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20.11.13

Carroça-te Sicó!


É daquelas fotografias que falam por si. Há momentos que gosto de registar para a posterioridade e, por vezes, utilizar em alguns dos meus comentários aqui pelo azinheiragate.
Não me admira que o (muito) que resta desta carroça esteja brevemente ali num qualquer jardim de uma casa, como que se de um troféu se tratasse. São vários os exemplos de objectos como este que populam os jardins das casas de pessoas que pensam que, assim, dignificam o objecto em causa, que pensam que a utilidade dele é estar ali parado, sem utilização, à chuva, à espera que aquele do dia em que já não sirva sequer para mostra pseudo-etnográfica e siga para lareira.
Quantos são aqueles que pegam nesta carroça e a recuperam, dando-lhe utilidade, embora não a utilidade circense que, por vezes, se vê? Quantos são aqueles que a recuperam e a utilizam, nem que seja alguns fins de semana, com os familiares? Claro que isto significa que é preciso o burrico para puxar a carroça, mas estou apenas a desconstruir uma realidade e a construir uma outra. Sim, isto é possível, no entanto o pessoal contenta-se com a memória do objecto, daí a lógica do objecto no jardim à frente da casa, para toda a gente ver. Eu só me contento com a recuperação da carroça, com a vinda do burrico, com o regresso à terra e aproveitamento dos terrenos abandonados. Viver com calma e qualidade de vida é o mais importante. 
Já repararam como daquelas coisas que até gostamos de pensar que queremos fazer, raríssimas são aquelas as que levamos à prática? Somos levados por uma sociedade formatada, onde o comprar, comprar e comprar é que conta, onde a lógica do pseudo-desenvolvimento surge pelo consumismo e só se avança se se consumir mais e mais. É um modelo esgotado que continuamos cegamente a seguir, muitas vezes não pensando nos factos e nas consequências.
Não pensamos em recuperar nem mesmo em inovar. Há ideias para todos os gostos, desde o recuperar a bela da carroça, comprar o burrico e dar uso à carroça, dignificando o burrico e dando-lhe as devidas condições. Passeios de carroça, asinoterapia, são apenas alguns exemplos mais comuns. Há outras ideias, que assim de repente me lembro, mas pensando melhor, vou guardar a ideia que tive agora mesmo para um projecto a desenvolver nos próximos meses. Um brainstorm apanhou-me desprevenido, confesso... 
Voltando à carroça, já pensaram que quanto mais depressa andamos, menos tempo temos para nós e menos felizes somos? Hoje em dia falta algo de essencial, o parar para ponderar calmamente. Uma das melhores coisas que poderíamos fazer ao passar por ali, no local da foto, seria parar e entrar na carroça, que nem máquina do tempo. Sentados ali as ideias fluem de uma outra forma, isso é certo, já pensaram nisso? E que tal um destes dias, ao se depararem com este ou outro objecto etnográfico, pararem ao pé dele? Parem, mexam e sintam a alma do objecto, pois pode ser que fiquem inspirados e comecem a entender que este e outros objectos representam algo de fundamental. Pode ser que também oiçam o grito de revolta que estes objectos  desprezados conseguem verbalizar sem que possam sequer falar...
E já que falei em máquina do tempo, já pensaram que a têm mesmo à vossa frente?!

28.7.11

Burros, não há muitos!


Não posso dizer que seja do tempo em que o burro era ainda um meio de transporte e de trabalho, frequentemente utilizado, mas posso sim dizer que ainda sou do tempo em que tive o prazer de poder andar de burro, seja em cima dele ou sentado numa carroça. Nessa altura ainda era frequente ver-se pelas estradas da região de Sicó a bela carroça, puxada por um burrico, normalmente com um senhor de idade, ou então com um casal, também já de idade (que belas fotos dão!). Hoje em dia é raro ter esse prazer, sendo cada vez menos os burricos que por ali andam.
O motivo é o do costume, outros tempos, outros hábitos e vontades. É certo que os tempos são outros, mas será que o burro, enquanto património também da região de Sicó, não poderia ser potenciado e valorizado, em vez de se pensar que os burros servem apenas para fins agrícolas? Não serão ainda os burros mais um elemento/variável da complexa equação que é o desenvolvimento da região de Sicó? Ser são, mas infelizmente não há o conhecimento e a sabedoria para transformar este elemento numa mais valia para a região. 
É certo que as terras já não são lavradas com a ajuda do burro, muito embora ainda há poucos anos tenha visto isto mesmo, mas afinal quais são as "utilidades" do burro? 
Quando coloquei as utilidades entre aspas, foi com um propósito, o de marcar que não vejo o burro como uma mercadoria, mas sim como um "parceiro". Tratando bem e respeitando estes (e outros) animais, podemos aprender muito com eles, daí este esclarecimento importante. 
Muitos de vós já ouviram falar dos dois exemplos que agora cito, no entanto é frequente estas questões entrarem por um ouvido e saírem por outro. Falo, claro, de passeios turísticos de burro e terapia com a ajuda destes animais.
Tendo uma região com o potencial turístico que Sicó tem, nada mais natural do que aproveitar mais este recurso, ampliando a escassa oferta turística com os passeios de burro através dos muitos caminhos antigos que por ali há. Tendo cidades próximas, como são o caso de Pombal, Coimbra e Leiria, entre muitas outras localidades, não haveria público para actividades terapêuticas com a ajuda destes animais? Claro que havia, é preciso é pensar as coisas e apoiar. Ainda há algumas pessoas, de idade mais avançada, que teriam todo o prazer em ajudar, caso lhes fosse dada essa possibilidade, infelizmente o conhecimento dos mais velhos é ainda menosprezado em alguns domínios (lembram-se da minha ideia do "estaleiro da sabedoria"?). Pessoas que nem a quarta classe têm dão cartas neste domínio, ensinando inclusive muitos universitários. Se não se aproveitar este conhecimento, ele mais tarde ou mais cedo desaparece e depois nada feito, perdendo-se algo de valor incalculável, o qual é impossível de mensurar.
Deixo-vos então a pensar sobre mais esta questão, aproveitando para divulgar, para quem ainda não conhece, uma Associação que dá cartas nestas questões: