6.9.10

Água: um recurso a proteger a qualquer custo!


Vale mais do que petróleo, já que sem ela ninguém consegue viver, mas há ainda quem, além de ignorar a sua importância, polua gravemente os aquíferos onde ela está armazenada.
A água é um recurso e um património de valor inestimável, infelizmente hoje em dia ainda vemos situações que não podem passar impunes, em que alguém polui sem se importar com as consequências para as populações. Há ainda quem pense que pode fazer o que bem entende em locais ermos da região de Sicó, mas felizmente estes mesmos locais ermos conseguem-se encontrar e aí a coisa começa a correr mal para quem comete atentados ambientais gravíssimos.

O que vocês vêm na foto não é água, são sim dejectos líquidos que alguém com uma pecuária se lembrou de colocar num local ermo, depois de abrir um buraco, mesmo sem licença alguma, mesmo sem algum tipo de tratamento. Em plena Reserva Ecológica Nacional e numa área cársica, algo que piora a situação, dado a fácil infiltração destes resíduos, que em poucas horas podem viajar dezenas de km e poluem os aquíferos por muitos anos, tornando um recurso imprescindível em algo que não pode ser aproveitado...
A denúncia surgiu e o resultado não deverá ter sido bem aceite por quem fez o estrago, pois afinal os efluentes pecuários não tinham sido encaminhados para o local próprio e não havia licença para o tratamento dos mesmos. Abriu-se simplesmente um buraco no meio do nada e esperou-se que ninguém denunciasse...
Mas alguém ali passou e ficou envergonhado com o que viu, como não teve coragem de denunciar, mesmo sabendo que o podia fazer de forma anónima, avisou-me e assim lá fui eu tratar da situação.
Este é um exemplo que pode ser falado porque facilmente as pessoas compreendem a gravidade do sucedido. Não costumo falar destes casos porque por vezes há situações que não são compreendidas pelos cidadãos, falta o conhecimento (que tento incutir através do azinheiragate), mas abri aqui uma excepção para vos mostrar o que se deve fazer quando se passa algo de tão grave e lesivo para todos nós. Lembrem-se que a água da torneira vem de algum lado e caso ela esteja poluída....
Não se acanhem quando virem situações graves, denunciem!
Em casos ligeiros deve-se entrar com a pedagogia e avisar, mas em casos gravíssimos como este não há pedagogia possível, resta denunciar. Felizmente que cada vez mais este gesto de cidadania é encarado com normalidade e aplaudido, estão cada vez mais longe os tempos em que quem denunciava é que era visto como o mau da fita...

1.9.10

Apreciar a paisagem de Sicó nos miradouros....


Pois é, duas semanas depois estou de volta ao azinheiragate. Peço desculpa ao público mais atento pela demora, mas precisei de uns dias desligado da corrente para recarregar baterias e trabalhar a saúde mental. Quando trabalhamos em tantas frentes torna-se complicado ao final de algum tempo...

Antes de começar mais um comentário, gostaria de fazer uma pequena nota sobre algo que li hoje mesmo, logo que cheguei. O cancro de Portugal, chamado incêndios florestais, continua impune, e hoje li algo que confesso que não esperaria. Um grande incêndio ocorrido a alguns dias atrás na região de Sicó (além de outros), mais precisamente em Alvaiázere, foi, segundo notícia vinculada pela imprensa, ateado por um cobardolas que trabalhava na construção do.... parque eólico de Alvaiázere. Infelizmente mais uma vez eis um triste exemplo de más escolhas, estando eu para ver que medidas o autarca local irá tomar contra o empregador de tal criminoso pirómano. Pessoalmente considero que moralmente há que tomar medidas. Até agora nada ouvi do autarca sobre o sucedido, algo que até é compreensível tal o incómodo.

Indo agora ao tema com que volto às questões do património, destaco a questão dos miradouros que podemos encontrar na região de Sicó. O miradouro que vêm na foto é apenas um de vários, pessoalmente conheço 6 deles, tendo utilizado alguns há alguns anos como base para vigilância a incêndios florestais.

O projecto que levou à construção destes miradouros foi financiado por fundos comunitários (não sei se na totalidade ou parcialmente) e tem um problema comum a muitos projectos deste género, é um projecto chave na mão.

Não compreendo como é que se faz um miradouro que não se enquadra na paisagem, que causou feridas à paisagem. O objectivo foi nobre, mas mais uma vez mal conseguido. Infelizmente são ainda poucos os que usufruem destes equipamentos, mais facilmente muitas famílias vão aos centros comerciais a Leiria e Coimbra com os filhos do que vão contemplar a paisagem uma ou duas horas ao fim de semana...

Além disso muitos deles são mais utilizados para actos de vandalismo e actos ilícitos, ou então para levar a mota e fazer uns peões no largo...

Não se apostou em miradouros naturais, os quais que com painéis de leitura da paisagem fariam sucesso. Obviamente que seriam inicialmente vandalizados por aqueles que não têm mais nada que fazer, mas as mentalidades mudam e evoluem, temos é de trabalhar para isso. Este é o objectivo final do azinheiragate, mudar as mentalidades para melhor informando e obviamente criticando construtivamente certos aspectos....

Apesar de mal estar feito, no que concerne a estes miradouros, houve uma boa ideia há alguns meses, a de colocar mesas e bancos de madeira para as pessoas poderem fazer o seu pic-nic num local bem diferente. Sair de casa e usufruir da Natureza de Sicó é uma necessidade premente, só assim se poderá dar o devido valor à região.

Infelizmente também já notei que em alguns casos alguns bancos e mesas foram... roubados, é a triste sina. Seria interessante investigar quem rouba, pois é algo que não é assim tão complicado!

Espero então por novidades neste domínio, nomeadamente na criação de painéis de interpretação. As câmaras e/ou juntas de freguesia podem e devem apostar nesta questão, com ou sem ajuda das universidades!

Para finalizar queria apenas destacar que o mês de Setembro será um mês particularmente duro em termos de críticas, pois há coisas que têm de ser faladas a bem da região, por mais que incomode. Há dois casos em que serei muito duro tendo em conta o que está em jogo em termos de património e ordenamento do território....

Só um extra, não posso esquecer também o facto de os amigos brasileiros serem cada vez mais leitores do azinheiragate, algo que me faz muito feliz, já que assim posso divulgar a região de Sicó num país que tem laços históricos com Portugal e que é o país com muito potencial.... Daqui a algum tempo irei passar uma temporada nesse belo país por motivos profissionais, estou ansioso e já tenho alguns contactos priveligiados!

Em terceiro lugar surgem os amigos norte-americanos (ou emigrantes ali residentes), havendo também muitas outras nacionalidades, caso de espanhóis, franceses, ingleses, italianos, angolanos, alemães, suiços e moçambicanos. São estes os públicos mais atentos, mas os portugueses são naturalmente a grande maioria, que conjuntamente com os brasileiros representam uns 95% do total apurado.

O meu muito obrigado pela atenção ao azinheiragate, continuarei a tentar fazer algo de bom na defesa o promoção da região de Sicó, dentro de fronteiras e além delas!

13.8.10

Uma lixeira demasiado incómoda em Penela...

Foi uma questão que muito incomodou os autarcas e população em Penela no início deste ano, mais precisamente em Janeiro http://regiaodocastelo.blogspot.com/2010/01/lixeira-ceu-aberto.html
Nesta altura tentei fazer ver quer à Câmara Municipal de Penela, quer à Junta de Freguesia da Cumieira, que havia algo que não era propriamente aceitável, mais precisamente uma lixeira de dimensão média que teimava em continuar a estar onde não devia.
Era uma lixeira num local ermo, algo que favorece os "esquecimentos", por isso mesmo fiz questão em meter mãos à obra na tentativa de resolver a situação. Falei então com o Jornal Região do Castelo e saiu a notícia. Demonstrei também total disponibilidade para ajudar à resolução do problema, seja através de contacto com empresa de recolha de resíduos para reciclagem, seja através da ajuda de mais dois braços.
A notícia incomodou, de facto, os habitantes locais, sendo que um autarca ali se deslocou para ter conhecimento in loco do caso, referindo o mesmo que a situação seria rapidamente resolvida. Passo a destacar uma foto da lixeira, do "antes":

Depois disto, pensei sinceramente que a situação seria resolvida, aliás eu sugeri que esta lixeira fosse limpa no decorrer da brilhante iniciativa Limpar Portugal, ocorrida em Março.
Eis que 8 meses depois volto ao local, de máquina fotográfica na mão (já lá tinha ido sem máquina), e curiosamente não foi surpresa alguma o que vi, a lixeira estava ainda por limpar....
Só para vos dar um exemplo da dimensão desta lixeira, estão espalhados pelo chão cerca de 40 pára-choques de automóvel, fora o restante... A próxima foto, tirada no último dia 8 de Agosto, não retrata todo o lixo que lá se encontra, mas apenas uma pequena parte:


Tenho pena, sinceramente, ter de voltar a esta questão, pois pensei que após denunciada a situação esta fosse para resolver. Se o problema não fosse conhecido ainda poderia dar um desconto, mas além de conhecido é muito fácil de resolver.

Há poucos meses, em conversa com colegas meus, foi-me dito que certa pessoa de Penela disse que eu era aquele que dizia mal dele, por isso mesmo quero esclarecer um estereótipo que ainda anda a ser cultivado em certos círculos, felizmente em grau extremamente diminuto, pois quase todos já viram as boas intenções deste blog.

O azinheiragate e a sua acção tem como objectivos únicos a defesa e promoção do património natural e cultural e não qualquer atitude de "mal dizer". O dever de cidadania é aqui exercido de forma plena a favor das gentes e do seu património, por isso mesmo há que esclarecer que no azinheiragate as intenções são e sempre foram boas. Ninguém de boa fé pode afirmar que o azinheiragate tem "más intenções", este espaço é hoje em dia uma referência na região de Sicó no domínio do ambiente e património, divulgando-o também além fronteiras.

Eu não digo mal de ninguém, critico sim de forma construtiva e incisiva na esperança de dar um pequeno contributo pela região de Sicó. O azinheiragate mostra isso mesmo. Quando houver algo para aplaudir o azinheiragate aplaude, quando houver algo para criticar construtivamente o azinheiragate critica construtivamente. Sei que infelizmente há poucas pessoas com frontalidade suficiente para fazerem o que o azinheiragate faz, de forma imparcial, apartidária e longe de qualquer tipo de interesse ou lóbi.

Para terminar, e para mostrar que este não é exemplo único, mostro como se "resolveu" outra situação, esta bem visível e à entrada do lugar da Cabeça Redonda.

A primeira foto retrata uma primeira fase, onde foram colocadas várias tipologias de resíduos na berma da estrada. Nesta primeira foto já só se vê quase que resíduos de construção, latas e outros já tinham sido enterrados:

Eis que há poucas semanas se teve a ideia peregrina de resolver o problema... despejando um camião de terra em cima! Será isto a forma mais correcta de resolver problemas como este? Sei que é a mais fácil, limpar para debaixo do tapete sempre foi um mau hábito do povo português, mas uma coisa é o mais fácil e outra é a mais correcta.


Espero então que estas e outras situações se resolvam a bem do carso, pois uma política de desenvolvimento sustentável aplicada a esta região muito particular tem de ser abrangente e concreta. Penela já mostrou que até sabe fazer algumas coisas com algum valor no carso, mas ao mesmo tempo deixa por resolver situações tão graves como esta.

Será que quem passeia pela Cumineira, nesta bela área, gosta de se deparar com estas lixeiras? Será que isto não afecta o turismo? Claro que afecta, portanto temos de meter mão à obra!

11.8.10

A etnografia também é património

E porque a etnografia também é património, fica aqui um breve contributo do azinheiragate para a sua divulgação de alguma forma. Na medida do possível farei alusão a eventos relacionados com etnografia na região de Sicó. Faço esta breve nota sobre este evento por uma razão muito simples, o Rancho Folclórico da Freguesia de Pussos, tem feito um notável trabalho para a preservação de muito saber associado à etnografia da região de Sicó, sem eles já muito teria desaparecido. Espero que o seu vasto espólio não demore muito a ter um museu digno para expor tal património!

8.8.10

Região de Sicó em chamas, uma triste e recorrente realidade

Foi um fim de semana deveras dramático na região de Sicó, um incêndio de grandes dimensões assolou uma área considerável, deixando um rasto de destruição que devia envergonhar quem nos governa. Mancha verde, casas velhas e barracões, desapareceu tudo em poucas horas, património natural e construído que desaparece... mais uma vez...
Não vou falar das causas dos incêndios, sinceramente estou saturado de andarmos há quase 3 décadas a falar mais do mesmo, a dizer que para o ano é que vai correr bem. Enoja-me que os incendiários existam e haja tanta impunidade, enoja-me que a classe política portuguesa não dê um murro na mesa e acabe com esta vergonha nacional.
A nossa classe política não se está para chatear, isso dá muito trabalho, por isso é que ano após ano é a mesma festa pirómana. O problema é o ordenamento do território, mas eles não querem saber. Alterar o cenário actual iria mexer com muitos interesses instalados, por isso é que as coisas continuam a arder ao ritmo das temperaturas, e o cenário futuro será bem pior tendo em conta o que aí vem. Fazem-se algumas coisas, mas bem devagarinho....
Não compreendo porque é que não se proibe as televisões de publicitarem os incêndios florestais, alimentando vontades mediáticas. Cultiva-se o show mediático que são os incêndios florestais e tudo o que isso envolve, parece que muitos concordam com esta ideia, mas na hora de fazer algo simplesmente ligam a televisão e quase que se deliciam com as labaredas e com a confusão instalada, gente medíocre....
Como já puderam observar por esta altura, este meu comentário é de revolta, ando saturado com esta história que se repete há demasiado tempo. Foi há quase 20 anos que fui ao meu primeiro incêndio, confesso que o mundo dos bombeiros é muito complexo, tem evoluído, nuns locais mais noutros menos, para melhor, mas há muito ainda para trabalhar. Felizmente que tem evoluído muito! Até neste mundo vejo situações que me põem os cabelos em pé, mas infelizmente tenho de aguentar,a boa vontade não consegue aguentar tudo. Além disso há coisas que não podem ser discutidas na praça pública, devem ser faladas apenas por quem sabe minimamente deste mundo algo complexo. Maus profissionais há em todos os locais, felizmente aqui são poucos os maus e muitos os bravos heróis!
O meu olhar de geógrafo por vezes vê coisas que não deviam acontecer, mas o que mais me irrita é esta classe política que ignora o problema na sua base, será que vamos aguentar muito mais tempo? Estou saturado desta classe política cobarde que permite esta guerra pirómana que ano após anos destrói o nosso património. Caso não houvesse tantos homens e mulheres bombeiro/as já não teríamos mancha verde....
Não me vou alongar mais, estou cansado demais para ter o raciocínio que me leva a escrever com qualidade. Não compreendo como é que um bombeiro anda num incêndio 14 horas seguidas apenas com 2 sandes no estômago (após 14 horas deram jantar, eram 4 da manhã), é apenas um dos muitos exemplos da triste realidade, por mais que entidades públicas digam que as coisas correm bem, tentando esconder verdades incómodas...
Fez no último sábado (dia 7) 5 anos que tive um grave acidente, no decorrer de um incêndio (curiosamente na mesma área que agora ardeu novamente), tive de fazer fisioterapia e tive de pagar do meu bolso 700 euros, mesmo tendo sido um acidente em serviço. Tenho um problema para a vida inteira e a culpa morreu solteira...
Está a fazer 4 anos que viajei pela primeira vez lá para fora, e quando já estava de volta soube que tinha chegado a Portugal quando.... comecei a ver colunas de fumo da janela do avião...
É esta a triste realidade de Portugal e a região de Sicó não escapa, muitos dos que nos visitam ficam espantados com tamanho sadismo deste povo português, o qual sofre ano após ano e continua a não dar um murro forte na mesa para acabar com este mal que nos corrói todos os anos.
Só mesmo para finalizar dou três exemplos que me motivam bastante e mostram que ainda há pessoas com um coração daquele tamanho (bem hajam!), em vez dos mirones que gostam de ir ao incêndio com o seu pópó estorvar aos bombeiros só para ver aquela tristeza.
Passava da 1 da manhã quando uma senhora de 70 anos nos foi levar bolachas à frente de uma capelinha e fazer café em canecas lá da sua casa, foi algo lindo de se ver naquele cenário dantesco. Levou também umas mantas para o pessoal se deitar no chão de cimento de uma forma minimamente confortável. Foi de uma destas mantas que fiz uma almofada e dormi quase 2 horas (entre as 6:00 e as 08:00 +-) tendo acordado de manhã com os hélis já em acção.
Era quase 1 da manhã quando fomos abastecer combustível às bombas do Ramalhal e foi-nos oferecido pelo dono um bocado de queijo e um bocado de pão, além de um pacote de batatas fritas e um sumo. Soube melhor do que leitão, acreditem! Soube que até naquele local eu era uma pessoa conhecida, quem diria!
Eram 6 da tarde e estava eu a ajudar a puxar mangueira ao lado de um terreno, estanto parado à espera, de repente um coelho pequeno, cheio de calor passou a apenas 2 metros de mim sem medo e devagarinho, concerteza assustado com a destruição.
São momentos como estes 3 que nos dão alento em cenários tão macabros como ver noite dentro dezenas de pinheiros antigos em chamas, que nem arranha céus a arder em plena floresta.
Agora vou dormir umas horitas, pois acho que já mereci um breve descanso, amanhã é dia de trabalho!
Deixo então uma nota de apreço pelos nossos heróis bombeiros e uma grande nota negativa a muitos políticos cobardes, que permitem esta vergonha nacional!

2.8.10

Palestra e saída de campo sobre geodiversidade

Fica a notícia de um evento pensado para fazer a ponte entre a ciência e a sociedade, algo que tem faltado muito por culpa do mundo académico. Divulgar de uma forma pedagógica o que é afinal a geodiversidade, é o mote destes dois eventos associados. Urge consciencializar o cidadão do lugar que ocupa na geodiversidade e, por isso, também na biodiversidade. Só assim poderemos ter um futuro melhor neste belo planeta, com melhor qualidade de vida e pensando na actual e futuras gerações!
Nota: relativamente à palestra, o número de participantes é limitado ao auditório do Centro de Interpretação da Nascente do Rio Nabão. No que concerne à saída de campo haverá autocarro à disposição do/as participantes.

29.7.10

Estaleiro da sabedoria na região de Sicó

A ideia surgiu-me em termos mais concretos há poucos dias quando estava dentro de um carro à espera. É algo que, quanto a mim, deveria ser uma entidade regional a organizar, obviamente coadjuvada por algumas entidades locais da região de Sicó.
O nome de "estaleiro da sabedoria" surgiu após um longo brainstorming individual, e foi esta a expressão mais indicada para baptizar a ideia que agora passo a partilhar e a propor às várias entidades da região de Sicó. Quando digo estaleiro não é no sentido depreciativo, é sim no sentido de um espaço (virtual ou não) onde se pode ir buscar recursos muito valiosos para construir algo de bom e de últil para o desenvolvimento regional.
Num território como o da região de Sicó não é novidade o potencial cultural do mesmo, mas infelizmente também não é novidade que quando muitos sábios/artesãos/mestres/anciãos desaparecem, o mesmo se passa com a/s sua/as arte/s. Para piorar, pouco ou nada se tem feito em termos concretos para mitigar este problema.
Uma das coisas que se observa na região de Sicó, pelo menos para aqueles que sabem e lidam mais com as questões do património, é que quando se tenta procurar certo mestre/artesão, esta é uma tarefa quase impossível. Mesmo a nível de câmaras municipais este problema é uma realidade, fulano x tem de telefonar a fulano y para ver se fulano z sabe de algo. Basicamente para se chegar a certas pessoas chave o caminho é demasiado longo, estando também muitas vezes dificultado pelo facto de finalmente quando se chega a casa destes artesãos/mestres, este está fora e não há contacto algum.
Basicamente é um bico de obra para se chegar a pessoas que conhecem como ninguém certas artes e ofícios relacionados com o nosso património cultural.
Por isso mesmo penso que as coisas têm mesmo de mudar, para melhor, pois já se perdeu demasiado com estas descontinuidades do conhecimento ancestral na região de Sicó (e não só).
Tendo em vista a mitigação deste grave problema, sugiro o seguinte:
- Que as várias entidades locais comecem a reunir toda a informação relativa a estes artesãos, homens e mulheres que conhecem artes que mais ninguém conhece.
- Que estas mesmas entidades entrem em contacto com as respectivas câmaras municipais de forma a que estas agrupem e tratem eficazmente a informação recolhida.
- Que as câmaras municipais entrem em contacto com uma entidade supramunicipal (eventualmente as Terras de Sicó) para se elaborar uma base de dados, devidamente georeferenciada, com as informações mais importantes.
Desta forma ficaria disponível, quer às câmaras municipais, associações locais e regionais, universidades, etc, toda a informação que permitisse não só saber os artesãos/mestres que existem na região de Sicó, mas também entrar rapidamente em contacto com estes de forma a dar início a uma estratégia de revitalização de muitas destas artes e ofícios. Estas artes e ofícios além de representarem um património impressionante e importantíssimo, podem representar mais um vector económico regional, diversificando assim a actividade económica da região de Sicó.
Dou agora um exemplo simples para que todos compreendam o que quero dizer com isto. Imaginem que esta base de dados já existia e que uma câmara municipal, empresa ou associação quaisquer, queria trazer turistas para verem in loco um moinho de vento a funcionar e ver como se mói cereais. Telefonava-se directamente ao mestre do moinho, ou pessoa que fizesse a ponte, e rapidamente se poderia organizar algo. Assim ficavam os turistas contentes por verem algo raro e ficava o mestre ainda mais contente por ver que a sua arte era valorizada e que até poderia surgir um novo pupilo para dar seguimento à arte. Este é apenas um de muitos exemplos possíveis, destacando eu o potencial que esta ideia pode ter até em termos de investigação nacional e internacional. Multipliquem isto pelas várias artes e assim podem compreender a amplitude esta ideia do Estaleiro da Sabedoria.
A ideia está lançada, fico à espera de reacções...