terça-feira, 22 de maio de 2012

O tabú de Sicó: viagem ao centro da Serra



Tabú é sem dúvida alguma a melhor palavra para descrever como é afinal o abordar da questão das pedreiras de Sicó, especialmente pelos lados de Pombal, mas não só...
Viagem ao centro de Sicó é a melhor frase que descreve a recente visita que fiz a algumas das pedreiras de Sicó. Estas duas imagens referem-se a apenas uma delas, aquela que muitos de nós vêm quando andamos pelas proximidades de Pombal. São duas as perspectivas que mostram o monstro que ali está instalado, qualquer uma delas é uma perspectiva assustadora, dada a sua dimensão. Escusado será dizer que poucos são os que falam desta e de outras pedreiras, uns por receio, outros por lhes ser um tema tão incómodo, tal como o é por exemplo para Narciso Mota. Na região de Sicó não há nenhum concelho que não tenha este gravíssimo problema.
São muitos os que já observaram esta pedreira ao longe, mas poucos os que o fizeram tal como eu. A maioria prefere olhar para o lado e fingir que isto não é um problema. Eu prefiro abordar a questão de frente e de uma forma pedagógica. Curiosamente ainda há poucos dias utilizei estas mesmas imagens numa palestra que dei numa escola longe de Sicó.
Obviamente que as pedreiras são necessárias, mas a questão fundamental é que não são necessárias tantas, nem mesmo será desejável tal dispersão das mesmas, ordenamento exige-se, no entanto não existe para as pedreiras, finge-se que existe... 
Reciclagem de resíduos de obras é uma das muitas formas de evitar que estes monstros cresçam, mas infelizmente Portugal está muito longe das metas que seriam desejáveis neste domínio. Penso que nem sequer devemos chegar aos 10%, enquanto que a Holanda chega aos 90% (actualmente não deve fugir muito destes valores). 
A extracção da pedra é um negócio que não tem em conta aquilo que deveria ter, a conjugação do interesse de todos, mas ao invés tem em conta apenas o interesse de lóbis poderosos que não querem saber se as pedreiras estão em áreas tão valorosas como é o caso de Sicó. As autarquias perdem mais do que ganham, acho curioso este negócio, onde um privado explora de forma predatória uma área tão rica do ponto de vista patrimonial (paisagem, geodiversidade, biodiversidade...) e de vez em quando lá oferece umas míseras carradas de brita às autarquias. Não pagam a exigível taxa e fazem o belo do negócio, enquanto isso o monstro cresce e leva consigo o que de melhor a região tem. É a verdade pura e dura, goste-se ou não!
Noutros países, como o Reino Unido, paga-se uma taxa por cada tonelada extraída (penso que 1,5 euros +-), que reverte depois para a recuperação da área e para mitigar, na medida do possível, impactos perante as populações que sofrem diariamente com a extracção da pedra. Quanto a mim, deveria fazer-se o mesmo em Portugal, facto que já sugeri e que agora reforço. Em jeito de proposta, dois terços da taxa deveriam ir para um fundo que visasse a recuperação posterior do local da extracção, e um terço para um outro fundo, independente, que visasse o apoio às populações. O Estado geria o primeiro fundo e as comissões de moradores o segundo fundo. É uma possibilidade que deverá concerteza assustar os donos das pedreiras, mas que as populações deverão começar a exigir. Espero que este meu comentário sirva também para motivar os cidadãos a se mexerem neste domínio.
Este meu comentário foi mais na linha de "se maomé não vai à montanha, a montanha vai a maomé", portanto espero sinceramente que seja mais um contributo para a discussão em torno de algo que nos diz respeito a todos. Por mais que alguns digam que este não é um assunto que lhes diga respeito, estes apenas estão a negar o inegável, já que todos somos culpados da existência destes monstros, directa ou indirectamente, já que o nosso estilo de vida faz com que seja necessário extrair pedra.
Espero também que certas juventudes partidárias em vez de andarem a fazer marketing barato com notícias de tipo "muito rastilho e pouca pólvora", quase que apenas para se autopromoverem, (e depois de vangloriam disso...) se debrucem sobre esta questão, já que a este ritmo daqui a uns anos não teremos Sicó alguma para podermos ter um parque natural ou mesmo geoparque Sicó...



1 comentário:

Moradores Boleiros disse...


O seu blog foi uma lufada de ar fresco no tema de pedreiras em Portugal que é lamentávelment muito pouco discutido...

Visite a nossa página no facebook: NÃO às Pedreiras dentro da aldeia de Boleiros (Fátima)

Um crime público - A instalação de pedreiras no meio de povoações estão a destruír aldeias, a vida dos seus moradores, e o meio ambiente...
A qualidade de vida em Boleiros (Freguesia de Fátima) é insuportável para os seus habitantes.
Após a mudança de PDM de uma area que era classificada como reserva natural - dentro da nossa aldeia, instalaram-se quatro pedreiras - a escassos metros das nossas casas, uma escola primária e um centro de dia para idosos (apenas uma pedreira tem licença, as outras estão a laborar ilegalmente com licença de pesquisa) espanta-nos o silêncio e a inércia das autoridades.

A Junta de Freguesia supostamente não tem competência para dar parecers favoravéis à legalização das pedreiras mas parece que tem competência para receber "compensações" delas...

(Testemunhem um pedaço do que está a decorrer pelos videos e fotografias na página)

Pela saúde do Povo divulguem...