sábado, 5 de março de 2016

Sicóleaks: o esgoto dos segredos...

A suspeita existia desde Agosto de 2012, mas agora a suspeita tornou-se uma certeza. Quando era ainda uma suspeita, prometi que iria acompanhar a situação, o que em termos genéricos significa que mais tarde ou mais cedo iria descobrir a verdade. Quis o destino que, ao estar a ver os arquivos de um grupo de ex alunos de Coimbra, os quais, no decorrer de um trabalho académico, fizeram um levantamento fotográfico em 2012, me deparasse com algo tão comprometedor. Isto mesmo que os alunos não se tenham apercebido do que "inadvertidamente" guardaram para a posterioridade através de registos fotográficos. Ao passar por aquele local, e se calhar induzidos pela minha máxima (fotografa, pois mais tarde pode servir para algo...), acabaram por ali parar para ver que estranha obra era aquela. Abençoados!
Confesso que não esperava que algo tão chocante fosse possível em Ansião, algo que demonstra o quanto podre pode estar uma sociedade que deveria estar alicerçada em valores e na ética. Mas vamos lá falar de um tabú...
Onde? Alvorge, mais precisamente a escassas dezenas de metros do Lar do Alvorge. É um tema que muitas pessoas têm medo de falar abertamente. Toda a gente fala entre si, mas publicamente ninguém tem coragem de o fazer. Compreendo perfeitamente porquê, já que é um caso de excepcional gravidade, que, na minha opinião, compromete muito boa gente, influente em termos políticos...(e quando assim é, há sempre o normal receio de represálias, como eu tão bem sei...). Compromete entidades públicas e de interesse público, bem como a imprensa de regime (político), que, na minha humilde opinião, deu cobertura aos responsáveis por esta situação, ao não investigar o assunto em termos jornalísticos. A imprensa não pode ser parcial...
Mas, tal como devem saber, eu não tenho problemas em denunciar casos gravíssimos, aliás sou temido pela minha frontalidade e, diga-se, tenho um gosto especial por casos complicados.


Num país civilizado este caso deveria resultar em demissões, mas em Portugal, e na região de Sicó, resultará apenas numa mais que provável vitimização e desculpabilização por parte dos intervenientes. Com um bocadinho de sorte ainda vou voltar a ler num qualquer jornal que há fundamentalismos que impedem o desenvolvimento... E, claro, vou ser (novamente...) um "alvo a abater", mas afinal já o sou há muito tempo.
Mas comecemos pelo início, passe o pleonasmo. No início de 2012 houve, alegadamente, uma entidade pública que fez uma obra de “saneamento”, a qual consistiu basicamente em drenar as fossas localizadas bem perto do Lar do Alvorge. O intuito não posso dizer, pois não sou bruxo, mas posso dizer o que indicia perante os factos. O tal “saneamento” não foi para ligar à rede de saneamento pública, aliás, segundo o actual PDM de Ansião não está ali prevista nenhuma infra-estrutura de esgotos, apenas uma ETAR no local circunscrito à zona das fossas. Ou seja, estamos perante um esgoto não oficial e ilegal, o qual, em vez de encaminhar os esgotos para uma ETAR, encaminha os esgotos para um sumidouro. Ora, isto é gravíssimo a todos os níveis. Gostava de saber qual vai ser a desculpa por parte das entidades envolvidas. Se estas tubagens não serviram para ligar à rede de saneamento, porque foram as mesmas feitas, e logo na direcção oposta do núcleo urbano, onde não existe sequer possibilidade de ligar à rede de saneamento?! 
Na edição do Jornal Serras de Ansião (Edição de 15/06/2012), a Provedora da Misericórdia e figura histórica do PSD local, Srª Maria Luísa Ferreira, afirmava que era falso que os esgotos se infiltrassem num algar ali próximo. Tinha razão, pois não é um algar, mas sim um sumidouro. Toda a trampa vai directamente para o sumidouro, via linha de água e infiltração pura e dura, seguindo depois para o(s) aquífero(s) Penela-Tomar e, possivelmente, Sicó-Alvaiázere. Das duas uma, ou a Provedora da Misericórdia faltou à verdade, ou então desconhece completamente como foi feita a obra. Espero que a Srª Maria Luísa Ferreira me possa esclarecer. E já agora, espero que também me possa esclarecer como é que não há problemas de poluição associada à "rede de esgotos". Não sendo especialista na temática ambiental, não tem competências técnicas que possam sustentar minimamente tal posição...
Lembra-se de quando o Sr. Jaime Laim disse que a situação dos esgotos não estava resolvida e, quando confrontada, a Srª disse que estava? (acta CM 2012 – 5 de Maio, página 12...). Há alguma dúvida que, de facto, não está, nem nunca esteve resolvida? Aliás, e tal como a referida acta refere, a obra (esgoto) ficou a meio, muito embora o esgoto tenha desde então vazado a trampa...
Há um pormenor simplesmente delicioso, ou seja, os tubos foram alvo de cortes parciais e planeados (cortes transversais), o que indicia que foram intervencionados para que os esgotos se fossem infiltrando durante o trajecto (bela manobra, hein?!). 


Falando em infiltração dos esgotos em meio cársico, deixo-vos com uma imagem bem pertinente...
http://dpipwe.tas.gov.au/Documents/MoleCreekCaves.pdf

Este trajecto termina em terra de ninguém, no início da depressão que limita o grande sumidouro do Alvorge. E não, no limite do “saneamento” não existe nenhuma ETAR, só mesmo terra e rocha. Não é preciso ser-se especialista para perceber que há aqui algo de muito errado, mas, em 2012, para a Srª Maria Luisa Ferreira, parecia que nada havia de errado...





Outra componente interessante tem a ver com a entidade pública que autorizou tal obra e que promoveu, na prática, a mesma. Eu ia jurar que conheço aquela máquina giratória de algum lado...
Importa também saber quem foi o técnico (Eng.º/ª?) que foi o responsável pela construção do “saneamento”, bem como o autarca que lhe deu a ordem e orçamento para tal obra. Um destes eu sei quem é, o/a outro/a não faço ideia, embora haja dois ou três candidatos. Fico à espera do contraditório, caro Rui Rocha, pois politicamente falando, é o responsável pelo facto. Fico também à espera de um pedido de desculpas público, não só aos residentes do Alvorge, bem como aos residentes da região de Sicó, pois na minha opinião justifica-se plenamente.




Mas continuemos, porque é que as fossas não têm sido regularmente esvaziadas e os resíduos respectivos encaminhados para a ETAR de Ansião? (tal como alguns particulares têm de fazer às suas custas) Porque andam os esgotos a vazar livremente e de forma impune? (como o sector terminal das tubagens já está completamente entupido com tanta trampa, já vaza à superfície pela segunda manilha, através da tampa – seguindo para a valeta, depois para o terreno, linha de água e sumidouro) Porque é que esta situação não foi ainda resolvida? Porque é que o caso não tem saído na imprensa local e regional? Ok, breve vai sair, mas desta vez não conta.
E não, não quero ouvir um mero pedido de desculpas, quero ouvir o mea culpa, pois nada pode desculpar o que se tem passado por aqueles lados. E a saúde pública, quem vai arcar com as responsabilidades? O que tem a dizer sobre isto Sr. Rui Rocha? Não, não quero ouvir que a situação já está sinalizada, pois já o disse há 4 anos, e não quero ouvir que isto é da competência das Águas do Mondego, já que também já o referiu há 4 anos. E não quero promessas, quero acção, em nome da seriedade e do interesse público, onde se inclui a saúde pública.
E, já agora, pretendo também um mea culpa da Srª Maria Luisa Ferreira. Errar é humano, negar o erro já não é bem assim...
Quem tem a coragem de partilhar este comentário?!

Deixo-vos com um pequeno vídeo que fiz há 2 semanas:





1 comentário:

Henrique disse...

Numa região cársica, e com os conhecimentos que existem actualmente acercas dos aquíferos, é sem sombra de dúvida um verdadeiro atentado ambiental.