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23.7.21

Arquitectura vernacular: crónica de uma jóia por polir.

Esta é uma de muitas fotografias que tenho no meu arquivo. Trata-se de uma de muitas fotografias que esperam o seu momento, o qual pode surgir poucos dias depois do registo fotográfico ou surgir apenas meses ou anos depois. Esta, em especial, tem largos meses de vida no meu arquivo fotográfico da região de Sicó. É, para mim, uma fotografia mágica, já que retrata uma verdadeira jóia da arquitectura vernacular, desprezada pela maioria de nós. E não, não vou divulgar onde é!

Vejo com grande preocupação uma linha de acção de muitos arquitectos que fazem o que lhes pedem, ou seja arrasar o velho para dar lugar ao novo. "Espécimes" da arquitectura vernacular são destruídos para dar lugar a caixotes quadrangulares. A paisagem urbana e rural sofre com isto. "Espécimes" que podiam ser recuperados e com isso dar nova vida ao edificado existente e com valor. E o curioso é que até temos muitos arquitectos com grande capacidade para isto. Temos arquitectos que podem mudar o paradigma caso lhes seja dada essa oportunidade. E há belos exemplos de arquitectura vernacular preservada aquando da recuperação de casas várias pela região de Sicó.

De quem é a culpa deste cenário de perda de identidade arquitectónica? De todos nós, já que não valorizamos aquilo que podem observar nesta fotografia. Excepcional, belo, lindo... São alguns de vários adjectivos que posso utilizar para ilustrar o que se vê nesta fotografia. E, felizmente, ainda há muitos "espécimes" para salvar, caso o paradigma mude.

Vamos preservar e valorizar a arquitectura vernacular de Sicó?!


 

9.5.20

Arquitectura cársica: a importância da geologia na arquitectura regional

Fonte da coluna relativa às unidades estratigráficas da região de Ansião: Crispim, 1986

É uma questão que me anda a atazanar já há algum tempo, ou seja a menorização da arquitectura tradicional na região de Sicó, por parte de uma arquitectura moderna, que ignora a arquitectura tradicional em prol de uma arquitectura rectangular à base de materiais pouco ecológicos e nada ligados a esta bela região. Ou seja, o que me anda a atazanar é a descaracterização da região de Sicó também em termos arquitectónicos.
Há uns meses, e enquanto desfrutava de um de muitos locais mágicos da região de Sicó, foquei esta curiosidade arquitectónica, condicionada pela componente geológica. Quem sabe de geologia vai perceber logo o que esta imagem significa, bem como o esquema que o acompanha, mas quem não sabe, vai apenas perceber que, naquela imagem, há ali algo de estranho. Basicamente falando, e numa linguagem simplificada, temos ali dois tipos de pedra, uma mais resistente do que a outra. Como podem ver, a que está na base está mais "gasta" do que a de cima. Isto acontece porque têm propriedades e idades diferenciadas, daí uma estar em melhores condições do que a outra. Este pequeno grande pormenor faz toda a diferença em termos arquitectónicos, já que as propriedades da rocha/pedra condicionam fortemente a escolha da mesma na hora de escolher a mais duradoura. Em muitas igrejas e capelas que vocês já visitaram, já deverão ter notado que, por vezes, faltam estátuas. Isto acontece porque a rocha em que estas foram esculpidas é menos resistente à erosão, ou numa linguagem mais simples, resiste muito menos aos anos expostos aos elementos do tempo, água, sol, frio, calor, daí muitas estátuas terem de ser retiradas para se conseguir preservar as mesmas, colocando cópias no seu lugar original.
Uma das muitas belas característiticas da região de Sicó é a sua arquitectura cársica, ou seja casas construídas com pedra calcária, um traço identitário basilar desta paisagem cultural. Nos últimos anos tem-se visto que muitas casas antigas que, em vez de serem recuperadas, são simplesmente deitadas abaixo para dar lugar a casas feitas de tijolo ou blocos, revestidas cada vez mais com capoto. Não se tem investido numa forte campanha e apoios à reconstrução tradicional, com as devidas adaptações possíveis sem desvirtuar esta jóia da coroa.
Com uma política de apoio à recuperação do edificado tradicional e também, quando necessário, construção de raiz, de base tradicional, poderemos continuar a ter uma mais-valia arquitectónica na região de Sicó. Caso tudo continue igual, e daqui a poucas décadas, poderemos ter apenas uma meia dúzia de aldeias do calcário (o melhor termo é aldeias do carso) e a funcionar como que de um espectáculo circense se tratasse, a relembrar o passado. A decisão é nossa, fica a dica.
Termino com um texto que escrevi há uns tempos sobre a componente da geodiversidade, que decorre do que escrevi atrás.

6.5.19

Dicotomias pombalenses: reabilitação urbana, realidade ou ficção?


É um título algo provocador, que pretende fundamentalmente suscitar o debate e o espírito crítico sobre o património construído, sobre a arquitectura e sobre identidade local.
Para ilustrar devidamente este comentário, utilizo duas imagens que registei nas minhas duas últimas idas a Pombal, que ilustram de certa forma uma dicotomia. Em primeiro lugar o edificado esquecido, não valorizado e em mau estado. Em segundo lugar o edificado reabilitado, valorizado e em bom estado. O primeiro é algo que me repugna ver, dado o péssimo estado do belo edifício do qual esta "secção" faz parte, enquanto que o segundo é algo que me alegra, já que se trata de um edifício reabilitado e que mantém algo de fundamental, a identidade do lugar ou da rua em causa.
Tenho pena que a reabilitação urbana ainda não tenha chegado a Pombal a uma escala que faça a diferença, tal como se observa em Lisboa ou Porto, onde a força do turismo, para melhor ou para pior, tem levado a um investimento massivo na reabilitação urbana. Há toda uma série de ruas em Pombal, com edifícios bem catitas, que tem vindo a perder a sua identidade, graças ao desinvestimento de particulares e não só na recuperação ou reabilitação do edificado. Há várias causas, sendo que algumas delas irei centrar a minha atenção muito brevemente, em comentários mais incisivos. Para já fica o convite para que nos próximos dias olhem com olhos de ver para o edificado daquelas ruas mais povoadas de edifícios catitas em Pombal, onde ainda constam nas fachadas e interiores, histórias e estórias de muitas décadas. Tentem adoptar uma postura focada na análise da arquitectura vernacular que ainda se consegue ver por várias ruas...


5.7.18

Uma questão de mobilidade individual...


Quem é de Pombal ou quem conhece bem Pombal reconhecerá o que se vê nesta fotografia. É um dos poucos bons exemplos da integração arquitectónica necessária para facilitar a vida a quem tem mobilidade reduzida ou condicionada. Trata-se da escadaria do Mercado Municipal, a qual integrou de forma harmoniosa uma rampa, a qual possibilita transposição deste patamar por parte de cadeiras de rodas ou pessoas com muletas e afins. Quem não estiver com atenção nem repara no pormenor, mas é ver com atenção...
Porque abordo esta questão? Simples, porque trata-se de bom urbanismo, o qual é fundamental para que tenhamos cidades e vilas inclusivas, onde todos possamos mover-nos sem grandes dificuldades. Se acham que tudo está bem, imaginem-se numa cadeira de rodas e tentem imaginar as dificuldades que teriam para ir do ponto A ao ponto B. Falta sensibilização neste domínio, daí eu voltar a focar esta questão, com um exemplo de boas práticas, neste caso em Pombal. Agora vejam o que se passa nas vossas vilas e percebam o muito que há por fazer neste domínio. Há que pugnar não só pelo cumprimento da lei, bem como pela vulgarização das boas práticas. Todos temos a ganhar com isso. E mesmo que alguns pensem que isto não é importante, pensem como será quando tiverem 70 ou 80 anos e as pernas começarem a pesar....

27.6.18

Arquitectura e paisagem na região de Sicó


Arquitectura e paisagem são dois temas que muito me interessam, seja de forma dissociada, seja de forma associada. Em 2014 participei na consulta pública do Plano Nacional de Arquitectura e Paisagem (PNAP) e julgo que até sugeri alguns pontos relativos aos que agora destaco. Em Março último, estive também num evento que decorreu do PNAP, sobre Arquitectura e Paisagem, na CCDR-Norte, que teve casa cheia. Fui porque fiz parte da equipa que elaborou o primeiro Plano Municipal de Paisagem em Portugal, daí ser, para mim, muito importante estar presente naquele evento. E valeu a pena, vos garanto.
A foto que utilizo como "alibi" para este comentário é o exemplo perfeito do problema que pretendo abordar, ou seja os monos na paisagem, que afectam e degradam a paisagem cultural de Sicó. Esta imagem é da colina de Trás de Figueiró, em Ansião. Uma das primeiras coisas que chama à atenção é aquela habitação em construção. Não tem enquadramento paisagístico e isso deve-se à falta de legislação. É possível construir respeitando o território e a paisagem, em harmonia. Basta olharem com atenção e verão que do lado esquerdo daquele mono na paisagem existem mais habitações, contudo estão minimamente enquadradas.
Podem dizer que é só um mono na paisagem, mas não se esqueçam que existem centenas destes exemplos e que são exemplos como este que degradam cada vez mais a paisagem cultural de Sicó. Em vez de valorizarmos as nossas características e mais-valias, estamos apenas a contribuir para que estas sejam cada vez mais prejudicadas. E depois não há volta a dar...
É preciso debate e consciencialização, daí lançar aqui um repto, o de organizarmos um congresso sobre arquitectura e paisagem da região de Sicó, onde se englobe isto e outros aspectos mais. Sicó fica a ganhar e a auto-estima de cada um de nós também. Se alguma entidade pública ou privada estiver interessada, já sabem onde me encontrar...


9.5.18

Explore Sicó no dia de São nunca à tarde, conheça o "TRYSICO"!

Foi no final de Janeiro que o Farpas Pombalinas promoveu um interessante debate sobre um dos temas que faz parte das lides do Azinheiragate, ou seja o antigo CIMU, "actual" Explore Sicó, supostamente a inaugurar no início de 2019. É uma novela que se desenrola há demasiados anos, com a benção dos nossos impostos. A ver vamos qual vai ser a soma final...
Mas deixemo-nos de conversa gasta e vamos ao que interessa. A temática dos centros de interpretação é-me muito querida. Sempre que viajo costumo visitar este tipo de infra-estruturas, daí ter aprendido bastante nos últimos anos. Foi também há alguns anos que um, então, estudante de arquitectura entrou em contacto comigo, através do Azinheiragate, de forma a trocarmos impressões sobre a temática que nos une, Sicó. Foi assim que conheci mais um amigo de Sicó, que fiz mais um amigo e que pude partilhar parte do meu conhecimento sobre esta região. Aprendi também com o, agora, arquitecto Pedro Mota, na medida em que fiquei a conhecer uma nova perspectiva que me enriqueceu mais um bocado. E começámos a esboçar ideias, algumas das quais pode ser que ainda este ano vejam luz...
Tudo isto porque o arquitecto em causa estava nessa altura a desenvolver um trabalho de mestrado bastante interessante, precisamente na linha dos centros de interpretação/turísticos. Foi um projecto que tive o privilégio de acompanhar e que mostra um caminho, o tal caminho que o Explore Sicó não explorou devidamente. A forma como este projecto foi idealizado é um bom exemplo do que poderia ter sido feito no caso do Explore Sicó (ou outro nome que possa vir a ter...). 
Vejo muitas falhas graves em projectos como o Explore Sicó, porquê? Falta de competência, horizontes curtos, etc, etc, etc. O debate do Farpas Pombalinas sobre o Explore Sicó foi muito bom, já que permitiu-me saber mais falhas do que aquelas que já conhecia.
Decidi abordar o projecto "TRY.SICO" porque retrata algo de importante, seja em termos conceptuais, seja em termos de mentalidade. É isto que tem faltado na região de Sicó, mentalidade e atitude q.b.
Os meus agradecimentos ao arquitecto Pedro Mota, por ter disponibilizado estes conteúdos. Aos tecnocratas e políticos de algibeira, aprendam alguma coisa com este projecto, é esta a minha sugestão.