segunda-feira, 30 de maio de 2011

Desencontros no CISED: Natureza quanto não custa?

Apesar de estar bem longe de Portugal, continuo, como sempre, atento às mais variadas questões associadas à região de Sicó, daí continuar a analisar alguns factos mais pertinentes que por ali se passam.
A questão que vou destacar agora, prende-se com uma iniciativa que já "mostrei" que tinha potencial, fazendo a respectiva referência num dos episódios d "Os gralhos". Falo sobre o aproveitamento do CISED, e, mais especificamente sobre os "Encontros no CISED",  encontros que deveriam ser pedagógicos.
A razão de ter utilizado a expressão "deviam ser pedagógicos", deve-se ao facto de ter notado que no último destes encontros (http://www.cm-penela.pt/noticias.php?idnoticia=996) alguns dos temas além de não terem sido pedagógicos, foram contraproducentes na forma como foram abordados.
O encontro teve como título "Natureza quanto custa?", algo que me preocupou, especialmente porque  tal como é dito num livro que já aqui referenciei, sobre economia ecológica (Daly e Farley, 2009), "a maioria dos economistas sabe o preço de tudo mas não sabe o valor de nada", genericamente falando. Não tenho nada contra os economistas enquanto pessoas, mas confesso que desgosto da maioria destes,  já que estes só pensam quase que apenas numa lógica, fria, de números, são poucos os economistas que, como Herman Daly e Joshua Farley têm uma ideia real do mundo em que vivemos e daquilo que é realmente necessário para o tornar melhor.
Uma das coisas que actualmente mais me preocupa é a mercantilização da Natureza, algo que mesmo podendo ter boas intenções, e quiçá sucesso, nas mãos de algumas pessoas, não o tem na mão de economistas (genericamente falando) e especialmemte políticos. O "verde" tornou-se num autêntico negócio, do qual o poder económico se apropriou, desvirtuando esta "onda verde" e pervertendo os seus objectivos, que seriam fundamentalmente associados à sustentabilidade. 
Basta ver o negócio das eólicas, o qual foi apropriado pelo poder económico, na ânsia de lucro fácil. O que interessa nas eólicas não é a energia alternativa, é sim o lucro alternativo, nem que para isso os portugueses sejam roubados na sua tarifa da electricidade todos os meses. Vende-se  a banha da cobra e depois os portugueses nem imaginam que são enganados, chegando-se ao cúmulo de se ter de pagar 200 milhões de euros à central de energia do Carregado por estar parada (devido às eólicas...), com o alto patrocínio do contribuinte português!
Pormenores à parte, vou agora ao que me interessa destacar sobre aquilo que foi falado neste encontro, isto na base do que está nos canais informativos próprios, caso do site da Câmara Municipal de Penela. Vou falar apenas de factos descritos nesta nota informativa, os quais mostram que muito vai mal no mundo científico e não científico.
Começo então com o equívoco da investigadora Cristina Rodrigues, quando esta aborda a questão das alterações climáticas, nomeadamente sobre o facto de se ter de travar as alterações climáticas. É errado que se deva sequer dizer que se deve travar as alterações climáticas, pois estas são um fenómeno natural e não antrópico, é um erro básico que muitos investigadores teimam repetir vez após vez, mesmo algumas associações ambientalistas costumam falhar nesta questão. A acção antrópica tem sim alguma influência no clima (diminuta no seu todo, mas suficiente para perturbar de alguma forma o sistema climático), facto inegável, agora confundir estes dois factos diferenciados é que já é um erro inaceitável, do meu ponto de vista, e que leva a um afastamento do cidadão nesta questão tão importante. Uma coisa são as alterações climáticas, outra é a influência que a acção antrópica tem na dinâmica atmosférica, é simples e não há que enganar.
As alterações climáticas têm concerteza uma influência crucial no modo de vida das civilizações, isso é o ponto fulcral, já que nos deveremos centrar no facto de não nos estarmos a preparar devidamente para as "alterações" que aí vêm e que já estão a afectar o nosso modo de vida, é aí que devemos centrar os esforços, o caso do solo é um bom exemplo dado por esta investigadora, havendo muitos outros casos, caso da biodiversidade, agricultura (antecipar as sementeiras, etc), poupança e eficiência energética, deixar o pópó em casa, etc, etc.
As alterações climáticas não são um problema em si, o problema é a perturbação antrópica, daí o equívoco, o qual tem reflexos negativos a nível pedagógico.
As políticas e estratégias de desenvolvimento rural devem ter na sua base as pessoas e não os interesses predatórios que guiam este nosso mundo, enquanto isso não acontecer de pouco vale falar em teorias (algumas boas, outras nem por isso) que genericamente nunca irão passar de utopias, pois o desenvolvimento do interior infelizmente depende de uma teia de parasitas que aproveitam a política nacional para moldarem o rumo do país à sua rede de interesses pessoais.
No caso do Professor da Universidade de Coimbra, Márcio Nobre, considero que o que este referiu relativamente à produção de biocombustíveis é incorrecto e representa uma ideia perigosa que infelizmente tem dado muitos problemas a nível mundial. Estes problemas centram-se fundamentalmente sobre o facto de ser mais interessante do ponto de vista económico produzir produtos agrícolas para servirem como biocombustível, já que a produção de alimentos não é tão importante para alguns "senhores do mundo" (interesses económicos). É mais importante ter combustível para os pópós de gente que não prescinde do automóvel do que alimentar a fome de muitos cidadãos de segunda, como infelizmente muitos portugueses e não portugueses são considerados (depois ainda entram os OGM na conversa, com a desculpa que é para matar a fome no mundo, tal como foi dito durante a fracassada revolução verde, há décadas atrás..).
Para poderem ver a problemática desta questão, deixo alguns links:

http://www.youtube.com/watch?v=t_Fw6y4T3Po



Mesmo podendo este docente não se referir explicitamente a produção de biocombustíveis no sentido que referi atrás, já que se refere aos resíduos, esta está implícita no seu discurso, algo que me preocupa enquanto cidadão e enquanto geógrafo. O seu estudo sobre a legislação parece-me muito interessante, no entanto nesta questão dos biocombustíveis entra uma questão ética que é muito complexa de gerir, quanto a mim impossível tendo em conta os reais interesses dos "senhores do mundo"...
A solução que este docente defende não é credível, sob vários pontos de vista, pois a biomassa (florestal por exemplo), essa deve ser aproveitada, entre outros, para a produção de energia eléctrica e não para combustíveis (as centrais de biomassa ainda não entraram em força porque os "senhores donos" consideram que têm de ser subsidiados ainda mais, com acontece com as eólicas, daí os projectos estarem em stand-by e só arrancarem quando os contribuintes forem delicadamente roubados mais uma vez pela classe política).
O desaproveitamento dos terrenos agrícolas tem uma história muito complexa, a qual "começa" basicamente com o êxodo rural, na década de 60 (Sec. XX) e "acaba" com as péssimas políticas que vêm o interior quase como uma área para lazer dos citadinos, uma área para espetarem eólicas em áreas protegidas, uma área para fazer barragens para os citadinos beberem, um recreio para meninos ricos brincarem quando se fartam do seu trabalho entre quatro paredes e pouco mais.  Daqui a algum tempo irei falar concretamente sobre as "interioridades", de forma a dar seguimento a este raciocínio.
Os terrenos agrícolas devem sim ser aproveitados para produzir alimentos e reduzir a importação de produtos alimentares, para isso há promover o regresso aos campos através de ideias inovadoras, fazendo aqueles que estão fartos das cidades apaixonarem-se pelo interior, o que não é assim tão difícil, muito pelo contrário. Vejam um exemplo conhecido: http://www.novospovoadores.pt/
Choca-me que esta visão tecnocrata sobre o mundo rural, que falo no penúltimo parágrafo, esteja a ganhar cada vez mais força, além de o interior ser desprezado, quase todo o seu património é igualmente desprezado e colocado para segundo plano, pois o que interessa não é realmente o que deveria interessar. O mundo rural não tem de ser o recreio dos citadinos (genericamente falando), o mundo rural não tem de ser despojado de todo o seu valor a favor dos jeitos e manias de alguns citadinos, onde o que interessa é ter o depósito do carro cheio e o resto é conversa. 
Sou muito crítico de ideias que não interessam ao mundo rural, no qual muitos autarcas só vêm a sua ideia de desenvolvimento, ignorando e/ou desprezando outros caminhos, tudo isto devido a versões estereotipadas de desenvolvimento regional.
Do que li acerca do que foi falado neste encontro, em Penela, fiquei ainda mais preocupado com o futuro, onde as soluções que curiosamente já existem, não interessam aos poderes instalados a nível nacional, o povo esse é que sofre na pele. Gostava sim de ter ouvido outro discurso...
As coisas são feitas do topo para a base, em vez da base para o topo, o que garantiria a sustentabilidade, daí o crónico insucesso das políticas territoriais em Portugal. O resultado está à vista...
Sobre o Paulo Magalhães, comprei há vários meses o seu livro (tendo também um link no azinheiragate), pois é excelente, o problema é que os interesses instalados comprometem excelentes ideias como as que estão expressas no seu livro.
A Natureza não tem preço, por mais que tentem tornar a Natureza vendável. Nós fazemos parte integrante da Natureza e ao tornarmos vendável a Natureza estamos basicamente a vendermo-nos nós próprios, o que obviamente não vai dar bom resultado...
Espero que num dos próximos encontros no CISED as coisas corram melhor. O CISED tem um bom potencial para este tipo de encontros, a Câmara Municipal de Penela já teve a inteligência de começar a aproveitar este mesmo potencial, no entanto neste encontro, a que faço referência, houve algumas falhas que deverão ser colmatadas, daí a minha crítica, construtiva, a alguns dos factos ali discutidos.
Espero, com este comentário, ter "espicaçado" as mentalidades de muitos de vós, promovendo assim uma reflexão profunda sobre questões tão importantes para quem vive no melhor sítio para se viver, fora das cidades!

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