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23.11.17

Acorda Sicó!


Desde que me conheço que conheço a bolota. No meu recreio havia muitos carvalhos e um dos meus brinquedos era a bolota, a qual servia, entre outros, para mandar contra o pessoal. Belos tempos! Sim, o meu recreio era especial, pois não havia paredes, mas sim árvores.
Contudo, e há poucos anos comecei a interessar-me pela bolota de uma forma diferente. O que me despertou foi o facto de haver cada vez menos carvalhos e azinheiras e o pessoal ver estas duas espécies apenas como sinónimo de lenha para a lareira, quando afinal isso é muito, mas mesmo muito redutor. Pensei para mim que a bolota era algo de interessante, até porque sabia, através do pessoal idoso que a bolota foi, em tempos, um alimento. Depois pensei para com os meus botões, e se a bolota fosse não só a salvação para o abate de tantos carvalhos e azinheiras, alguns centenários. E se a bolota renascesse, em Sicó, para a alimentação humana, enriquecendo a gastrononia regional e funcionando como mais uma ferramenta para a promoção de políticas de desenvolvimento territorial? Comecei a pesquisar e meses depois, em 2015, fui a um congresso da bolota, na Herdade do Freixo do Meio. Fui matutando sobre a questão e vendo que há muitas oportunidades no aproveitamento económico da bolota. No último fim-de-semana fui novamente a um congresso da bolota, sendo desta vez um congresso ibérico sobre a bolota, em Matosinhos. Voltei a ver "velhos conhecidos" e a perceber que a roda já rodou bastante desde há 2 anos. Claro que há um enorme caminho a percorrer, mas já se provou que ele existe e que é fabuloso.
A região de Sicó tem potencial para ser desenvolvido no âmbito da fileira da bolota. Não há caminho trilhado, o que é complicado, mas não seria fabuloso fazermos este caminho e daqui a uma década olharmos para trás e dizermos que foi uma das melhores coisas que podíamos ter feito?
Quem estiver interessado em falar sobre trilhar caminho, que se acuse. Há muito por falar e muito por fazer... Sei que é arriscado fazer o que estou a fazer, dada a chicoespertice que por aqui há, contudo, e por vezes, há temas demasiado importantes, e potencialmente transformadores, que merecem ser partilhados. E se vierem para tentar ver se o barro cola, esqueçam, pois eu não nasci ontem...

18.11.15

E pela região de Sicó, como vai o Florestar Portugal?!


No próximo fim-de-semana vai ocorrer mais um evento de extraordinária importância, o "Florestar Portugal 2015". É importante não tanto pelo facto de se realizar este ano, mas sim por se realizar de forma regular, facto que lhe confere uma ainda maior importância. É uma excelente ideia e é suportada por uma verdadeira estratégia, a qual pensa no curto, médio e longo prazo. As estratégias só o são verdadeiramente desta forma.
No seguimento do meu último comentário, sobre a RN 2000, decidi que esta era uma excelente altura para abordar o "Florestar Portugal". A razão é muito simples, ou seja a falta de estratégia das autarquias da região de Sicó, senão vejamos, quantas das autarquias da região de Sicó participam no Florestar Portugal 2015? Desafio-vos a descobrir...
As autarquias têm vários problemas, um deles é a falta de estratégia, o pensar na hora e, por vezes, pensar de acordo com a conveniência. Quando surgiu o "Florestar Portugal", foram imensas as autarquias que se juntaram a esta bela iniciativa, mas passado algum tempo muitas delas começaram a esmorecer... O que diziam que era essencial é, afinal, acessório, facto que, para mim, não é surpresa.
E não me venham com a conversa do não há dinheiro, do não há tempo, pois isso é treta. E não "mandem areia para os olhos das pessoas" nem tentem "tapar o sol com uma peneira", pois isso não cola, pelo menos comigo. Não se trata meramente de plantar árvores, sejam uma dúzia e quase que apenas para a fotografia, ou sejam milhares para algum projecto de greenwash.
Trata-se sim de gerir a floresta, plantando árvores autóctones e gerindo todo o espaço florestal. Trata-se de gerir a paisagem. Trata-se de gerir a biodiversidade. Trata-se de pugnar pela qualidade de vida e da nossa saúde física e mental.
Por tudo isto e por muito mais, plantem árvores autóctones e arranquem a porcaria dos eucaliptos, bem como as invasoras (ex. mimosas). Desenvolvimento territorial é isso e muito mais!

4.12.14

Conversa do carvalho


É incrível como a nossa mente perversa tende logo a assumir que o título desta crónica tem outra conotação. Agora que consegui a vossa atenção, vamos então a mais uma crónica da "conversa", desta vez conversa do carvalho. A última tinha sido a conversa do vime, conversa esta que não teve tanto sucesso porque a nossa mente tende a não perverter com títulos menos peculiares.
Logo a partir de Setembro, comecei a ver circular várias carrinhas carregadas com lenha de carvalho, algo que me surpreendeu mesmo dada a enorme quantidade de pessoas que gostam da lenha de carvalho para a lareira. Pena é haver tanta gente que gosta de cortar os carvalhos, mas que não tem o hábito de os plantar, pensando no seu futuro e no futuro dos seus mais queridos. Sei que pelo menos parte daquela lenha decorreu de abate ilegal de carvalhos, mas infelizmente não consigo estar em todo o lado e não consigo ainda chegar a tantas pessoas quanto gostaria, do ponto de vista pedagógico. A educação ambiental e cívica é uma luta minha já com vários anos.
No dia 25 de Outubro, participei numa acção de apanha de sementes de carvalho cerquinho, aqui na região de Sicó, para posterior reflorestação a nível nacional (Projecto Floresta Comum). Mesmo apesar da tardia divulgação, fez-se uma divulgação que alcançou muita gente, no entanto foram muito poucas as pessoas que fizeram questão em dar uma pequena parte do seu tempo para uma causa tão nobre. Além dos dois elementos da organização, foram apenas mais 4 pessoas que se juntaram a nós. Uma de Ansião, duas de Ferreira do Zêzere (uma delas era um geógrafo inglês!) e outra de Braga. Urge reflectir do porquê da falta de interesse das pessoas nesta actividade. Se há tanta gente a adorar a paisagem de Sicó, porque serão escassas as que, na prática, fazem algo de muito concreto por esta maravilhosa paisagem e pelo carvalhal de Sicó? Se temos a maior mancha de carvalho cerquinho da península ibérica, porque não fazemos por manter ou mesmo aumentar a mesma em vez de andar diminuir a mesma?
No final da acção de apanha de sementes, fiquei consciente de duas coisas, a primeira era que as minhas costas acusavam um enorme cansaço, já que tinham estado 4 horas dobradas em prol de uma causa esquecida por muitos. A segunda era que me sentia muito bem, quase como que um pai do carvalhal. Pelas nossas contas, devem ter sido entre 30000 a 40000 carvalhos que vamos fazer nascer em dois viveiros, e uma enorme mancha de carvalho cerquinho que se vai criar devido à nossa vontade de tornar este país um lugar ainda mais agradável para se viver e desfrutar, sozinho ou com os nossos mais próximos.
O carvalho não é apenas lenha, é sim vida! Se querem um melhor futuro, plantem carvalhos, não se fiquem apenas pelo corte dos mesmos!

12.5.14

Anti-património na Serra da Portela: crónica de uma sucessão de acções atentatórias do património natural e cultural



A região de Sicó é pródiga em muitos aspectos, no bom e no mau sentido. Infelizmente os maus aspectos sobrepõem-se aos bons, o que me leva a ser cada vez mais incisivo na defesa do património desta extraordinária região. As ideias parvas têm muito sucessos por estas bandas, é a nossa triste sina.
Desta vez a história passa-se na Serra da Portela (Pousaflores), no Concelho de Ansião. Infelizmente é uma história já com algumas décadas e com vários episódios. Os protagonistas são os mesmíssimos de sempre. Ainda na década de 80, alguém teve a ideia peregrina de mandar para o topo da Serra da Portela uma máquina de rastos, que basicamente andou a lavrar nos lapiás, um atentado hediondo ao património regional. Posteriormente plantaram-se árvores, não das autóctones, mas de outro tipo. O lóbi da caça foi aqui preponderante. Depois, abriu-se uma estrada que mais parece uma pista de aterragem de avionetas, com ligação directa ao edifício dos caçadores.
Mais alguns episódios e eis que há poucos meses surgiu mais uma novidade. Já tinha visto, ao longe, que algo se passava por ali, no entanto, e por falta de tempo, apenas agora tive a possibilidade de me deslocar ao local, de bicicleta e máquina fotográfica a postos.
Não pensei que o que se passava ali fosse tão mau, mas afinal é mesmo assim, sem tirar nem pôr. Onde há poucos meses existia um pequeno e belo caminho, que se inicia em Pousaflores e segue pela serra acima, existe agora um estradão, populado por 12 novas cruzes, as quais me parece que terão o destino das últimas, ou seja vandalizadas.
Apesar de não achar graça, não ficaria incomodado se tivessem (re)colocado apenas as cruzes, de forma a repor aquelas que foram colocadas há vários anos atrás. No entanto, tal não aconteceu. Afinal surgiu uma ideia mais catita, rasgou-se a vertente Sul da Serra da Portela, destruindo o belo caminho e criando um estradão, o qual foi enfeitado, pois claro, com carradas de brita. Degradou-se o património, afectou-se negativamente a paisagem e criaram-se vários problemas, os quais irão afectar ano após ano aquele local. Alguns já se iniciaram com a chuva, pois a bela da erosão já começou a espalhar a brita, através de belos regos escavados pela água da chuva. Ano após ano será necessário voltar a espalhar brita e mais brita, que nem circo das pedreiras.
Os taludes também já sofrem, pois as máquinas instabilizaram extensas áreas. Colocaram-se tubos que ficam imensamente bonitos, melhor ainda quando a chuva os destapar mais.
O antigo caminho, agora estradão, terá uma grande importância, pois as provas de jipes irão adorar começar a trepar pela serra acima, criando ainda mais erosão. As curvas cegas são o expoente da genialidade, de tal forma que já alguns jipes patinaram por ali.
É a lógica circense do costume, a qual irei indagar se efectivamente foi legal, pois é precisa uma autorização para este tipo de espectáculos, especialmente quando o carvalho cerquinho perdeu algumas dezenas de irmãos. E pensava eu que os lapiás e o carvalho cerquinho eram protegidos, que aquela área fazia parte da Rede Natura 2000. Mas devo ser eu que estou enganado...
A Serra da Portela já foi violada demasiadas vezes. Na vertente cultural, primeiro lembraram-se de chamar esta Serra por Monte da Ovelha, mas depois de ali erigirem uma pequena capela, acharam que seria mais bonito chamar a mesma por Anjo da Guarda. Imagine-se, contudo, que esta serra tem um único topónimo, ou seja Portela, Serra da Portela. Na vertente natural, é tal como já atrás referi. E agora, o que se segue?




6.1.11

Para quando um Centro Ciência Viva do Carvalho Cerquinho na região de Sicó?!

Já fiz uma breve referência a esta ideia, já há 2 anos, mas a sua importância justifica agora uma nota de realce, não esquecendo que estamos em pleno Ano Internacional das Florestas (e ano europeu do voluntariado).
Uma das tristes realidades da região de Sicó, é que tendo muitos recursos não se aproveitam os mesmos, pelo contrários destrói-se, consciente ou inconscientemente estes mesmos recursos, uns identificados, outros não identificados, em busca de um suposto desenvolvimento (quando afinal confunde-se crescimento - que não é por si sustentável - com desenvolvimento - que é por sim sustentável...). Todos temos culpa deste facto, uns por fazerem as coisas por interesse próprio, outros porque não sabem fazer, e outros ainda porque não exigem que se faça.
Somos mesquinhas porque apesar de vermos que as coisas estão mal, pactuamos com esta triste realidade, fingindo que não é conosco, mas sim com o vizinho do lado. É precisamente isto que o azinheiragate tenta reverter, informando as pessoas e com isso tornando-as cidadãos mais informados, capazes de começar a exigir (construtivamente) que se façam coisas diferentes e melhores.
A ideia que destaco agora, já a apresentei oficialmente há 2 anos, mas ninguém, até agora, quis saber. Aposto que se fosse alguém de forma de Portugal a propor o mesmo as coisas já seriam diferentes, pois temos a mania de pensar que só se têm ideias boas lá fora, quando afinal também as temos cá dentro.
Os factos são simples, existe na região de Sicó a maior mancha de carvalho cerquinho da europa, mas infelizmente não existe nada que honre e potencie este recurso fabuloso. Por isso mesmo é que há 2 anos propûs oficialmente a ideia de ponderar a criação de um Centro Ciência Viva do Carvalho Cerquinho.
Apesar deste facto já antes tinha trabalhado no projecto que poderia levar à criação desta mesma infraestrutura, existindo inclusivé o projecto que esteve para ser candidatado a fundos comunitários em conjunto com outras duas infraestruturas (escola da geodiversidade e um espaço de apoio a investigadores que fizessem de Sicó a sua área de trabalho).
Na altura eu baptizei o projecto como escola da biodiversidade, e como poderão observar, este projecto incluia a recuperação de uma antiga escola primária abandonada (Ariques):


O projecto infelizmente não foi avante, por motivos que não importa aqui referir, mas basicamente tem a ver com a política rasca que se faz na região de Sicó.

Assim sendo, lanço o desafio agora à Câmara Municipal de Ansião para a criação de um Centro Ciência Viva do Carvalho Cerquinho. Há pelo menos duas antigas escolas primárias que se podem recuperar e sei que há a capacidade de ir em frente com um projecto deste género. Além disso sei que há a capacidade de fazer algo que corresponda há verdade, pois o que se costuma fazer é recuperar um edifício e baptizá-lo de centro de interpretação, quando afinal isso é na maior parte das vezes uma farsa. Há know-how (Universidades e Centros de Investigação, por exemplo em Coimbra), pessoas interessadas em ajudar gratuitamente e sem dúvida alguma que é um projecto âncora na valorização do património natural da região de Sicó.

Fica então o desafio à Câmara Municipal de Ansião...