Mostrar mensagens com a etiqueta asininos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta asininos. Mostrar todas as mensagens

13.2.16

Ignorância burra e dura...


Há muitos anos que desisti de dizer que já tinha visto de tudo, já que afinal há sempre algo mais a ver. Tendo em conta que é uma questão que tem tudo a ver com a região de Sicó e com a sua identidade, passo então aos factos.
Sou do tempo em que ainda era normal andar de carroça, já que na década de 80 ainda era vulgar ver carroças a circular na via pública (ou até bois). Hoje é raro. Lembro-me bem daquelas viagens da Constantina até Ansião, é daquelas imagens que não esqueço. A carroça dava apenas para levar 3 pessoas sentadas (magras) e mais duas ou três sentadas atrás. A mula era pacífica, pois era bem tratada pelo dono. Sei que nem todos os donos destes belos animais faziam o mesmo, mas é como em tudo, há as boas e as más pessoas, há as boas e as más atitudes. Espero que esta tradição/modo de vida não acabe de vez, pois seria uma perda irreparável. 
Eis que há uns dias me deparei com algo que considero inconcebível, algo que está a ser proposto por gente que perdeu completamente o discernimento e a capacidade de separar as coisas, confundindo alhos com bogalhos, já para não falar na componente demagógica e populista. Denomino-os como fundamentalistas, na verdadeira acepção do termo. Costuma-se dizer, e bem, que a virtude está no meio, mas esta gente está no extremo.
Esta gente, que eu denomino também por pseudo amigos dos animais, querem, imagine-se, proibir a circulação de veículos de tracção animal na via pública. A sua justificação é a de que trata-se de exploração animal. Só gostava de saber o que é que esta gente anda a fumar.... Deve ser por viverem nas cidades e respirarem demasiados gases dos automóveis.
Dizem que colocam em causa a segurança rodoviária, bem como a de pessoas e bens. Fiquei confuso, pois isto é claramente um argumento para os carros, não para as carroças. Se me disserem que deveriam ser impedidas de circular por exemplo no IC8, aí concordo plenamente (lembro-me de um acidente com uma carroça na recta dos Ramalhais, há uns anos), agora de resto não.
Falam também no controlo na idade e na habilitação dos condutores de carroças, ou seja, em termos genéricos um não argumento. Até pensei que eles estavam a falar nos condutores dos papa reformas... Falam também em vítimas mortais, decorrentes de acidentes com veículos de tracção animal, sem referir sequer quantas foram afinal. Parece que não se assustam com as centenas de mortos relacionadas com carros, motos e camiões, mas que se assustam com 2 ou 3 mortes relacionadas com acidentes com carroças e afins. Patético...
Não menos importante, a fotografia que ilustra a petição, é de um caso ligado aos maus tratos a um cavalo por parte de ciganos (parece-me que no Algarve). Não utilizaram uma fotografia de um daqueles velhotes que guia uma carroça, com um burrico, porque será? Ai essa manifesta manipulação dos factos... Além de não conseguirem distinguir cavalos de burros, não sabem distinguir a utilização secular de animais com os maus tratos, colocando tudo no mesmo saco. Será que não sabem que há quem trate os animais bem?!
Falam em susceptibilidade de terceiros, de uma forma manipuladora e, diga-se, demagógica.
Imagem de Portugal e dos portugueses severamente lesada? Desde quanto? Das duas uma, ou esta gente não viaja ou então não têm acesso à internet. A atitude destes e a sua notória falta de discernimento é que lesa Portugal e os portugueses.
Falam em escravidão animal, e logo de uma forma filosófica, mas ao mesmo tempo compram roupa made in China, Bangladesh ou afins, feita por pessoas escravizadas pelo capitalismo predatório. Esquecem-se também que naquelas áreas onde são explorados recursos para os seus telemóveis, televisões, carros e muito mais, já existiram florestas com animais, os quais foram mortos para abrir caminho à desflorestação e consequente exploração de recursos geológicos ou biológicos. Esta gente perdeu completamente a noção do mundo em que vive, daí a minha crítica a esta pseudo petição. Por este andar, esta gente tem de ficar em casa, pois pode pisar uma minhoca e, assim, ser considerado assassino. Não corram riscos... Por este andar, muitos dos que têm gatos, têm de os deixar de ter, pois os gatos não podem ser reféns de gente que gosta de animais por um lado, mas não liga aos animais que têm de ser mortos para alimentar os seus gatinhos com rações gourmet... Ganhem juízo, nem 8 nem 80!!

20.11.13

Carroça-te Sicó!


É daquelas fotografias que falam por si. Há momentos que gosto de registar para a posterioridade e, por vezes, utilizar em alguns dos meus comentários aqui pelo azinheiragate.
Não me admira que o (muito) que resta desta carroça esteja brevemente ali num qualquer jardim de uma casa, como que se de um troféu se tratasse. São vários os exemplos de objectos como este que populam os jardins das casas de pessoas que pensam que, assim, dignificam o objecto em causa, que pensam que a utilidade dele é estar ali parado, sem utilização, à chuva, à espera que aquele do dia em que já não sirva sequer para mostra pseudo-etnográfica e siga para lareira.
Quantos são aqueles que pegam nesta carroça e a recuperam, dando-lhe utilidade, embora não a utilidade circense que, por vezes, se vê? Quantos são aqueles que a recuperam e a utilizam, nem que seja alguns fins de semana, com os familiares? Claro que isto significa que é preciso o burrico para puxar a carroça, mas estou apenas a desconstruir uma realidade e a construir uma outra. Sim, isto é possível, no entanto o pessoal contenta-se com a memória do objecto, daí a lógica do objecto no jardim à frente da casa, para toda a gente ver. Eu só me contento com a recuperação da carroça, com a vinda do burrico, com o regresso à terra e aproveitamento dos terrenos abandonados. Viver com calma e qualidade de vida é o mais importante. 
Já repararam como daquelas coisas que até gostamos de pensar que queremos fazer, raríssimas são aquelas as que levamos à prática? Somos levados por uma sociedade formatada, onde o comprar, comprar e comprar é que conta, onde a lógica do pseudo-desenvolvimento surge pelo consumismo e só se avança se se consumir mais e mais. É um modelo esgotado que continuamos cegamente a seguir, muitas vezes não pensando nos factos e nas consequências.
Não pensamos em recuperar nem mesmo em inovar. Há ideias para todos os gostos, desde o recuperar a bela da carroça, comprar o burrico e dar uso à carroça, dignificando o burrico e dando-lhe as devidas condições. Passeios de carroça, asinoterapia, são apenas alguns exemplos mais comuns. Há outras ideias, que assim de repente me lembro, mas pensando melhor, vou guardar a ideia que tive agora mesmo para um projecto a desenvolver nos próximos meses. Um brainstorm apanhou-me desprevenido, confesso... 
Voltando à carroça, já pensaram que quanto mais depressa andamos, menos tempo temos para nós e menos felizes somos? Hoje em dia falta algo de essencial, o parar para ponderar calmamente. Uma das melhores coisas que poderíamos fazer ao passar por ali, no local da foto, seria parar e entrar na carroça, que nem máquina do tempo. Sentados ali as ideias fluem de uma outra forma, isso é certo, já pensaram nisso? E que tal um destes dias, ao se depararem com este ou outro objecto etnográfico, pararem ao pé dele? Parem, mexam e sintam a alma do objecto, pois pode ser que fiquem inspirados e comecem a entender que este e outros objectos representam algo de fundamental. Pode ser que também oiçam o grito de revolta que estes objectos  desprezados conseguem verbalizar sem que possam sequer falar...
E já que falei em máquina do tempo, já pensaram que a têm mesmo à vossa frente?!