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25.3.12

Os Fornos de Cal de Sicó


Antes de iniciar mais este meu comentário, queria agradecer a dois amigos meus, um que me indicou a existência de um Forno de Cal que eu desconhecia, e outro que foi comigo ao terreno mostrar a localização exacta do mesmo. Não vou indicar nomes, mas sei que muito provavelmente os dois vão ler este comentário, por isso obrigado!
Obviamente que também não vou indicar a localização deste Forno de Cal, digo-vos apenas que é virtualmente impossível de se dar com ele sem falar antes com quem sabe.
Quando fui visitar este belo Forno de Cal, deparei-me com um outro, mas já totalmente arrasado. Este, na foto, além de estar inteiro, tem um enquadramento fabuloso, único nos vários que eu conheço.
Poderia falar de outros fornos de cal, daqueles que "toda a gente" conhece, mas não é o meu estilo, gosto sim de falar sobre tesouros como é este Forno de Cal. 
Não sei quantos fornos de cal já existiram na região de Sicó, sei apenas que foram muitas dezenas. sei também algumas zonas onde os mesmos se concentravam, zonas estas agora perdidas no tempo e envoltas em mato. Por mais que tente compreender, não consigo perceber como é que temos tantas riquezas na região de Sicó e continuo a ouvir aquele discurso miserável do "não temos nada aqui", ou o do "somos uns pobres diabos, pois não temos recursos"(já disse isto muitas vezes e não me canso de o fazer!). Os Fornos de Cal são apenas um dos muitos milhares de variáveis que poderiam compor a equação que é o desenvolvimento territorial. Ao invés, enchem esta equação de variáveis estranhas que acabam por dar maus resultados, as tais versões estereotipadas de desenvolvimento territorial...
Os Fornos de Cal são mais um notável testemunho da evolução humana, no entanto o que vemos é o que as fotos demonstram. São poucas as pontes que se constroem entre jovens e menos jovens, de modo a se fazer a passagem deste património para o futuro, é por isso que muito deste património se perde nas estradas do esquecimento. Felizmente que nem tudo está perdido e que há jovens que podem salvar a coisa.
Eu não falo por falar, já que valorizo a arte de caiar e os Fornos de Cal, pois por exemplo, já mostrei isso mesmo há uns meses atrás, quando destaquei um pequeno edifício que caiei. Espero que com este comentário alguns de vós se possam aventurar na interessante busca de informação na temática da cal! Serve o presente comentário também para vos impelir a que sugiram às nossas autarquias a preservação e valorização dos fornos de cal que ainda se vão aguentando de pé, pois ainda há uns quantos e ainda estão vivas algumas das pessoas que lidavam com estes belos objectos patrimoniais.
Para quem quiser saber algo mais acerca dos fornos de cal, deixo-vos um documento disponibilizado pela Associação Al-Baiaz:
http://www.albaiaz.com/ytr345albfts/915iit4pdf67albz/08Set_Albaiaz_Azereiro07.pdf

11.6.10

Caiar o património: uma tradição quase extinta

De volta a Portugal, depois de mais um congresso, volto de novo às "hostilidades" no azinheiragate. Como já devem ter reparado, a aparência do blog está diferente, penso que para melhor. Relativamente aos conteúdos, estes serão alvo permanente de melhoria, já que estamos sempre a aprender, desde que nascemos até ao nosso último dia (há quem pense que se aprende tudo até aos 30...).
Desta vez venho falar-vos de uma arte secular, uma arte ainda com reflexos na região de Sicó, mas que infelizmente está quase extinta....
A arte de caiar as paredes dos edifícios, nomeadamente das casas, apesar de algo simples, é tremendamente eficaz, barata e utiliza(va) matéria-prima da região, a pedra calcária. Não me vou alongar nesta fase sobre o método de transformação da pedra calcária em cal, isso será alvo de um outro comentário nas próximas semanas.
Infelizmente hoje em dia reina a tinta plástica, menos amiga do ambiente. Como curiosidade, tenho um colega que outrora transportou matéria-prima do Alentejo para uma fábrica de tintas em Soure, algo que é sempre preocupante tendo em conta a importação regional de matéria-prima...
Voltando ao assunto da cal propriamente dita, este é um tema que me diz muito, já que em tempos fiz alguns trabalhos de caiação, algo que se pode revelar bastante perigoso derivado da reacção da cal com a água (ferve), caso atinja um olho pode-se ficar cego...
Fui ao meu baú de fotos, no qual achei duas fotos, as quais tive de digitalizar, e tive então o exemplo perfeito para mostrar visualmente o antes e o depois da caiação. Não tenho problema algum em divulgar as fotos, no entanto faço as normais medidas de protecção, já que já utilizaram fotos minhas sem autorização e isso não perdoo (sem que divulguem pelo menos o nome do autor). As fotos são do verão de 2003, na Serra do Casal Soeiro.
Esta capela situa-se num local muito conhecido por muitos ansianenses, e foi utilizado por mim em 2002 e 2003 (verão) como um local de vigia de incêndios, dada a sua excelente visibilidade em alguns quadrantes e octantes chave para a vigia.
Foi num destes dias que o senhor que construiu esta capela, infelizmente já falecido, parou ali na sua motorizada para meter conversa. Era uma pessoa sábia e aprazível de ouvir e nesse dia falámos na questão do mau estado em que a capela estava. Ele referiu que estava a pensar pintar a capela mas já não tinha idade, nessa altura eu disse-lhe que pintar era algo que não fazia naquele caso específico (apesar de também saber), mas que gratuitamente lhe caiava a capela, já que o tradicional era a cal e não tinta plástica.
Combinou-se e ele comprou o pincel a cal e o fixador de cal, logo depois fiz o que me comprometi, caiei a capela e tornei aquele local um bocado mais bonito. Fiz uma mistura forte e caiei a quente, pois é assim que se faz melhor, o resultado está à vista na segunda foto:

Sim, aquele fulano meio mal encarado na foto sou mesmo eu há uns aninhos....

Devido às condições agrestes naquela serra, passados quase 10 anos a capela já necessita de mais uma caiadela, mas isso já não depende de mim. No entanto fica aqui o repto a todos que não deixem cair de vez uma arte que já foi rainha na região de Sicó, os fornos de cal já foram quase todos, poucos são os que estão minimamente aptos para recuperação...