paradigma na própria estrutura do pensar.

Independentemente de qualquer posição pessoal minha, e com a máxima neutralidade que me é possível, posso afirmar que o projecto, que pela sua tese de mestrado é defendido, é plausível, possível e viável. Não creio, contudo, que as Terras de Sicó tenham "atracções geo-turísticas" suficientes (em número e em qualidade) para a criação de um Geoparque equiparado ao do Naturtejo. Aliás, a candidatura das Terras de Sicó a Geoparque é significativamente mais frágil que a da Arouca. Apesar disto, e tal como o próprio Dr. defende na sua tese, as Terras de Sicó, não tendo valias suficientes para Geoparque, podem ter um projecto similar de menores dimensões.

Relativamente à própria filosofia dos Geoparques, cuja realidade vem na prossecução do Ecoturismo e do Desenvolvimento Sustentável - ambos em franca expansão a nível internacional-, posso mencionar que existe um debate e um não-consenso universal a respeito da matéria, devido aos impactos negativos que se têm observado, nomeadamente ao nível da flora, da fauna, dos solos, do ar, e dos próprios limites e contraproducências
económico-culturais para as populações locais.
Posso afirmar que este blogue é partidarista, pois ocultou os impactos negativos que um tal projecto comporta, apenas registando e enaltecendo os impactos positivos, sobretudo os que dizem respeito à população humana. Este procedimento é paradigmático de uma campanha política, e não de uma campanha desinteressada de informação técnica, científica e objectiva.
Se este blogue, e o seu autor, se comprometem a ser isentos, então é de exigência ética que, a par dos benefícios, sejam também descritos e aprofundados os impactos negativos, nomeadamente aqueles que ocorrerão devido ao pisoteio, devido ao barulho dos visitantes nos nichos da fauna autóctene, devido às estrutras que serão edificadas, o impacto na flora autóctene, a especulação imobiliária em torno do local, etc, etc.

Sendo verdade que comecei a comentar neste blogue com uma visão "moderada" do projecto, não posso deixar de referir, a título pessoal, a expressamente me dirigindo à pessoa do Dr. João Forte, que toda a minha perspectiva foi alterada no decurso na minha investigação e reflexão pessoais.
Comecei por considerar o Dr. João Forte como "radical". Não mais o considero como tal. Pelo contrário, a "Ecologia Superficial" (Naess, Arne) por si preconizada muito se afasta da "Ecologia Profunda" que eu, e o ecologista norueguês Arne Naess, entendemos como a necessária ecologia para a mudança de paradigma na, injustificavelmente, difícil relação entre os humanos e a natureza, e todas as espécies animais e florísticas que partilham o planeta Terra connosco, em regime de co-habitação e, desejavelmente, cooperação.

Projectos como os Geoparques visam a instrumentalização da natureza para os nossos interesses, interessando-lhes apenas a preservação do/pelo desenvolvimento humano e não propriamente a natureza em si. A ecologia superficial que o Dr. João Forte e os Geoparques defendem é uma atitude de tendência antropocêntrica, própria da cultura ocidental, que perpetua os séculos de dominação e exploração de recursos naturais para utilização do ser humano, paradigma que nos conduziu ao estado actual de futuro comprometido do planeta.

Sublinho que esta é uma opinião pessoal, cujos fundamentos podem ser facilmente lidos e compreendidos em artigos, dados observáveis, em investigações científicas (maioritariamente independentes), nos conhecimentos etno-culturais de civilizações antigas e tribos indígenas actuais, e, também, e de não menor importância, na nossa própria intuição (enquanto ser vivo proveniente da natureza, e dela ilegitimamente furtado).


Terminada a minha explanação, apresento os meus cumprimentos, com o vivo desejo que o Dr. João Forte considere as minhas palavras como incentivo à constante auto-reflexão que um cientista epistomologicamente e eticamente responsável deve cultivar. Lembro-lhe que muitos dos maiores cientistas que a humanidade conheceu, e que maior contributo lhe providenciaram, entre os quais Jean Piaget, Albert Einstein, Alfred Nobel, Sigmund Freud, apenas para nomear alguns, acompanhavam a sua actividade científica com uma profunda e constante reflexão etico-epistemologica das suas investigações, e do conhecimento em geral.


Saiba que lhe tenho muito apreço enquanto ser humano.



Alexandre Inácio
(ex-estudante de Biologia, ex-estudante de Ciências da Educação, operário da construção civil, residente em zona rural do concelho de Alvaiázere, observador, leitor)

João Paulo Forte disse...

Caro Alexandre

Agradeço as palavras,as quais considero não só pertinentes bem como uma motivação extra para continuar os meus intentos a bem desta região.

Queria apenas fazer umas notas importantes.
Mesmo já estando por dentro desta questão dos geoparques à dois anos, ainda tenho muito a aprender e há coisas que obviamente não referi.

As Terras de Sicó têm muitas coisas de valor que sustentem um geoparque, como eu disse, é algo transversal e o que interessa é obviamente a componente natural, mas não é tudo, esta região tem uma cultura muito valiosa, uma gastronomia brilhante e muito mais.
Relativamente às atracções geo-turísticas, refiro que esta região tem coisas que poucos conhecem, como é o caso dos emblemáticos Vale dos Poios, Buracas entre muito mais. Nos próximos posts vou revelar muitos destes locais. Há coisas que têm valor e que infelizmente não posso revelar, já que se descobrisse, rapidamente surgiria alguém a roubar...
O caso do Geoparque Naturtejo é indiscutívelmente um sucesso, mas não é só pelos valores que lá existem, já que o que fez com que fosse Geoparque foi a vontade e preserverança de algumas pessoas, é essa a diferença, valores tem muitos, mas não tantos como se pensa....
As Terras de Sicó têm muitos que nem sequer se sabem!!

Não considero que esteja a ser partidarista, já que como disse apenas estou no início do explanar da ideia, convém salientar que a filosofia dos geoparques não é bem assim, quando algo corre mal eles podem ser retirados da rede europeia, não é ser e depois fica-se para sempre, por isso os impactos pode-se dizer que são "nulos"
Relativamente aos impactos e algo que eu estou a tratar e que não referi, é que no caso de alguns geossítios de valor mais elevado, a estratégia passa precisamente por não permitir o acesso ao público, por isso mais uma vez não há impactos. Desta forma considero que não errei, apenas ainda não tinha chegado a essa parte, não posso falar de como se constrói uma casa a partir do telhado, foi um risco que corri, mas não me arrependo!
Quando eu terminar a minha tese disponibilizarei a mesma a todos e o fruto do meu trabalho poderá ser utilizado e abusado de forma gratuita para se fazer algo de bonito pelas gentes da região!

Os geoparques são assim uma das últimas formas de preservar algo de muito valioso e que afinal nao vai de encontro às tendências antropocêntricas, uma visita virtual aos geoparques europeus confirmará isso. Posso até dizer que é uma forma sublime de mostrar aos políticos como é possível trazer o desemvolvimento a uma região sem a comprometer do ponto de vista ambiental e economico-social!
Os mesmos, pelo contrário visam instrumentalizar o homem e não a Natureza, mas de uma forma que este não se apercebe. As realidades dos diferentes países com geoparques são muito diferentes, em Portugal criar 3 ou 4 geoparques será uma das poucas soluções não só de salvar património, mas fundamentalmente para implementar modelos de desenvolvimento a regiões desfavorecidas de alguma forma. O Geoparque Naturtejo é um exemplo, o futuro de Arouca é outro (já estive em eventos em ambos e conheço todos os "actores principais" dos mesmos.

Fica a minha disponibilidade de um dia nos encontrarmos em Alvaiázere para mostrar alguns ´geossítios fabulosos, como é o caso dos Megalapiás da Mata, das várias pegadas de dinossáurios, e outros tesouros que convêm não divulgar para já!!

João Paulo Forte disse...

Caro Alexandre

Esqueci de referir na última resposta algo de muito importante para poderes percepcionar no seu todo esta questão e de uma forma muito acessível. Na biblioteca de Alvaiázere está um livro chamado "Património Geológico e Geoconservação: a conservação da Natureza na sua vertente geológica" de José Brilha (é meio alaranjado e castanho). Garanto que vale a pena e assim podes ter uma opinião bem mais completa, já que o que eu forneci foi uma migalha quando comparado com esta obra de referência nacional!!
Abraço

anónimo disse...

Post-Scriptum:


«Em certa ocasião, um rio da Noruega foi condenado à destruição para que fosse construída uma grande hidroeléctrica. As margens do curso d’água seriam inundadas para que se fizesse o lago da barragem. Um nativo do povo Sami recusou-se, então, a sair do lugar. Quando, finalmente, foi preso por desobediência e retirado dali à força, ele não teve opção. Mais tarde a polícia perguntou-lhe por que se recusara a sair do rio. Sua resposta foi lacónica:

- "Este rio faz parte de mim mesmo".»

(in "A Vida Secreta da Natureza", C. Aveline)


Agradecido pela sugestão de leitura. Retribuo, na mesma moeda, com o seguinte livro:

"Ecologia Profunda - Dar Prioridade à Natureza na Nossa Vida", dos autores George Sessions e Bill Devall.

Garanto que vale a pena e assim o Dr. João Forte pode ter uma opinião bem mais completa, já que o que eu forneci foi uma migalha quando comparado com esta obra de referência internacional!


A.Inácio