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27.7.15

Alto e pára o baile, Sr. Rui Rocha...


Quando iniciei oficialmente a minha acção enquanto geógrafo muito dedicado à questão do ordenamento do território, cedo percebi que, mais tarde ou mais cedo, teria de ser incisivo em determinadas situações. Isto aplica-se, no geral, a toda a região de Sicó (e não só...) e, no particular, à terra de onde sou natural, Ansião. Logo percebi que em Ansião a realidade poderia ser mais “complicada”, já que afinal facilmente me deparo com quem lido há muitos anos e com pessoas com as quais facilmente me cruzo no dia-a-dia. Resumindo, aqui a coisa torna-se mais sensível.

Ao contrário do que algumas pessoas poderiam pensar, eu trato todos por igual na hora de abordar as questões. Amigos amigos, ordenamento do território à parte. Há quem possa pensar que eu ainda sou aquele puto que andava ali pela vila há 20 anos e se esqueça que os anos passam e que alguns evoluem por si mesmo, longe de cenários onde a meritocracia é coisa que não se cultiva. Ao invés, cultiva-se a lambebotocracia.
Há uns tempos atrás, tive de denunciar mais uma situação irregular, desta vez ordenamento do território puro e duro. Até aqui tudo normal, no entanto, e após a questão chegar aos jornais regionais, a coisa teve um desenvolvimento algo inesperado, embora soubesse que seria uma questão de tempo até que isso acontecesse.
Eis que o presidente Rui Rocha perdeu o seu “desportivismo” e partiu para areias movediças. Ao contrário deste, eu dou-me bem em areias movediças, já que afinal os geógrafos são pessoal do campo e não meros tecnocratas populistas. Em vez de aceitar os factos concretos e objectivos, começou finalmente a utilizar aquele discurso intelectualmente pouco honesto, típico de tantos autarcas por este país fora. Cito Rui Rocha, quando este, de forma indirecta se refere à minha acção enquanto cidadão e especialista em ordenamento do território: “alguns fundamentalismos que inviabilizam o desenvolvimento” (Região de Leiria, Edição de 25 de Junho).
O facto de Rui Rocha ter utilizado este discurso, prova apenas que eu sou realmente capaz de incomodar quem não tem argumentos para rebater o que eu denunciei e, eventualmente, pensará que é intocável na crítica. Eu denunciei factos concretos, devidamente fundamentados, relativamente a uma obra irregular na zona industrial do Camporês. E este, em vez de aceitar desportivamente a crítica, partiu para um ataque que não é sequer digno desse nome. Ou seja pisou a linha vermelha.
Não vou aqui falar de quem, não sendo sequer especialista em ordenamento do território, surge como um messias do desenvolvimento, e logo num veículo muito vistoso, embora supérfluo, da marca demagogia pop. Diria até que tenho sérias dúvidas sobre se este autarca sabe o real significado de desenvolvimento. Ou então sobre ordenamento do território... Na minha opinião este autarca confunde crescimento com desenvolvimento, daí a sua confusão conceptual. É típico alguns economistas confundirem, mas também acaba por ser normal alguns geógrafos corrigirem este engano dos economistas. Estes pensam que o betão é a equação do desenvolvimento quando afinal é apenas uma de muitas variáveis da grande equação que é o desenvolvimento. Quanto ao ordenamento do território, parece-me claramente que Rui Rocha está equivocado sobre o seu significado, pois o ordenamento do território não é pegar numa caneta e esboçar uns limites quaisquer, "à vontade do freguês", num qualquer mapa. Ordenamento do território é estudar as variáveis ali existentes, de forma a saber como as podemos gerir de forma sustentável. Ordenamento do território é ponderar sobre o território e os seus valores, e é nesta base que se cria o desenvolvimento. Ordenamento do território não é decidir sem ponderar ou decidir pensando em primeiro lugar numa empresa. Desenvolvimento é isso caro Rui Rocha!
A melhor resposta que tenho para este autarca é só uma, ou seja, vou literalmente confrontar a sua demagogia com os factos concretos.
Este disse que a obra foi embargada em Fevereiro último, afirmando seguidamente que envolveu entidades como o ICNF “para se perceber se é possível a ampliação”. Ora, aqui, e como se diz, "a porca torce o rabo", pois os próprios documentos da Câmara Municipal de Ansião, disponibilizados para a discussão do PDM, mostram algo curioso. Ou seja, o mapa “Ordenamento – Áreas edificadas consolidadas” mostra que a área onde foi iniciada a obra de ampliação (ilegal) de uma fábrica está prevista como área edificada consolidada no novo PDM. É importante referir que o mapa é datado de Março último, portanto escassos dias após a tal suposta necessidade de se perceber se a ampliação é possível. Sabe o que se chama a isto Sr. Presidente? Incoerência! E a área de Rede Natura 2000 que foi à fava? E a área de Reseva Ecológica Nacional que foi à fava? Escusa de promover uma engenharia de palavras, de forma a fugir ao cerne da questão. Com números é possível trocar as voltas aos olhos, mas com o ordenamento do território a coisa é bem diferente. Comigo não cola uma empresa dizer que não sabia, que foi um erro de projecto, sacudindo a água do capote. Comigo também não cola um autarca vir falar em desenvolvimento logo após uma violação do PDM e depois ainda vir com a conversa tipo, olha, temos mas é de ver se é possível legalizar a coisa, de forma a trazer o desenvolvimento.
Como bem sabe, eu sou conhecido por, além de denunciar factos concretos e objectivos, devidamente fundamentados, ser um profissional que vai bem fundo na procura da verdade, custe o que custar, doa a quem doer. E a verdade é uma coisa chata quando não nos favorece...
Como eu bem expliquei, e ainda sem saber o que este autarca iria dizer, eu afirmei que acreditava que este seria mais um caso de facto consumado, onde a empresa que desrespeitou o PDM acabará por ver a irregularidade que cometeu regularizada em sede do novo PDM. Serei bruxo? Não, é apenas a obtusa (i)lógica que tem desvirtuado este nosso belo país e castrado o desenvolvimento do mesmo. Ordenamento do território é uma palavra vã na boca de muitos autarcas, utilizada quase que por mera conveniência. Por estas e por outras é que eu defendo há vários anos que todo e qualquer autarca seja obrigado (pré-requisito) a ter formação em ordenamento do território, de modo a melhor gerir o seu território (conhecer é poder...). Na minha opinião, Rui Rocha claramente não conhece o território nas suas mais variadas vertentes, ou seja de uma forma transversal. E se Rui Rocha fosse meu aluno na universidade, muito possivelmente teria negativa, tal a inobservância de factos elementares...
O que irá inevitavelmente acontecer com este caso, será o mesmo que já aconteceu noutros casos, já por mim enunciados, ou seja legalização de obras irregulares, seja por via do novo PDM ou por via de uma qualquer norma de excepção.
E já agora caro Rui Rocha, quando quiser aulas sobre desenvolvimento, está à vontade para me contactar. Passo recibos verdes ou acto único se for preciso.
Até hoje sempre me disponibilizei para ajudar no que fosse preciso todos os autarcas desta região, de forma gratuita, mas agora a conversa vai ser outra, pois não posso pactuar mais com autarcas amigos da dona hipocrisia, demagogos e populistas. Pena que assim seja...
Duas curiosidades. (1) Em 2009 tive uma reunião com Rui Rocha, onde, após sugestão da sua parte, dei uma série de sugestões e ideias para o seu mandato. Nessa altura não ouvi nenhuma conversa onde entrasse a patética palavra “fundamentalismos”. Nessa altura eu ainda não era tão incisivo na minha acção em Ansião e Rui Rocha era ainda Vice-Presidente... (2) Em 2009 e 2013, e na sua campanha eleitoral, naquelas arruadas de carros cheios de bandeiras laranjas, estavam também camiões (tractor) de uma empresa de obras públicas e construção civil com a tal bandeira laranja. Esta mesma empresa já teve um prémio decorrente de uma das minhas denúncias, mais concretamente 42000 euros, por enterrar alcatrão. Palavras para quê... Forte com os "fracos" e fraco com os "fortes"?!
Já agora, da próxima vez que se cruzar comigo, pense bem no risco vermelho que pisou. Não irei ser diferente do que fui até hoje e nem irei ser mais interventivo à conta desta sua jogatana de palavras vulgares. Irei denunciar sempre que se justifique, doa a quem doer, incomode quem incomodar, pois o que me move não é o protagonismo pessoal mas sim o protagonismo e a defesa do património, que é nada mais nada menos do que a base do desenvolvimento. Eu pugno pelo desenvolvimento e defendo o razoável! Você, e neste caso em particular, não pugnou pelo desenvolvimento, mas sim pelo interesse privado, não defendendo o razoável. As regras são para cumprir, goste ou não. É isso e apenas isso que está em causa neste caso.
Para terminar, e por mera cortesia, posso informar que estou apenas à espera que me facultem algumas fotografias sobre uma situação gravíssima, para proceder a mais uma denúncia. E esta vai incomodar muito...

19.8.11

Alvaiázere: quando a iliteracia cultural predomina, o ordenamento do território é que paga

O que começou como apenas uma ideia para um comentário mostrou-se, quanto a mim, um bom fio condutor no que concerne à análise do discurso dos autarcas da região de Sicó, no domínio do ordenamento do território. Iniciei com Pombal e segue-se agora Alvaiázere.
Vou basear esta discussão especialmente em dois artigos publicados no Jornal O Alvaiazerense, orgão de comunicação local manifestamente rendido aos encantos do autarca local. 
Inicio com o artigo da edição de 31 de Maio, no qual destaco algumas afirmações do autarca local, Paulo Morgado, sobre um projecto de um parque urbano em plena área rural:

"Este tipo de projectos vem "dar condições às pessoas de voltarem às suas origens e trazer jovens à nossa terra. E portanto é assim que eu acho que se faz o desenvolvimento do território e foi por isso que eu procurei promover aqui este tipo de infra-estrutura"

- Então vejamos, pelo que se lê, o autarca local acha (?) que é assim que se faz o desenvolvimento do território? Em primeiro lugar, o achar é coisa de aprendiz de amador, pois ou se sabe ou não se sabe. O desenvolvimento do território promove-se não se faz ou fabrica por encomenda a um arquitecto. É grave quando isto acontece, mais ainda quando se diz que "eu acho que", pois de sabichões  e "engenheiros" está o mundo cheio.
Paulo Morgado demonstra factualmente que eu tenho razão, ao eu defender que os autarcas devem ter formação base em ordenamento do território, pois assim já poderia dizer que sabia e não que acha que sabe.

"o autarca recordou "como era este espaço ainda há meia dúzia de meses atrás: era um espaço extremamente degradado e pouco digno". O Parque Multiusos Municipal de Avanteira veio "trazer mais algum potencial de atracção e mais gente à nossa terra" "

- Então um terreno agrícola é um espaço degradado e pouco digno? Em que medida um parque urbano em área rural traz potencial, per si, aquela freguesia? Se fosse um teste de geografia este autarca estaria chumbado. Em vez de se promover o regresso aos campos, promove-se a impermeabilização dos campos (solos), mostrando total falta de estratégia territorial. É inaceitável que se transforme conceptualmente um terreno agrícola em algo feio, só quem nunca soube o que é cavar terra pode lamentavelmente tentar transformar o que digno em indigno, se é que me faço entender. 

"Desde essa altura até à conclusão deste Parque, a Câmara Municipal deparou-se com "uma série de contingentes e problemas, pois isto está em reserva agrícola e reserva ecológica, andámos quase três anos para obter todas as autorizações", referiu Paulo Morgado. "Chegámos a estar quase a inviabilizar a construção das casas de banho, porque não tínhamos autorização para isso, devido à proximidade do leito do rio, do leito de cheia e de estar em reserva ecológica", acrescentou."

- Vejamos, o autarca considera que as regras legalmente instituídas, que visam não só a soberaria alimentar e subsistência agrícola (reserva agrícola) bem como a própria segurança de pessoas (caso das áreas de leito de cheia) como contigentes e problemas?  É grave quando alguém diz isto, ainda mais sendo um autarca que devia não só saber factos básicos, como dar o exemplo.
Em jeito de brincadeira, poderia dizer que até se poderia colocar na casa de banho, uma placa a dizer:
- Não utilizar em caso de inundação.

Indo agora para o artigo da edição de 31 de Julho, sobre a inauguração de algumas centenas de metros de estrada, de acesso a um estádio:

"Nós tínhamos alguns constrangimentos nas acessibilidades, sobretudo ao Estádio Municipal, tínhamos aqui a vila confinada a crescimento a poente, e portanto logo em 2006 procurámos com fotografias aéreas, com cartografias, tentar vislumbrar, tentar descobrir, diria assim, uma escapatória do núcleo urbano da vila para poente, que nos permitisse um dia levar-nos até ao litoral". 

- Procuraram com fotografias aéreas, com cartografias, tentar vislumbrar uma escapatória do núcleo urbano? Em primeiro lugar, não foi com fotografias aéreas, foi sim com ortofotomapas. Cartografias? Cartografias é no singular, Cartografia meu caro. É lamentável a falta de conhecimento básico, no domínio do ordenamento do território, por parte deste autarca. Em vez de se concentrar nas cartas de ordenamento, de condicionantes e outras mais, este autarca faz as coisas a olho, achando que é assim que se faz. A razão é simples, tudo tem de ser feito à sua maneira, mesmo que isso não se guie pela lógica, ou seja por estudos próprios, baseados no PDM, PP, ou PU. (entre outros).
A lógica de abertura de estradas, por parte deste autarca, comprova a franca iliteracia cultural deste, pois pensa que as coisas se fazem a régua e esquadro, esquecendo que a base territorial precede tudo o resto e que quando se inverte a sua lógica as coisas acabam por correr mal mais tarde ou mais cedo.
Vejam bem também algo que passa quase despercebido, quando ele diz "nos permitisse um dia levar-nos ao litoral". Este autarca queixa-se da desertificação e aqui em vez de dizer "nos permitisse atrair pessoas do litoral" diz "nos permitisse um dia levar-nos ao litoral", mostrando a sua verdadeira face e o seu real interesse, é a minha opinião. Em que ficamos caro autarca? O que é mais importante, trazer pessoas ou afastar as pessoas? A ilusão do estradão tem funcionado apenas como rota de emigração, deixando estes territórios cada vez mais vazios. Quando não se tem confiança no que se faz, bem como competência, há sempre a tendência de sair com frases tipo "nos permitisse levar-nos ao litoral". Será que o interior não tem pontos de interesse nem património, nas quais se possa basear o desenvolvimento territorial? Pelas afirmações deste autarca assim parece... Urge contrariar este tipo de mentalidades mesquinhas, centradas no egocentrismo, no culto da personalidade e no supérfluo.

"Ligar Alvaiázere ao litoral, melhorar o acesso aos equipamentos e serviços públicos, permitir o alargamento da vila para poente e contribuir para a promoção imobiliária, foram algumas das vantagens anunciadas por Paulo Morgado na cerimónia de inauguração"

- Alargamento da vila para poente e contribuir para a promoção imobiliária? Então vejamos, expandir a vila de Alvaiázere para terrenos agrícolas quando a Este da vila há terrenos não agrícolas que podiam ser aproveitados? Tendo dezenas de casas abandonadas na vila de Alvaiázere, que podiam ser recuperadas, para quê alargar? Só se for porque algumas dessas casas foram compradas para demolir, já que a prioridade é alargar estradas, em vez de REABILITAR!
Este autarca sempre disse que queria concentração, mas agora promove a expansão, porquê? Este autarca não refere também que a área urbana (PDM) é muito superior às reais necessidades da escassa população, por isso a minha enorme estranheza desta voracidade de impermeabilização de solos agricultáveis. Onde se vai cultivar o chícharo, (riqueza gastronómica tão pomposamente publicitada por este autarca) em placas de betão ou no solo?
Falta coerência a este autarca, bem como o explicar de muitos projectos, pois há muita coisa por explicar e interesses ocultos que importa conhecer.
Promoção imobiliária? Não será antes especulação imobiliária?

"Esta seria talvez a única alternativa que nós teríamos para a acessibilidade para o litoral", afirmou o autarca, acrescentando que "o alargamento da malha urbana seria sempre muito mais fácil para esta zona poente, mais fácil em termos económicos e de investimentos, do que pela zona nascente ou norte, onde a urografia dos terrenos e declives são muito maiores e portanto a construção é sempre muito mais cara o que evitava de alguma forma o desenvolvimento da vila para nascente e para norte".

- Talvez a única alternativa? Então e o acesso, a Sul deste, onde já existe acesso? Será que é preciso ocupar terrenos agrícolas e atulhar linhas de água muito importantes, as quais vão alimentar a nascente do Olho do Tordo? Mais uma vez, há aqui factos que precisam de ser explicados, e como eu sei que o autarca local lê (mas não admite) o azinheiragate, estarei à disposição para que este se explique.
Em termos de alargamento da malha urbana, então desde quando é que a lógica é perverter os instrumentos de gestão territorial só para fique mais barato construir? A elaboração do PDM de segunda geração tem-se prolongado por demasiado tempo, está à vista o porquê, já que o interesse é moldar o PDM à promoção (especulação) imobiliária. Em primeiro lugar tenho sérias dúvidas sobre a legitimidade do alargamento da malha urbana, já que esta é superior às reais necessidades, e mesmo alargando o correcto seria alargar para Este, já que neste direcção os impactos seriam muito reduzidos, ao contrário de na direcção contrária. Em segundo lugar, compromete-se a sustentabilidade a curto, médio e longo prazos só porque desta forma calha melhor às empresas de construção, veja-se só no que vai por aqueles lados. É tudo uma questão de escolher as empresas mais indicadas, senão a escolhida ainda pode ir à falência...
Poderia dizer que isto até é normal, já que há alguns meses atrás ficou por explicar bem a atribuição de um projecto à empresa da vice-presidente, arquitecta de profissão. A explicação do autarca local não convenceu ninguém, só mesmo as pessoas que orbitam em redor de si.

Uma das razões pelas quais eu decidi fazer estes comentários mais robustos, foi o facto de apenas assim muitas pessoas começarem a compreender o que está em jogo e como os nossos autarcas pensam e agem, o que muitas vezes tem impactos tremendamente negativos no território e consequentemente em todos nós, pois somos nós que lá vivemos. Estes autarcas depois de 3 mandatos vão-se embora e muitas vezes quando os problemas começam a ser percepcionados e sentidos pelas pessoas, os autarcas já estão longe, não sendo responsabilizados, daí ser imperativo resolver muitos dos problemas antes mesmo que eles possam surgir. Este autarca, em especial, já conseguiu deixar uma marca bem negativa que em alguns casos já não será possível reverter. Goste ele ou não eu continuarei por aqui, pois o que me move é apenas e só a defesa deste território, pois só defendendo o desenvolvimento (real) do território é que se pode dizer que nos preocupamos com aqueles que nele vivem e fazem a sua vida, isso sim é ser coerente! Tudo o resto é pura demagogia...

30.6.11

Interioridades: rural ou não rural, eis a questão


Este meu comentário vem no seguimento de uma linha de raciocínio a que fiz referência no comentário sobre o Encontro no CISED "Natureza: quanto custa", há semanas atrás, tendo a ver genericamente com uma questão que diz muito à região de Sicó, não só devido às suas características mas também derivado da proximidade de duas cidades de média dimensão, caso de Coimbra e Leiria. Temos assim os ingredientes para discutir, para já muito genericamente, um tema que eu considero estruturante e que carece de atenção de todos, mesmo daqueles que não costumam ligar a estas coisas.
A questão que mais discórdia levantou naquele encontro no CISED, foi a questão da referência do "mundo rural" e dos terrenos agrícolas, na questão da produção de biocombustíveis. É precisamente a partir daqui que iniciarei o meu comentário.
Uma das coisas que nunca compreendi é como é que é possível se destruir o essencial para potenciar o supérfluo, falo, claro, do desvirtuar do mundo "rural" para potenciar hábitos e consumos supérfluos da sociedade "não rural". É um problema muito grave e que tem raízes muito profundas na sociedade portuguesa e, consequentemente, na nossa história.
Confesso que fiquei perplexo com as palavras do Presidente da República há semanas atrás, quando falou acerca das virtudes do mundo rural, não porque não tenha toda a razão mas sim porque há uns anitos atrás foi uma das pessoas que mais influência teve no desvirtuar do mundo rural, através de políticas que privilegiaram apenas o betão e o alcatrão, menosprezando o potencial humano dos que vivem no "mundo rural". Foram então palavras de conveniência que representam a forma de pensar de toda uma classe política, seja partido A, B ou C.
As políticas territoriais que têm sido implantadas em Portugal já há várias décadas, têm tido um efeito absolutamente nefasto sobre o mundo rural, aquele mesmo onde está tudo aquilo que nos sustenta, a começar por tudo aquilo, natural, que comemos. É uma verdade que o mundo rural é um mundo de virtudes, onde encontramos tudo, mesmo a paz que necessitamos depois de uma semana de trabalho.
Não estou a dizer com isto que o resto ("mundo urbano") é paisagem, estou sim a dizer que o mundo rural deve ser respeitado e aproveitado, mas para isso há que promover políticas certas, as quais em vez de beneficiarem interesses económicos, muitas vezes predatórios, beneficiem as pessoas que lá vivem, permitindo-lhes viver neste mesmo mundo rural em vez de terem de ir para as cidades. A questão que retrato é, apenas e só, relativa ao tremendo desiquilíbrio que se instalou no mundo rural, questão que agora é demagogicamente aproveitada por algumas pessoas.
Fiquei bastante desiludido ao ver alguém a colocar a hipótese de aproveitar os terrenos agrícolas abandonados para produção de biocombustíveis, já que isto representa na perfeição o que referi acima, o de destruir o essencial para potenciar o supérfluo, ou seja acabar de vez com a agricultura para potenciar uma indústria que apenas pretende garantir combustível para o, muitas vezes, dispensável automóvel.
O regresso aos campos, ao mundo rural, é, além de uma inevitabilidade, uma necessidade, pois é inaceitável que estejamos tão dependentes da importação de produtos agrícolas estrangeiros, isto quando parte significativa dos mesmos poderiam ser produzidos nos muitos terrenos abandonados. Para isso são necessárias políticas sérias e honestas, as quais restabeleçam uma nova ordem entre campo e cidade, algo que irá beneficiar campo e cidade.
Quem vive no mundo rural não tem de ter vergonha, tem sim de ter orgulho e não se subjugar a interesses que não têm nada a ver com as realidades locais, interesses estes que desvirtuaram já demasiado o mundo rural, a favor de jeitos e manias de algumas pessoas que não sabem o valor das coisas, a começar pela terra de onde vêm aquelas alfaces que sabem tão bem. Falo, claro, de certos colarinhos brancos que pensam que podem impor as suas vontades ao campo, prejudicando-o de forma inaceitável.
Mais do que tudo há que motivar as pessoas que vivem no mundo rural e que querem fazer algo de bom, algo como ter apoios para voltar a plantar as terras, a investir na produção biológica de alimentos, os quais são cada vez mais valorizados.
Lembro-me, em criança, da minha visão sobre o mundo ser guiada por uma linha de pensamento que nos fazia crer que o mundo rural era a pasmaceira, onde não havia nada para fazer, mas depois de crescer e começar a pensar por mim próprio, vi que afinal a pasmaceira é noutro lado, já que no mundo rural tenho tudo e dependo só de mim e não apenas de um ordenado. É isto que é importante dizer a todos, o mundo rural é muito valioso, quem quer venha cá ter que há espaço para muitos!
A região de Sicó está numa situação ainda priveligiada, perto do interior e perto das cidades, possibilitando-lhe um vasto leque de oportunidades, resta-lhe aproveitar esse facto. Cidades e campo podem e devem coexistir, bastando apenas que um equilíbrio sustentável seja promovido, pois tem havido um desequilíbrio assustador, perdendo o mundo rural em quase toda a linha e perdendo curiosamente quem mais desequilibra a balança, ou seja o "mundo urbano", genericamente falando. Ainda não se percebeu que as cidades também perdem se houver ruptura no mundo rural, pois se este estiver desabitado o que acontece é simples, rupturas sociais, económicas e muito mais...
Há muitas ideias para explorar e desenvolver, em próximas oportunidades irei destacar outras, para já deixo uma ideia que considero válida para a região de Sicó.
Como estamos próximos de Coimbra e Leiria, nada melhor do que investir na agricultura, não naquela intensiva, que é pouco amiga da qualidade, mas sim de uma agricultura familiar que potencie os terrenos abandonados que têm real potencial agrícola. Alguns podem dizer que os números seriam reduzidos, eu digo que não, já que juntando todas as migalhas...
Podia investir-se nesta questão, criar cooperativas locais (também com a ajuda do micro-crédito) que além de eliminarem os intermediários (que comem a fatia do bolo e encarecem os preços..) iriam potenciar um negócio que não pode nem deve ser menosprezado. A economia não oficial é ainda substancial, portanto nada melhor do que aproveitar as oportunidades, inovando e favorecendo com isso o mundo rural e o mundo urbano. O mundo rural ganha com a recuperação de terrenos agrícolas abandonados, e tudo o que isso a jusante implica, por seu lado o mundo urbano ganha, na qualidade dos produtos agrícolas que recebe e no potenciar da economia regional, que fica assim mais favorecida. Há dúvidas?
Voltar aos campos não é voltar à idade da pedra, isso é um estereótipo cultivado por certos interesses económicos que vêm com bons olhos grandes aglomerações de ávidos consumidores de... coisas supérfluas!
Com este comentário, muito genérico, espero ter levantado algumas questões que levem a que muitos de vós pensem seriamente no valor do mundo rural e em tudo aquilo que se tem perdido. Voltarei a este tema muito brevemente, já de forma mais concreta e direccionada.
Alguns links a reter:
http://www.sper.pt/
http://www.animar-dl.pt/
http://www.novospovoadores.pt/