quarta-feira, 8 de maio de 2013

Porque batem os jovens com a porta de Sicó?


Foi há poucos dias que mais um amigo meu bateu com a porta e emigrou. Foi apenas mais um a engrossar uma lista cada vez maior, a qual irá inevitavelmente crescer ainda mais, algo que não gostando, acabo por compreender perfeitamente. Mesmo assim, é algo com o qual não me conformo.
Uns vão sozinhos e outros levam as respectivas famílias, daí o que numa primeira fase representa "apenas" uma saída, acaba por se multiplicar por dois ou três. No último caso conhecido foram 3 pessoas, nas quais o Estado tanto investiu e agora mandou um chuto nos respectivos rabos...
Apenas ontem tive tempo para ouvir a reportagem da TSF, mais precisamente o programa Terra-a-Terra, que foi emitido no sábado, precisamente na minha terra natal, ou seja Ansião. Ouvi com atenção todos os entrevistados, mas naturalmente que a minha atenção foi para dois dos intervenientes, dois autarcas da região, um de Ansião e outro de Alvaiázere.
Já depois de ter escutado tais discursos, pensei, pensei e pensei. Foram palavras que não me surpreenderam, em primeiro lugar porque os discursos foram precisamente na linha do que defendo activamente e factualmente à muitos anos. Mesmo assim, noto que tais discursos, genericamente não são consequentes com as acções políticas respectivas, sendo portanto incoerentes. Muito do que foi dito é óbvio, contudo este acentuar dos discursos pelo património surge apenas e só por um motivo, o de que o tempo do betão acabou e esse modelo, que os autarcas sempre defenderam, está esgotado, o que os leva a enveredar por este discurso conveniente, muito amigo do património. Enquanto que em tempos de vacas gordas o objectivo era o betão, em tempo de vacas esqueléticas estes viram-se para a única coisa que lhes resta, o património. Felizmente que esta "única coisa" representa tudo o que é realmente importante!
Na entrevista houve factos que não foram coerentes, havendo vários exemplos por onde poderia pegar. Gostei daquela tentativa de caracterização demográfica, e respectivos saldos demográficos, mas não passou disso mesmo uma mera tentativa que tentou desculpabilizar, de forma parcial, factos importantes, menosprezando o cerne da questão. Sacode-se a água do capote...
Quanto a mim foi pintado um cenário cor de rosa pelos autarcas, quando na realidade assim não o é. Porque será que não ouvi uma única vez um mea culpa destes, já que afinal estes também têm a sua quota parte no cenário que leva muitos jovens a abandonar a região e o país? Será que não há humildade para reconhecer que estes também erram e que errar é afinal humano?
Falam em empreendorismo, elogiando... quem não os afronta, mesmo que de forma honesta e construtiva. Gostei do enorme esforço que foi feito para não ser referido o meu nome, algo que foi conseguido (esta tinha de sair...). No que me toca, o empreendorismo (atrás implícito) é gratuito, pois não ganho dinheiro com isso, faço-o pela região e pelo seu património.
Já referi, em tempos, que já tentei profissionalmente a minha sorte em termos de empreendorismo na região de Sicó, contudo houve quem se desse ao trabalho de me fechar portas e dificultar a coisa (em Ansião quiseram "ajudar", mas um vizinho não...), algo que lamento profundamente. Sinceramente não sei se irei voltar a tentar, já que ando saturado de imbecis, corruptos, oportunistas, gente mesquinha, bananos e afins (são muitos anos...). E não, não me estou a referir ao universo da política, estou sim a referir-me à sociedade em geral, pois todos têm culpa no cartório, uns mais outros menos. Quem sabe do que estou a falar não se vai ofender, pois felizmente que ainda há muito pessoal com valor, e não é desses que me estou obviamente a referir, esse é um campeonato à parte. A maior parte dos que lêem este blog é deste último campeonato, o meu.
Emigrar? Não me parece, muito embora eu seja alguém que adora viajar para aprender. Gosto demasiado do meu país, o que não significa que um dia eu não possa fazer as malas. Penso que a melhor solução será migrar em vez de emigrar, muito embora a decisão final ainda não esteja tomada, sendo, para já, uma hipótese. Portugal é um país que apesar de pequeno é tremendamente rico a quase todos os níveis, nós subestimamos o nosso país e só vemos para fora, esquecendo-nos que, cá dentro, temos tudo o que os outros têm (e mais ainda!). Há que ver para fora, mas cá dentro...
No que concerne à região de Sicó, ela é quase que uma coutada, gerida por interesses vários e por várias capelinhas, daí o insucesso de uma região com um potencial tremendo, algum do qual já castrado. Somos a região do quase já há duas décadas. Por essas e por outras é que eu sou (mais) um daqueles que está na "eminência" de bater com a porta de Sicó, muito embora apenas fisicamente, pois aconteça o que acontecer continuarei com o meu trabalho em prol do património de toda uma região fenomenal. O meu lóbi pró-Sicó continuará. Nos próximos meses irei tomar uma decisão, a ver vamos qual vai ser, se fico por Sicó ou se migro para outra região. Acontecimentos ocorridos nos últimos meses têm favorecido a última hipótese, mas pode ser que a coisa se equilibre, espero eu...
Este comentário é um bocado pesado, eu reconheço, mas há alturas em que tem mesmo de ser, pois há muito em jogo. É o futuro de toda uma região que está em jogo e o futuro de várias gerações, é isso que está em causa, nada mais. E claro, a cultura, esse parente pobre...
Lembro que ei de continuar a censurar e denunciar tudo aquilo que corrói e degrada a a alma da região de Sicó, lembrando também os medrosos que sabem do que falo, mas que se mantêm calados e coniventes com este estado vegetativo do país.
E, para terminar, lembro a quem utiliza o termo desertificação, que este é um termo que não tem nada a ver com as pessoas, mas sim com os solos. Para nos referirmos à perda de população devemos sim utilizar o termo certo, ou seja despovoamento. Esta é elementar meus caros autarcas!



Sem comentários: