Mostrar mensagens com a etiqueta Património Cultural Imaterial. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Património Cultural Imaterial. Mostrar todas as mensagens

9.11.15

Porque é que o património não marca?


É uma questão muito complexa e transversal, portanto dá pano para mangas quando queremos falar sobre esta mesma questão. Porque é que o património não marca é a questão que todos querem ver respondida. No particular ninguém tem a resposta, mas no geral todos temos a resposta. Complicado? Não, até acaba por ser simples. A resposta é uma equação baseada numa série de variáveis, as quais surgem de uma série de factores, alguns concretos, outros objectivos e outros nem uma coisa nem outra. Quando se faz uma leitura de conjunto, a coisa até se percebe no essencial.
O problema é que nas últimas décadas a abordagem tem sido a mesma e elaborada pelas mesmíssimas pessoas e interesses económicos. Tudo aquilo que estas mesmas pessoas não gostam ou não entendem, não entra na equação principal, daí não serem, por vezes, percepcionadas por quem de direito.
Todos temos culpa, desde o cidadão até à entidade pública ou privada. Há 2 semanas, nas extraordinárias VII Jornadas Temáticas da Al-Baiaz, onde pude dissertar sobre esta temática, consegui mostrar algo de novo a muitas pessoas. Para mim foi mais uma aprendizagem, pois a cada apresentação que faço, tento melhorar as minhas capacidades de comunicar com todos aqueles que se interessam sobre património, seja ele natural ou cultural. Uma das coisas que aprendi nesta última década é que as pessoas foram formatadas a pensar de uma forma redutora e claramente limitada. Somos educados numa lógica de pensamento limitado, ou pensamento de massas e, quando confrontados com novos horizontes, a primeira coisa que fazemos é basicamente dizer que aqueles horizontes são irreais e que o caminho certo é aquele que "as massas" nos ensinaram.
No final das VII Jornadas Temáticas da Al-Baiaz, recebi algum feedback sobre a minha apresentação. Fiquei satisfeito, pois conseguir chegar onde queria, numa espécie de acupunctura que estimula a forma de pensar, abrindo assim caminho a novos horizontes e no pensamento crítico. Na minha opinião, a maior luta a ser confrontada nas próximas décadas é mesmo a informação, o transmitir e partilhar conhecimento, o que, diga-se, não é fácil porque infelizmente são poucos os que o sabem fazer. Desenvolver o pensamento crítico, longe de ideologias políticas ou religiosas é a melhor forma de o fazer, pois as ideologias têm um problema fundamental, o de formatarem à priori as mentalidades, castrando assim formas diferenciadas de pensamento. Muitos dos estereótipos existentes devem-se às ideologias.
Quando queremos debater património temos ter em conta tudo isto e muito mais. O que mais me preocupa é mesmo a falta de informação desta sociedade, a qual hoje em dia sabe mais de coisas supérfluas do que factos essenciais para nós, enquanto espécie. Ainda consigo ficar surpreendido quando partilho alguns factos sobre património e as pessoas me dizem que não faziam ideia. Ainda fico surpreendido com o facto de as pessoas não saberem muito daquilo que pode possibilitar o desenvolvimento territorial. Ou melhor, até sabem mas são vítimas do endeusamento da economia pura e dura, onde esta está no centro de tudo, mesmo apesar de, no concreto, não estar e depender em primeiro lugar do ambiente, senso lato, e de tudo o que daí retira.
Este não é um comentário simples de entender, eu sei, mas não deixa de ser necessário...

17.9.12

Vamos lá ver então a história da tauromaquia enquanto património cultural imaterial...


É daqueles temas fracturantes na sociedade portuguesa, ao qual a região de Sicó não escapa. Naturalmente não poderia deixar passar muito mais tempo sem deixar aqui bem expressa a minha opinião, já que afinal o azinheiragate trata de património. Isto, muito embora os gralhos já se tenham manifestado há meses atrás.
Depois de um mês de Agosto, onde a festa taurina apareceu em locais onde não tem nem nunca teve tradição (Ansião - Santiago da Guarda - por ex.), eis que decido então abordar esta questão. Isto já muito depois do Município de Pombal ter reconhecido e declarado a tauromaquia património cultural imaterial do município.
Considero este reconhecimento sinal de populismo demagogo, já que a reconhecer e declarar a tauromaquia enquanto património cultural imaterial, isso só teria algum sentido em Abiúl. Isto será apenas uma atitude desesperada de quem quer impor uma cultura que não existe em muitos lugares e que querem impor a qualquer custo.
Indo então ao cerne da questão, não tenho problema algum em dizer que até gosto de largadas de vacas ou touros, já que isso é uma luta justa e todos se divertem. Mas fico-me por aqui, já que dizer que espetar ferros no lombo de um touro é "património cultural imaterial", isso não cabe na cabeça de mentes sãs. Não será difícil perceber que, tal como está, a tourada irá inevitavelmente acabar, já que quem gosta de espetar ferros e quem gosta de ver é gente teimosa, no mau sentido. Porque não acabar com este gesto da idade da pedra e mudar algo que não faz sentido algum? Inventem algo que não passe por espetar ferros no lombo de animais!
Será mesmo que a tauromaquia "fomenta de sobremaneira o desenvolvimento turístico do município de Pombal"? Claro que não!
Abordando agora as afirmações do Presidente da Junta de Freguesia de Abiúl, quando refere que "o touro nasceu efectivamente para ser lidado", considero estas anedóticas. Darwin acharia muita graça a isto, se bem que graça não tem nenhuma. Quando refere que "acabar com a actividade taurina é acabar com parte da economia nacional", esta é mais uma daquelas afirmações que não lembra a ninguém. Quem está a acabar com a actividade taurina são os próprios dinamizadores da mesma, já que ao teimarem em espetar ferros nos animais, só porque tem de ser e é "tradição", estão apenas a condenar-se a si próprios. As touradas estão a perder terreno a olhos vistos e caso os ferros continuem, as pessoas tendencialmente irão perder (ainda mais!) o interesse num espectáculo bárbaro e degradante. Isto já acontece, resta saber quantos anos mais a teimosia vai durar...
Já este ano, quando me desloquei a Valladolid, entrei numa antiga praça de touros, a qual foi transformada em complexo habitacional. É apenas um de muitos exemplos que mostra que as touradas já não são o que foram e nem têm a força que alguns ainda dizem que tem.
Se gostam de correr à frente de touros, tudo bem com isso, agora englobar o gesto bárbaro que é espetar ferros num animal, no património imaterial, isso é que nem pensar. E não, não faço parte de nenhum grupo defensor dos animais, sou sim defensor do que realmente é património e daquilo que realmente é racional.
Termino com um bom exemplo no que concerne à tauromaquia sã, onde todos se puderam divertir (incluindo os touros!), as festas do Mogadouro, em Ansião, no último fim-de-semana. Há 3 anos pude lá ir, correr à frente dos touros, numa luta justa e sem espetanços no lombo, isso sim é património cultural imaterial!