quarta-feira, 13 de maio de 2015

Iniciativa "investigadores na região de Sicó": Bosques e Galerias Ripícolas (3)

E chegamos então à terceira parte do comentário:



"3.ª Parte – Conservação e Gestão de Ecossistemas Ribeirinhos

Dada a sua importância tanto em termos ecológicos como económico-sociais é fundamental a protecção e conservação dos bosques e galerias ribeirinhos.


Protecção:
Vários Habitats da Rede Natura referem-se a bosques e galerias ribeirinhos (e outros tantos correspondem aos restantes tipos de vegetação ribeirinha, exceptuando os silvados, que estranhamente não são considerados como Habitat!):
Para além dos mais evidentes assinalados nas Fichas de Habitat do Plano Sectorial da Rede Natura 2000, que reflectem os diferentes tipos de bosques e galerias ribeirinhas (a maioria evidenciados na 1.ª parte deste artigo), como os Habitats:

91B0 (freixiais), 91E0*(3 subtipos – amiais, bidoais e amiais/borrazeirais palustres), 91F0 (bosques tempori-higrófilos), 92A0 (5 subtipos de salgueirais-choupais e borrazeirais), 92B0 (= 91E0* + 5230*pt5),  92D0 (2 subtipos – tamargais, loendrais e tamujais),
... há outros Habitats mais raros em Portugal que correspondem a bosques ou galerias que podem ser (ou são-no) ribeirinhos:
                  9380 - azevinhais: são raros e estão mal estudados, mas há azevinhais ribeirinhos;
                  9580* - teixedos: os existentes são maioritariamente ribeirinhos;
                  9160pt2 - aveleirais: alguns são ribeirinhos;
                  5230*pt1 - louriçais: uma grande parte são ribeirinhos;
                              pt2 - azereirais: maioritariamente, senão exclusivamente, ribeirinhos;
                              pt5 - adelfais: maioritariamente ribeirinhos;
                  5110 - buxais: maioritariamente, senão exclusivamente, ribeirinhos;

[* - Habitats prioritários para conservação a nível europeu]


Fig. 7. Teixos adultos (e azevinhos) no Rio Maceira, PN Peneda-Gerês

                  Conservação:
Consoante os valores ambientais e as necessidades humanas há dois tipos de conservação:

 a) (semi)passiva – corta-se a fonte de perturbação e deixa-se a Natureza recuperar livremente (poderá ser necessário pequenas intervenções, como a gestão de silvados e de pequenos núcleos de exóticas, etc.).
                  Este tipo de intervenção deverá ser privilegiado pois é ecológica e economicamente mais sustentável.                  

b) activa – a cessação das actividades impactantes na vegetação não é suficiente, ou porque são áreas já muito artificializadas, ou porque a vegetação é dominantemente exótica, etc. Neste caso terá de haver uma intervenção mais profunda que poderá  seguir duas vias:

                  - Requalificação paisagística – p.e. em áreas muito alteradas e urbanizadas o voltar ao natural é extremamente complexo, tem custos avultados ou é quase impossível. Nestes casos o objectivo da intervenção será recuperar a paisagem ribeirinha o melhor possível, o que não quer dizer que se deva descurar um aspeto essencial: – as espécies a utilizar devem ser sempre nativas (evitando-se mesmo aquelas em que há dúvidas, e.g. choupos) e o material genético deve ser o da região. O simples "ajardinamento" de um curso de água onde normalmente se introduzem inúmeras espécies exóticas, que nada têm a ver com estes habitats, não são opção dado o conhecimento actual sobre a problemática das espécies exóticas em habitats (semi)naturais. Ao introduzir uma qualquer espécie exótica num trecho de rio estasse a fomentar a invasibilidade a jusante. 



Fig. 8. Técnicas de engenharia natural na recuperação do Paul da Goucha, Alpiarça (curso de Eng. Natural – APENA, 2008)


- Restauro ecológico – em áreas semi-naturais (agro-florestais) e naturais (áreas protegidas ou outras) deve-se fomentar boas práticas de restauro ecológico recorrendo-se, sempre que tecnicamente possível, a técnicas de engenharia natural e, quando não possível, as artificializações devem ser minimizadas com vegetação (sempre nativa e local).
                 
Em ambos tipos de intervenções é imprescendível não menosprezar a problemática das espécies exóticas na sub-bacia hidrográfica em causa. Deverá haver sempre uma estratégia para o seu controlo (e irradicação futura) tendo em conta o levantamento das espécies a montante da área de intervenção, sobretudo nas linhas de água, mas não só, dependendo das espécies em causa. O menosprezo destas espécies poderá levar a que a intervenção em vez de promover o restauro da vegetação nativa venha antes promover a invasão da área que foi intervencionada."

O meu agradecimento ao meu amigo Estevão Portela-Pereira, por ter investido o seu precioso tempo na partilha do seu conhecimento!

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