segunda-feira, 10 de março de 2014

Conversas do vime


Já foi uma arte com muita expressão na região de Sicó, no entanto os mestres do vime têm, nas últimas décadas, desaparecido a uma velocidade vertiginosa. Isso não seria problema se estes tivessem deixado os tão necessários alunos da bela arte que é a cestaria, mas infelizmente ninguém tem conseguido preparar o futuro desta arte, a qual, diga-se, está em risco no médio prazo. O pessoal mais novo não é propriamente receptivo a tradições como esta e, diga-se, os mais velhos não conseguiram fazer passar a mensagem da melhor forma. Culpados? Todos nós, uns mais, outros menos. A sociedade no seu todo, pois prefere recipientes de plástico, que duram 1 ou 2 anos, na vez de objectos da cestaria, que além de serem feitos com material ecológico, duram uma vida toda.
Nas muitas festas da região ainda é comum ver os artesãos a expor o que tão bem fazem, no entanto a sua idade já é avançada (maioria) e não fosse a sua, boa, teimosia, já seria coisa rara de se ver. 
Há coisa de 8 anos propus um projecto a um destes mestres da cestaria, aqui da região, curiosamente um casal de artesãos, conjuntamente com uma escola, para um concurso das regiões polares. Basicamente construiu-se um iglu, com estrutura de vime, e cobriu-se com chícharo, em cima de uma base de papel de jornal. Este iglu foi a Lisboa, onde esteve exposto. Não ganhou prémio, no entanto mostrou originalidade, feita com vime e um produto da região de Sicó, a qual esteve assim dignamente representada num concurso nacional. Não sei se, passados 8 anos, o iglu em causa já terá sido "derretido".
Voltando aos tempos actuais, há poucos dia fui dar mais um mergulho pelo território Sicó, de forma a fotografar certos aspectos, sendo alguns destes para alimentar o azinheiragate em termos patrimoniais. As fotos que acompanham o comentário, datam de 23 de Fevereiro.
Vê-se ainda muito vimeiro nas margens das nossas ribeiras, onde muitos ainda têm um intuito utilitário, mas apenas através das gerações mais velhas e mais ligadas à terra. Esta utilidade rege-se na maior parte das vezes derivado da sua aplicação nas vinhas, ou então em algumas outras tarefas ligadas à actividade do dia-a-dia de quem ainda trata dos seus terrenos.
Infelizmente não tem havido a sabedoria para possibilitar que, a médio e longo prazo, o conhecimento sobre as várias utilidades do vime seja levado às gerações mais novas, estas cada vez mais distantes do mundo rural, o qual, nas últimas décadas, tem estado em incessante transformação. Urge contrariar isto, a bem da nossa cultura. As campanhas de divulgação que felizmente ainda se fazem em prol da cestaria, apesar de claramente positivas, pecam por escassas e não serem consequentes, o que é dramático em termos de continuidade desta arte. Mas, como inicialmente disse, a culpa é da mesma sociedade que, apesar de dizer que gosta desta arte, votou a cestaria a um quase esquecimento, facto a não esquecer e para mais tarde recordar.
Apesar de poucos serem os que fazem questão em comprar cestaria, uma coisa é certa, muitos a admiram! Mas não é apenas com a admiração que a cestaria tem futuro, há que adquirir produtos, utilitários ou não, desta bela arte, sendo assim consequente com a referida admiração. Eu já o faço há alguns anos, não falo por conveniência, e vocês?!


1 comentário:

Ana Dias disse...

Olá João ando á procura de um pézinho de vine para poder vir a utilizar para cestaria, não me vou tornar artesã mas já comecei a fazer workshops para poder vir a produzir cestaria para uso próprio, porque acredito que somos nós que temos de dar a volta e valorizar quem sabe fazer em vez de alimentar o consumo que só traz dependência e malefícios para a sustentabilidade do planeta. Será que me podes dizer exactamente um local onde eu possa tirar umas estacas para replantar?! O meu email é ana.dias.pico@gmail.com obrigada