Mostrar mensagens com a etiqueta #geologia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #geologia. Mostrar todas as mensagens

18.8.24

É sempre uma honra receber amigos do património geológico!


Fonte: A fotografia é da autoria de um dos participantes desta visita.

Era uma visita  que já estava apalavrada há uns meses e que, finalmente, se concretizou, depois de um adiamento derivado das condições meteorológicas pouco favoráveis. Falo, claro, da visita de um grupo de entusiastas do património geológico, vindos de vários pontos do país, ao Maciço de Sicó, mais concretamente à denominada Unidade Territorial de Alvaiázere, a qual envolve um sector de Ansião e de Alvaiázere. 
Pessoalmente estava com muita expectativa, pois pelo facto de os acompanhar nas redes sociais já sabia que eram aficcionados bastante conhecedores da temática do património geológico, daí sentir uma responsabilidade extra enquanto "embaixador" daquela área que tanto me diz e tanto me deu. Não foi fácil, já que a viagem até Ansião, onde se iniciou a actividade, foi longa e poucas horas dormi na noite anterior. Quem anda nestas andanças sabe que com poucas horas de sono o cenário torna-se mais difícil. Falar que questões técnicas cansado é difícil, daí ter tido de gerir o cansaço. Do/as quase 30 participantes, conhecia apenas um, portanto foi um dia para conhecer pessoal do meu tipo, ou seja aficcionado pelo património geológico e pelo património natural. Foi um dia bem preenchido, onde dei a conhecer a todo/as este/as aficcionado/as aquilo que estudei e inventariei há uns anitos, ou seja o património geomorfológico desta área, no âmbito da minha tese de mestrado. Julgo que correu bem e todo/as ficaram satisfeito/as com os locais que visitámos e pela paisagem absolutamente excepcional observada durante o trajecto. Houve vários momentos muito engraçados durante o dia, só possíveis entre pessoal fantástico com o qual vale a pena partilhar conhecimento de forma recíproca. Houve um momento após o almoço, que foi curioso, já que fomos a um café em Alvaiázere tomar... café. Ao entrar não estava nenhum cliente e num minuto eram quase 30 clientes. Percebem agora a importância que pode ter o geoturismo? 
Ao final do dia, e após regressar, estava exausto, mas imensamente feliz. Conheci um grupo de pessoas fantásticas com as quais é bom estar no campo e debater sobre património geológico!

 

5.9.21

Pode parecer que fiquei contente, contudo...


Foi há uns dias que um grande amigo meu me enviou esta fotografia através do telemóvel, depois de a ter conseguido tirar rapidamente, com o seu telemóvel, quando a viu numa televisão, talvez no Porto. Fiquei feliz por ele se ter lembrado de mim ao ver a reportagem da RTP sobre Sicó e sobre um dos seus locais de interesse geológico. Afinal tratava-se da minha região e de algo que me diz respeito enquanto geógrafo físico, com experiência nestas lides. 
Contudo, e após esta alegria, veio uma sensação de preocupação. É impossível fugir ao cerne da questão, já que o património geológico, geomorfológico, paleontológico e afins é ainda menosprezado na região de Sicó. Focando o Vale das Buracas, ou Buracas do Camilo, não é nova a minha preocupação pelo facto de este local de interesse geomorfológico não ter ainda o que é mais básico, ou seja um plano de gestão específico. E um plano de gestão não é nenhum painel...
há muitos anos que ando a sublinhar a importância de trabalhar algo que não está de todo trabalhado. Já apresentei propostas concretas a quem de direito, entidades várias, mas até agora nada de nada... E se o fluxo de turistas aumentar sem as regras estarem definidas, vamos ter ainda mais problemas dos que já temos com poucos turistas.
Mas voltando às Buracas do Camilo, como podem continuar a não impedir que certos acéfalos façam fogueiras nas Buracas do Camilo, que grafite as mesmas e que façam deste local excepcional um local para vândalos destruir o que temos de melhor?!
E não ousem dizer que ninguém vos avisou, já que eu e outros mais, associações incluídas (ex. Grupo Protecção Sicó e Al-Baiaz) já andamos a alertar há muitos anos... Não ousem dizer que não há especialistas na região, já que os há... Temos tudo, falta mudar mentalidades que teimam em não pensar diferente do que se pensa há demasiados anos! E sem esta mudança de mentalidades e paradigma, de pouco vale o muito que temos...

9.5.20

Arquitectura cársica: a importância da geologia na arquitectura regional

Fonte da coluna relativa às unidades estratigráficas da região de Ansião: Crispim, 1986

É uma questão que me anda a atazanar já há algum tempo, ou seja a menorização da arquitectura tradicional na região de Sicó, por parte de uma arquitectura moderna, que ignora a arquitectura tradicional em prol de uma arquitectura rectangular à base de materiais pouco ecológicos e nada ligados a esta bela região. Ou seja, o que me anda a atazanar é a descaracterização da região de Sicó também em termos arquitectónicos.
Há uns meses, e enquanto desfrutava de um de muitos locais mágicos da região de Sicó, foquei esta curiosidade arquitectónica, condicionada pela componente geológica. Quem sabe de geologia vai perceber logo o que esta imagem significa, bem como o esquema que o acompanha, mas quem não sabe, vai apenas perceber que, naquela imagem, há ali algo de estranho. Basicamente falando, e numa linguagem simplificada, temos ali dois tipos de pedra, uma mais resistente do que a outra. Como podem ver, a que está na base está mais "gasta" do que a de cima. Isto acontece porque têm propriedades e idades diferenciadas, daí uma estar em melhores condições do que a outra. Este pequeno grande pormenor faz toda a diferença em termos arquitectónicos, já que as propriedades da rocha/pedra condicionam fortemente a escolha da mesma na hora de escolher a mais duradoura. Em muitas igrejas e capelas que vocês já visitaram, já deverão ter notado que, por vezes, faltam estátuas. Isto acontece porque a rocha em que estas foram esculpidas é menos resistente à erosão, ou numa linguagem mais simples, resiste muito menos aos anos expostos aos elementos do tempo, água, sol, frio, calor, daí muitas estátuas terem de ser retiradas para se conseguir preservar as mesmas, colocando cópias no seu lugar original.
Uma das muitas belas característiticas da região de Sicó é a sua arquitectura cársica, ou seja casas construídas com pedra calcária, um traço identitário basilar desta paisagem cultural. Nos últimos anos tem-se visto que muitas casas antigas que, em vez de serem recuperadas, são simplesmente deitadas abaixo para dar lugar a casas feitas de tijolo ou blocos, revestidas cada vez mais com capoto. Não se tem investido numa forte campanha e apoios à reconstrução tradicional, com as devidas adaptações possíveis sem desvirtuar esta jóia da coroa.
Com uma política de apoio à recuperação do edificado tradicional e também, quando necessário, construção de raiz, de base tradicional, poderemos continuar a ter uma mais-valia arquitectónica na região de Sicó. Caso tudo continue igual, e daqui a poucas décadas, poderemos ter apenas uma meia dúzia de aldeias do calcário (o melhor termo é aldeias do carso) e a funcionar como que de um espectáculo circense se tratasse, a relembrar o passado. A decisão é nossa, fica a dica.
Termino com um texto que escrevi há uns tempos sobre a componente da geodiversidade, que decorre do que escrevi atrás.