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27.5.12

Uma outra abordagem sobre as pedreiras...


Falo, claro, da abordagem pedagógica que podemos ter, em alguns casos, sobre algumas pedreiras. No último comentário referi que o problema não é a existência de pedreiras, mas sim o número, a localização e a dispersão das mesmas, ou seja é tudo uma questão de ordenamento do território, o qual é francamente pervertido por interesses económicos que pouco se interessam por tudo aquilo que não é o puro lucro.
Neste comentário, e dando seguimento ao tema das pedreiras, pretendo abordar a componente educativa das pedreiras. Sim, isso mesmo!
Em muitas das pedreiras de Sicó tem-se uma autêntica janela de conhecimento sobre a geodiversidade de Sicó. Geologia, geomorfologia e paleontologia, são apenas alguns de muitos dos aspectos sobre os quais podemos espreitar melhor numa pedreira. Noutros países europeus há a possibilidade de se visitar algumas pedreiras em exploração, para precisamente aproveitar esta janela de conhecimento priveligiada, mas em Portugal isso não acontece. Em Portugal e mais especificamente em Sicó, as pedreiras são um tabú e assim sendo tudo o que seja mostrar as entranhas de Sicó é de evitar por parte de quem explora as mesmas. Um dos muitos motivos porque isto acontece é porque certas pessoas podem ver que ali há uma gruta, algar ou pegadas de dinossaurio e depois é uma chatice, pois tem de se parar momentaneamente a exploração. Mesmo havendo a possibilidade de permitir o estudo das grutas, algares ou outros mais, sendo relevantes ou não, o que acontece é que quando se descobre é o toca a tapar e destruir. Já vi isto acontecer numa pedreira em Alvaiázere, felizmente que o momento ficou registado fotograficamente, o que é uma chatice para a empresa, que nega que haja ali algares, grutas ou outros "bichos"... Mas sei de muitos exemplos mais...
A foto que agora partilho com todos vós, é de uma pedreira que agora não vou situar geograficamente, digo apenas que além de se localizar na região de Sicó, é uma pedreira que conheço há já muitos anos. Os mais conhecedores facilmente conseguem ver o que pretendo destacar na foto, mas os menos conhecedores não, é especialmente nesses que penso quando mostro esta foto, já que ela é literalmente uma janela sobre um de muitos aspectos associados à geodiversidade de Sicó e ao seu endocarso. É uma bela falha, que possivelmente os mais conhecedores gostarão de visionar. É um dos exemplos mais felizes que conheço, sendo igualmente um notável exemplo para utilizar enquanto ferramenta educacional, quer relativamente à comunidade escolar, quer à população em geral. É com exemplos destes que se consegue explicar o que muitas páginas de livros por vezes não conseguem. 
É um facto que são poucas as pontes entre a comunidade científica e a sociedade em geral. Têm surgido alguns bons exemplos, mas são ainda incipientes quando se aborda a questão no seu todo. Através do azinheiragate eu tenho tentado construir algumas destas pontes, é algo de que não prescindo e que tenho vindo a observar e sentir que tem tido efeitos positivos nos últimos anos. É um humilde e honesto contributo, mas "grão a grão enche a galinha o papo". Se todos nós fizermos um bocadinho por Sicó, as coisas certamente terão impactos globais muito positivos e relevantes, por pouco que seja.

18.1.10

As más estratégias de divulgação do património...

Confesso que fiquei perplexo há poucos dias quando entrei mais uma vez no google earth para mostrar um local em especial a um colega, mais ainda, fiquei muito preocupado com o que vi...
Foi já há quase 4 anos que eu coloquei algumas imagens de interesse de alguns locais particulares, no google earth, este local de divulgação do património bem interessante.
Na altura, mais especificamente num colóquio em Alvaiázere, referi a importância desta ferramenta na divulgação de Alvaiázere, bem como da própria região. Disse-o mas com algumas reservas, já que há património que não se deve divulgar sem medidas de protecção.
Na altura não me levaram a sério em Alvaiázere, mas agora surgiu curiosamente uma "avalanche" de imagens, é precisamente sobre algumas delas que quero falar de uma forma concreta e sucinta.
Escolhi alguns dos exemplos que mostram como não se deve fazer esta divulgação no google earth, em primeiro lugar deve-se divulgar os factos com conhecimento de causa, depois deve-se fazer a divulgação, mas de forma responsável...
O primeiro exemplo, é de um local onde coloquei uma foto de um megalapiás agora muito conhecido, é um local de interesse geomorfológico que eu em 2006 destaquei no google earth. Eis que agora surge uma outra imagem, do mesmo local, que não é específica nem científicamente precisa, pois se a ter sido o Município de Alvaiázere a colocar esta informação, este errou. Isto pode parecer um mero erro básico, mas se imaginarem que eu tenho um trabalho de investigação onde retrato este local em particular e que ofereci um exemplar em papel do mesmo ao Município de Alvaiázere, o erro toma proporções de algum alcance, porque é que esta informação científica foi pura e simplesmente ignorada?


Depois passamos para um lapiás que é, segundo o Município de Alvaiázere, de interesse arqueológico, mas será que o lapiás é um elemento arqueológico? Não será antes um elemento geomorfológico?

Megalaiás dos Penedos Altos? Não será antes Megalapiás dos Penedos Altos? E não não é outro mero erro ortográfico, pois ainda há outra foto onde consta megalapiáz, quando é sim megalapiás. Nesta questão da terminologia é pena errar-se de forma tão gravosa, especialmente tendo em conta que eu ofereci em 2007 o glossário ilustrado de termos cársicos ao... Município de Alvaiázere.
Temos de ser exigentes com as entidades públicas, pois estas são bem pagas para fazer este género de trabalhos, portanto não podemos permitir que errem como o faz um aluno de 1º ano de licenciatura.

Sem dúvida um local bonito, mas como pode ser um local desta dimensão de interesse paisagístico? Parece-se que há aqui uma confusão de termos bem como de escala de análise.

Aqui é mais um exemplo, onde se ignorou trabalhos já existentes sobre este tipo de património, já com artigos publicados (Guanilho Duarte) e com conhecimento por parte do Município de Alvaiázere. Este poço de cobertura cónica é afinal um poço de carapuça com púcaro, é assim a denominação correcta.

Já na esfera do "património biológico" temos o que é referido como uma árvore notável ?! Penso que aqui há um notável equívoco, já que esta "árvore" é sim uma bela Opuntia sp. (muito provavelmente...) ou seja um arbusto suculento e espinhoso!
São erros crassos como este que não são de forma alguma compreensíveis por parte de uma instituição pública, exige-se melhor e aconselho muito trabalho de casa para corrigir erros graves como estes que agora enunciei.

Antes de terminar queria salientar algo de importantíssimo e que interessa discutir o seu sentido ético. Será que é prudente divulgar desta forma algum património sem a devida autorização dos donos? Será que agora algum deste espólio agora divulgado abertamente no google earth estará a salvo de salteadores de património, caso por exemplo de noras (ou outro espólio notável móvel)?
Divulgação sim, mas de forma responsável e éticamente correcta, ao proceder-se de forma pouco responsável podemos estar todos nós a colocar algum do espólio da região de Sicó em risco, pois agora ele está visível e é conhecido aos olhos de pessoas que fazem da sua vida o saque do património (móvel, obviamente, pois um dos meus amigos megalapiás ninguém os leva...).