quinta-feira, 9 de abril de 2015

Iniciativa "investigadores na região de Sicó": Bosques e Galerias Ripícolas (2)

Depois da primeira parte do texto, segue-se a segunda:


"Parte 2 – Funções e Serviços Ambientais da Vegetação Ribeirinha

Os bens e serviços ambientais dos bosques e galerias ribeirinhos são inúmeros para além das funções ecossistémicas que partilham com outros tipos de vegetação – como a produção de energia (fotossíntese), equilíbrio dos gases na atmosfera e a reciclagem de matéria. A sua conservação traz assim não só vantagens ecológicas, como económico-sociais.
As funções ambientais, que todos os ecossistemas nos prestam, podem dividir-se em 4 grupos [APRH - glossário], assinalamos de seguida onde a vegetação ribeirinha se destaca:

Funções regulativas: (capacidade em regular processos ecológicos essenciais, contribuindo para a sustentabilidade ambiental e económica duma região)


Fig. 4. Tamargueiras que formam pequenas ilhotas com a retenção de sedimentos e freixos que fixam as margens na Rib.ª da Ota (Canhão da Ota, Alenquer)

- regulação do escoamento superficial e de inundação;

- retenção de sedimentos, p.e. a formação de mouchões deve-se, em parte, à vegetação;

- prevenção e mitigação do risco de cheia, já que oferece protecção às margens contra a erosão e, por sua vez, evita a perda de solo arável;

- formação do solo e manutenção da fertilidade, p.e. as raízes do amieiro permitem a fixação de azoto no solo;

- filtro biológico de nutrientes orgânicos e poluentes;

- regulação biofísica do meio (microclima), o efeito de sombra de uma galeria bem conservada influi na temperatura do ar e da água no seu interior;

- fornecimento de habitat à fauna, não só à piscícola, mas também aos répteis, anfíbios, mamíferos, aves, invertebrados, etc., que encontram maior abundância de alimento nos bosques ribeirinhos, assim como melhores condições de abrigo, alimentação e reprodução, já que o seu aspecto luxuriante contrasta com o aspecto esclerófilo da vegetação mediterrânica envolvente;

- manutenção da biodiversidade e do seu potencial biotecnológico;
                 
Funções de Suporte: (capacidade de prover espaço e substrato adequado para actividades humanas, como)
                  - Turismo e lazer – um ecossistema ribeirinho bem conservado promove o usufruto por parte da Sociedade, e.g. praias fluviais, os banhos refrescantes e frescas sombras quando o calor aperta, ou a pesca desportiva (sustentável ou sem morte). Do mesmo modo promove o turismo, e.g. caminhadas na procura por cenários luxuriantes e espécies nativas e endémicas não se coadunam com rios poluídos, uniformizados ou invadidos por impenetráveis canaviais...


Fig. 5. Galeria de amial antigo e bem conservado na Rib.ª de Alge (Alvaiázere) convidam a caminhadas, pesca de lazer ou simplesmente a contemplação deste bosque luxuriante.

                  - Protecção da Natureza – os bosques e galerias ribeirinhos são importantes habitats da Rede Natura 2000;

                  - Cultivo – os solos destes habitats são os mais produtivos – com uma gestão equilibrada é possível e vantagoso compatibilizar o cultivo nas várzeas com a conservação destes bosques;
                 
Funções de produção:  (capacidade de prover recursos naturalmente disponíveis, basta aplicar tempo e energia)

                  - oferta de alimentos, p.e. as amoras fornecidas pelas silvas, que são plantas muito comuns nos meios ribeirinhos;


Fig. 6. Amoras maduras (e a amadurecer) num silvado ribeirinho (Rubus ulmifolius Schott var. ulmifolius)

                  - recursos medicinais, p.e. o principal componente da aspirina é o ácido salicílico que se encontra naturalmente nos salgueiros e choupos;

                  - alimento para animais, p.e. freixos e ulmeiros eram muito utilizados para alimentar o gado no Verão, em épocas de escassez;

                  - recursos ornamentais, p.e. apesar de a maioria das espécies requerem humidade no solo, a tamargueira, p.e., suporta bem a secura e pode ser usada para ornamentar os separadores das auto-estradas;

                  - materiais de construção, p.e. obras hidráulicas com técnicas de engenharia natural, usa-se muito os entrelaçados de vimes e estacaria de salgueiros;

                  - mais no passado (que actualmente): fornecimento de madeira (para ferramentas, socas, vimes), de lenha (ainda que não seja de grande qualidade comparada com os carvalhais, sobreirais e azinhais envolventes), tutores na agricultura (varas de salgueiro que hoje são substituídas pela cana), etc.

Funções de Informação: (promovem oportunidades para)

                  - apreciação da beleza cénica – p.e. quantos quadros retratam cursos de água?;

                  - obtenção de informações científicas e culturais, p.e. podem ser bioindicadores importantes para o ordenamento e gestão do território – denunciam a dinâmica do curso de água e podem permitir uma melhor delimitação do leito de cheia;"

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