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6.5.14

Carta aberta aos clubes e/ou associações que pretendem organizar provas desportivas na Rede Natura 2000

O dia teria de chegar mais tarde ou mais cedo, portanto eis que chega o dia em que tenho de alertar alguns clubes e/ou associações que já organizaram ou que pretendem organizar provas desportivas no Sítio Sicó/Alvaiázere, ou dito de forma genérica, na Rede Natura 2000.
Desde já peço a todo/as o/as que fazem parte destes clubes ou associações, que façam chegar este meu comentário às respectivas direcções, pois é matéria que lhes interessa. Estas têm a obrigação de se inteirarem sobre esta questão, daí eu preferir começar pela abordagem pedagógica e informativa, em vez de começar logo "a matar", algo de contraproducente e a evitar. 
Já por algumas vezes alertei para situações que representam verdadeiras problemáticas e que sustentam a necessidade de ordenar a actividade desportiva em áreas protegidas, concretamente em áreas sensíveis a vários níveis, seja fauna, flora, geodiversidade ou mesmo património construído. Até agora, apenas por duas vezes me pediram esclarecimento sobre esta questão.
Dito de uma outra forma, e sabendo à partida que defendo a realização de provas desportivas na Rede Natura 2000, vejo claramente a necessidade de meter ordem onde ela escasseia, estando, para isso, disponível para ajudar quem me pedir ajuda. Provas desportivas sim, mas não a qualquer custo.
A última má notícia que recebi, no âmbito de asneiras cometidas à boleia de provas desportivas, teve a ver com um passeio de btt, solidário, efectuado na Serra de Sicó. Já com alguns dias decorridos após tal passeio, mantinham-se montes de garrafas de plástico em alguns pontos, algo de inaceitável sobre sobre todos os pontos de vista. Há também a tradicional festa das fitas que populam esta região, muito depois das provas se realizarem. Mas não só, há outros problemas, mais complexos, já evidenciados nos três links atrás destacados, que afectam gravemente a integridade de locais de uma riqueza assinalável.
Voltando ao cerne da questão, passo então a alertar os clubes e/ou associações que pretendem organizar provas desportivas no Sítio Sicó/Alvaiázere. É obrigatória uma autorização, por parte do ICNF, para a realização de provas desportivas, sejam elas btt, trails, provas motorizadas ou outras mais.
É necessário enviar a informação base ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (antigo ICNB), sobre a forma de um documento, onde conste a descrição do que se pretende fazer, um mapa com o trajecto, data prevista, número de participantes e, claro, o organizador da prova.
Será importante referir um facto diferenciador, ou seja se é um mero passeio ou uma prova de competição (ex. btt, motos e jipes), já que estas últimas pagam uma taxa, na ordem de algumas dezenas de euros. Passeios de btt, regra geral não pagam nada.
Naturalmente que será importante elaborar um "plano ambiental", no qual seja referido, por exemplo, que não será permitido aos participantes mandar lixo para o chão. Por vezes este último ponto até acontece, no entanto nunca é demais trabalhar esta questão. Resumindo, um bom marketing ambiental faz toda a diferença se for realmente efectivo.
Em termos de legislação, é o Art. 9º do D.L. 49 de 2005, datado de 24 de Fevereiro, que rege esta questão. Há que lembrar que há muitas pessoas mal informadas, as quais pensam que é proibido organizar provas na RN2000. Esta mesma questão foi-me colocada ainda há poucas semanas, quando ajudei a esclarecer este mito, ou melhor, este estereótipo criado por quem quer acabar com as áreas protegidas no "seu" território.
Para finalizar, volto mais uma vez a solicitar a todos vós que façam chegar esta questão às direcções dos clubes e/ou associações, pois se, por agora, não irei denunciar quem organiza provas ilegalmente em Rede Natura 2000, isso não significa que o faça por muito mais tempo. Ou seja, a partir sensivelmente de Setembro/Outubro deste ano, eu e outros mais iremos começar a indagar sobre a legalidade de algumas provas desportivas, a bem no nosso património, o que poderá resultar em multas a quem não cumprir com o que está legalmente instituído. 
Quem vos avisa, vosso amigo é...

8.3.13

A outra face dos desportos de natureza na região de Sicó

Um dia teria inevitavelmente de surgir o debate sobre uma questão muito particular, relacionada genericamente com o decorrer de provas desportivas na região de Sicó, as quais se desenrolam por esta bela paisagem. Se é certo que este facto tem trazido centenas de pessoas à nossa região, também é agora certo que nem tudo corre bem, decorrente destas mesmas provas desportivas. É certo que a intenção é boa, no entanto...
O facto de associações e/ou empresas poderem organizar livremente provas desportivas, caso de BTT e trail (entre outras) tem levado a que actualmente se comecem a constatar problemas associados. Isto acontece por vários motivos, desde o pleno desconhecimento de regras básicas, até ao desconhecimento de regras que, não sendo básicas, são fundamentais para um correcto desenvolvimento destas provas nesta região muito peculiar. Isto já para não falar que há provas que são feitas sem autorização de algumas entidades públicas, as quais apesar de até saberem, deixam passar... 
Tenho constatado alguma falta de preparação de indivíduos, associações e empresas, o que significa que já observei alguns problemas decorrentes desta impreparação. A falta de regras e do cumprimento de algumas já existentes, tem levado a que o enorme aumento de provas de BTT e trail esteja a ter reflexos negativos, muitas vezes sem que as pessoas se apercebam.



Já falei desta questão a alguns amigos e já senti na pele algum incómodo por surgir a conversa do costume, do suposto fundamentalismo, o que afinal até foi bom, pois alertou-me para algo e fez-me investir uns minutos neste comentário. Assim sendo, venho desta forma mostrar que não é fundamentalismo, é sim pugnar pelo cumprimento de regras, o que permite algo de muito simples, a continuação da existência de provas deste género por muitos e bons anos. Gostar não é dizer apenas que se gosta, gostar é preservar, e isso implica, por vezes, medidas pouco populares no curto prazo (embora populares no médio e longo prazo).
Em primeiro lugar, há que referenciar que eu participo quer em provas de BTT, quer em provas de trail, daí não ser daqueles que fala sem saber. 
As consequências da passagem de centenas de pessoas ou bicicletas num local, podem variar, já que há locais mais sensíveis e locais menos sensíveis. Não pretendo fazer uma análise de conjunto, mas sim pegar em dois exemplos e falar de dois troços (sensíveis) dos respectivos percursos. Penso que será fácil qualquer um entender que numa área protegida, ou numa área que não sendo protegida é sensível, têm de se tomar medidas especiais, decorrentes da sua evidente vulnerabilidade.
Em primeiro lugar, falo do caso do "Trilho do Javali", um trilho de BTT que foi aberto há mais de 3 anos. Este trilho situa-se numa vertente da serra do Casal Soeiro, em Ansião. Há semanas atrás fui então fazer o trilho a pé, com a máquina fotográfica ao ombro, de modo a registar aquilo que importava destacar em termos de problemática. Nunca fiz aquele trilho de bicicleta, já que por uma questão de coerência não participo em provas que sei à partida desrespeitarem regras que considero básicas.
A minha principal preocupação era a erosão associada à abertura de um trilho naquele local, especialmente tendo em conta o declive no segundo terço da vertente. Não precisei de andar muito até me deparar com algo de preocupante, a malvada erosão.
Nesta segunda fotografia, está à vista a erosão (inicial) ocorrida nos últimos 2 a 3 anos, num sector mais declivoso. Não será difícil perceber que em poucos anos, e com episódios de elevada pluviosidade, aquele sulco irá crescer, resta saber a dimensão que terá depois de muita chuva cair e milhares de bicicletas ali passarem. 
Na primeira fotografia, está à vista o que fica depois de alguém pegar numa marreta e andar a partir lapiás à grande e à francesa, mesmo que isso seja proibido (Rede Natura 2000). Quem andou de marreta na mão nem sequer se deu ao trabalho que ver que até estavam ali fósseis...
Não gostei também de constatar que dois muros foram postos abaixo, de forma a que as bicicletas pudessem passar. Será isto preservar o património?!


Nesta quarta fotografia, mostro o trilho linear pelo meio do carvalhal. A ver vamos como vai ficar o sulco daqui a uns tempos. E depois, quando estorvar, abre-se um outro ao lado?


Passo agora a um outro exemplo, mas relacionado com uma prova de trail realizada em Fevereiro último (Trail de Conímbriga). Este troço situa-se no vale das buracas, local de interesse geomorfológico de interesse nacional, o qual devia estar devidamente protegido e ter já um plano de gestão.
No troço que destaco, não deveria passar quaisquer prova, já que é uma área muito sensível. Caso passasse na estrada em terra batida, aí até poderia concordar, mas agora passar num local onde não havia trilho e onde a inclinação é de 45º, aí é que não.


A Câmara Municipal de Condeixa deveria, no meu entender, promover factualmente a preservação do local, e não permitir a degradação do mesmo, pois é isso que está a acontecer. Uma coisa é passar pela estrada em terra (brita), outra é passar por onde não faz sentido, onde só degrada. Urge um plano de gestão deste LIGeom.


Fui ao local, já depois da prova, para elaborar um registo fotográfico que me permita monitorizar a situação nos próximos anos, coisa que ninguém se lembra de fazer. Não gostei de, passados 2 dias, constatar que as fitas de marcação ainda não tinham sido retiradas.
Penso que esta última fotografia é a que mais facilmente é percepcionada por todo/as, já que consegue-se observar o que fica depois da passagem de centenas de pessoas por aquele local com cerca de 35 a 40º de inclinação. Estes locais não aguentam tanta gente e todos os locais têm uma capacidade de carga limitada, a qual não deverá estar estudada para aquele local.
De todo o trajecto, cerca de 22 km, estes 400 metros eram de evitar. Com tanto caminho, para quê passar num local que além de sensível, não tinha caminho?
E, para finalizar, deixo algumas ligações, onde os interessados por esta problemática podem de alguma forma perceber (caso entendam inglês) a problemática associada aos trilhos:





Como já referi, não é uma questão de fundamentalismo nem de imobilismo, é sim de preservação de locais de grande valor patrimonial. Para isso há que criar regras que permitam o usufruto deste património de uma forma sustentada, só assim poderemos realmente usufruir das coisas que gostamos!
Penso que depois deste comentário, fica "tudo" esclarecido, podendo agora ser lançado um debate, sem estereótipos.