Era uma questão que estava em espera, mas que, após ler as afirmações de Rui Rocha ao Jornal de Leiria, há coisa de 2 semanas, ganhou novos desenvolvimentos.
Mas começando pelo princípio, vamos começar a desenrolar o novelo. Há 4 meses, quando abordei uma das questões mais quentes dos últimos anos aqui no azinheiragate (e que ainda não terminou...), Rui Rocha afirmou que afinal a ETAR do Alvorge afinal já não era para construir, tal como previsto no novo PDM de Ansião. Parece que de um momento para o outro o sistema de esgoto do Alvorge (bem como sistemas de pseudo-esgotos, a drenar para um aquífero?) já era para ligar à ETAR de Santiago da Guarda. Nesse momento fiquei confuso, já que Santiago da Guarda não tem uma ETAR mas sim uma EPTAR. E eu sabia que a EPTAR de Santiago da Guarda estava num estado que dispenso comentar, dadas as fotografias mais abaixo. E já não falo sequer da desadequação da mesma. Quase lembra a vergonhosa história da ETAR de Ansião, que demorou anos e anos a ser construída e quando foi feita já estava subdimensionada... Foi um péssimo cartão de visita de Ansião, pois a primeira sensação que tínhamos ao chegar a Ansião era mesmo o mau cheiro...
Na referida entrevista do autarca em causa, este referiu algo que me fez ficar algo perplexo. Depois de ser questionado sobre que grandes obras faltavam fazer em Ansião, este referiu que, e passo a citar "sinto-me feliz por dizer que não faltam grandes obras".
É neste momento que "a porca torce o rabo", pois na seguinte questão, quando questionado sobre a taxa de cobertura do saneamento neste momento, Rui Rocha referiu que era de... 40%. Casando esta questão com a da ex futura ETAR do Alvorge, da EPTAR de Santiago da Guarda e com a problemática questão da poluição dos aquíferos em meio cársico, tenho apenas a dizer que faltam claramente grandes e estruturantes obras. Claro que sei que a questão da poluição dos aquíferos não é nem nunca foi uma prioridade para Rui Rocha, mas é uma questão muito mais importante do que aquelas que o mesmo considera importantes e/ou prioritárias. Sugiro-lhe que em vez de uma de muitas viagens à Alemanha e a outros destinos do costume, faça uma viagem ao berço do carso (ex. Eslovénia), onde poderá aprender muito e retirar ideias importantes para aplicar no nosso belo território, além de conhecer as boas práticas ali promovidas e já há muito desenvolvidas. Há falta de conhecimento e evidente estratégia neste domínio e já estamos todos a pagar por isso mesmo, mesmo ignorando o facto...
A ETAR de Ansião não chega para as necessidades, falta uma ETAR no Alvorge e uma ETAR em Santiago da Guarda, bem como uma nova abordagem num território muito peculiar, onde há muito casario disperso. Há que começar a reconhecer que o paradigma das ETAR´s em meio cársico não é nem pode ser o que ocorre noutros territórios, do tipo chapa 5. Há inclusivamente a necessidade de apostar em soluções do tipo fossas biológicas, que, nalguns casos, são mesmo a opção mais racional e eficiente para moradias unifamiliares dispersas.
A suspeita existia desde Agosto de 2012, mas agora a suspeita tornou-se uma certeza. Quando era ainda uma suspeita, prometi que iria acompanhar a situação, o que em termos genéricos significa que mais tarde ou mais cedo iria descobrir a verdade. Quis o destino que, ao estar a ver os arquivos de um grupo de ex alunos de Coimbra, os quais, no decorrer de um trabalho académico, fizeram um levantamento fotográfico em 2012, me deparasse com algo tão comprometedor. Isto mesmo que os alunos não se tenham apercebido do que "inadvertidamente" guardaram para a posterioridade através de registos fotográficos. Ao passar por aquele local, e se calhar induzidos pela minha máxima (fotografa, pois mais tarde pode servir para algo...), acabaram por ali parar para ver que estranha obra era aquela. Abençoados!
Confesso
que não esperava que algo tão chocante fosse possível em Ansião, algo que
demonstra o quanto podre pode estar uma sociedade que deveria estar alicerçada
em valores e na ética. Mas vamos lá falar de um tabú...
Onde?
Alvorge, mais precisamente a escassas dezenas de metros do Lar do Alvorge. É um
tema que muitas pessoas têm medo de falar abertamente. Toda a gente fala entre si, mas publicamente ninguém tem coragem de o fazer. Compreendo perfeitamente
porquê, já que é um caso de excepcional gravidade, que, na minha opinião, compromete muito boa
gente, influente em termos políticos...(e quando assim é, há sempre o normal receio de
represálias, como eu tão bem sei...). Compromete
entidades públicas e de interesse público, bem como a imprensa de regime
(político), que, na minha humilde opinião, deu cobertura aos responsáveis por
esta situação, ao não investigar o assunto em termos jornalísticos. A imprensa não pode ser parcial...
Mas,
tal como devem saber, eu não tenho problemas em denunciar casos gravíssimos,
aliás sou temido pela minha frontalidade e, diga-se, tenho um gosto especial por casos complicados.
Num
país civilizado este caso deveria resultar em demissões, mas em Portugal, e na região
de Sicó, resultará apenas numa mais que provável vitimização e
desculpabilização por parte dos intervenientes. Com um bocadinho de sorte ainda
vou voltar a ler num qualquer jornal que há fundamentalismos que impedem o
desenvolvimento... E, claro, vou ser (novamente...) um "alvo a abater", mas afinal já o sou há muito tempo.
Mas
comecemos pelo início, passe o pleonasmo. No início de 2012 houve, alegadamente, uma entidade
pública que fez uma obra de “saneamento”, a qual consistiu basicamente em
drenar as fossas localizadas bem perto do Lar do Alvorge. O intuito não posso
dizer, pois não sou bruxo, mas posso dizer o que indicia perante os factos. O
tal “saneamento” não foi para ligar à rede de saneamento pública, aliás,
segundo o actual PDM de Ansião não está ali prevista nenhuma infra-estrutura
de esgotos, apenas uma ETAR no local circunscrito à zona das fossas. Ou seja, estamos perante um
esgoto não oficial e ilegal, o qual, em vez de encaminhar os esgotos para uma ETAR,
encaminha os esgotos para um sumidouro. Ora, isto é gravíssimo a todos os
níveis. Gostava de saber qual vai ser a desculpa por parte das entidades
envolvidas. Se estas tubagens não serviram para ligar à rede de saneamento, porque
foram as mesmas feitas, e logo na direcção oposta do núcleo urbano, onde não
existe sequer possibilidade de ligar à rede de saneamento?!
Na
edição do Jornal Serras de Ansião (Edição de 15/06/2012), a Provedora da
Misericórdia e figura histórica do PSD local, Srª Maria Luísa Ferreira,
afirmava que era falso que os esgotos se infiltrassem num algar ali próximo. Tinha razão, pois não é um algar, mas sim um sumidouro. Toda a trampa vai
directamente para o sumidouro, via linha de água e infiltração pura e dura, seguindo depois para o(s)
aquífero(s) Penela-Tomar e, possivelmente, Sicó-Alvaiázere. Das duas uma, ou a Provedora da
Misericórdia faltou à verdade, ou então desconhece completamente como foi feita
a obra. Espero que a Srª Maria Luísa Ferreira me possa esclarecer. E já agora,
espero que também me possa esclarecer como é que não há problemas de poluição associada à "rede
de esgotos". Não sendo especialista na temática ambiental, não tem competências técnicas que possam sustentar minimamente tal posição...
Lembra-se
de quando o Sr. Jaime Laim disse que a situação dos esgotos não estava
resolvida e, quando confrontada, a Srª disse que estava? (acta CM 2012 – 5 de
Maio, página 12...). Há alguma dúvida que, de facto, não está, nem nunca esteve
resolvida? Aliás, e tal como a referida acta refere, a obra (esgoto) ficou a meio, muito embora o esgoto tenha desde então vazado a trampa...
Há
um pormenor simplesmente delicioso, ou seja, os tubos foram alvo de cortes parciais e planeados (cortes
transversais), o que indicia que foram intervencionados para que os esgotos se
fossem infiltrando durante o trajecto (bela manobra, hein?!).
Falando em infiltração dos esgotos em meio cársico, deixo-vos com uma imagem bem pertinente...
Este trajecto
termina em terra de ninguém, no início da depressão que limita o grande
sumidouro do Alvorge. E não, no limite do “saneamento” não existe nenhuma ETAR,
só mesmo terra e rocha. Não é preciso ser-se especialista para perceber que há
aqui algo de muito errado, mas, em 2012, para a Srª Maria Luisa Ferreira, parecia que nada havia de errado...
Outra
componente interessante tem a ver com a entidade pública que autorizou tal obra
e que promoveu, na prática, a mesma. Eu ia jurar que conheço aquela máquina giratória de
algum lado...
Importa
também saber quem foi o técnico (Eng.º/ª?) que foi o responsável pela construção
do “saneamento”, bem como o autarca que lhe deu a ordem e orçamento para tal obra. Um
destes eu sei quem é, o/a outro/a não faço ideia, embora haja dois ou três
candidatos. Fico à espera do contraditório, caro Rui Rocha, pois politicamente falando, é o responsável pelo facto. Fico também à espera de um pedido de desculpas público, não só aos residentes do Alvorge, bem como aos residentes da região de Sicó, pois na minha opinião justifica-se plenamente.
Mas
continuemos, porque é que as fossas não têm sido regularmente esvaziadas e os
resíduos respectivos encaminhados para a ETAR de Ansião? (tal como alguns particulares têm de fazer às suas custas) Porque andam os
esgotos a vazar livremente e de forma impune? (como o sector terminal das tubagens já está
completamente entupido com tanta trampa, já vaza à superfície pela segunda
manilha, através da tampa – seguindo para a valeta, depois para o terreno,
linha de água e sumidouro) Porque é que esta situação não foi ainda resolvida?
Porque é que o caso não tem saído na imprensa local e regional? Ok, breve vai
sair, mas desta vez não conta.
E
não, não quero ouvir um mero pedido de desculpas, quero ouvir o mea culpa, pois nada pode
desculpar o que se tem passado por aqueles lados. E a saúde pública, quem vai
arcar com as responsabilidades? O que tem a dizer sobre isto Sr. Rui Rocha?
Não, não quero ouvir que a situação já está sinalizada, pois já o disse há 4
anos, e não quero ouvir que isto é da competência das Águas do Mondego, já que
também já o referiu há 4 anos. E não quero promessas, quero acção, em nome da
seriedade e do interesse público, onde se inclui a saúde pública. E, já agora, pretendo também um mea culpa da Srª Maria Luisa Ferreira. Errar é humano, negar o erro já não é bem assim...
Quem
tem a coragem de partilhar este comentário?! Deixo-vos com um pequeno vídeo que fiz há 2 semanas: