quarta-feira, 7 de março de 2012

Memórias do património


É uma fotografia que eu considero bem interessante, pois ilustra bem a questão que agora pretendo abordar.  O belo pião, que ilustra o património, tem uma sombra que representa, nesta caso, a memória dele mesmo. Gosto de pensar em fotografias diferentes daquilo que a maioria de vós costuma ver, pois é uma das formas de conseguir estimular o pensamento activo sobre questões estruturantes. Por isso mesmo é que de vez em quando lembro-me de fazer algo como o que a foto ilustra.
Na minha juventude eu fartava-me de jogar ao pião e outro dia, ao visitar um centro interpretativo  (Escola do Monte), deparei-me com este que fez de modelo para a fotografia. Quando voltei a jogar ao pião, pareceu-me que retrocedi uns 20 anos no tempo, sensação rara de se ter.
Indo então ao cerne da questão, o pião serve, neste caso, para estimular a reflexão sobre as nossas memórias acerca do património. Obviamente que a palavra património abarca muita coisa, mas as definições são chatas e eu gosto de tratar aqui as coisas de uma forma atractiva. 
Importa-me fundamentalmente alertar sobre o que se tem perdido, em termos de património, seja ele qual for. Parte deste património infelizmente já só existe nas memórias perdidas de cada vez menos pessoas, as quais aos poucos vão partindo. Escusado será dizer que partindo estas pessoas, extingue-se algo, um património que depois de perdida a memória, fica perdido para todo o sempre. 
Há muitas formas de falar desta questão, mas desta vez penso que o ideal será mesmo fazer lembrar aqueles que se lembram bem da sua juventude, onde brincadeiras e traquinices à parte, aprendia-se muito. Estas aprendizagens tiveram sempre, directa ou indirectamente, uma influência positiva quer no crescimento das nossas capacidades cognitivas, quer no nosso crescimento físico. Era portanto uma aprendizagem consequente.
Algumas brincadeiras eram perigosas, caso de subir lá ao cimo dos pinheiros e/ou outras árvores, mas isso faz parte do processo. Outras não eram perigosas, mas eram igualmente importantes, caso das incursões ao meio do mato. Era nestes e noutros "simples" gestos que cada um de nós tomava contacto com a terra, com as árvores, com os animais e com aqueles girinos que íamos apanhando na ribeira. Isto já para não falar quando cada um de nós entrava furtivamente naqueles edifícios abandonados, cheios de instrumentos vários. Aprendíamos a lidar com tudo aquilo que fazia crescer as nossas capacidades, facto que claramente foi uma mais valia para todos.
Outro facto importante, e que prefiro destacar à parte dos outros que já referi, é aquele de quando muitos de nós iam trabalhar para os terrenos da família em certas ocasiões, como por exemplo a apanha da azeitona. Aí acontecia termos de beber água dos regatos, por vezes com uma folha de couve. Nessa altura não dávamos valor ao facto da água se beber bem e não estar poluída (era algo de normal), mas agora já damos o real valor, pois hoje em dia já não é tão seguro fazer o mesmo...
Reviver estas e outras memórias é claramente importante nos dias de hoje, pois as alturas de crise são óptimas para mostrar a todos vós que o que é realmente importante é esta memória de que vos falo. É esta memória que fez de nós quem somos, restando que cada um de nós valorize e potencie tudo o que de bom esta memória representa neste valoroso território.
Alguns dos próximos comentários vão salientar a importância desta memória do património, pois ultimamente tenho tido a sorte de encontrar algumas dessas memórias, tudo com a ajuda de alguns amigos que também pugnam pelo fabuloso património da região de Sicó.
Sei que algumas pessoas não vão compreender bem o alcance deste breve comentário, já que algumas são novas demais para saber do que falo, no entanto muitos outros irão compreender e sentir bem o que pretendi destacar. São esses que neste momento podem fazer toda a diferença e são esses que me podem ajudar a ensinar e a partilhar conhecimento com os mais jovens!

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