15.1.23

Qual território vazio?


Antes de mais um reparo, o de que este comentário estava esquecido há largos meses, algo raramente me acontece, mas faz parte. Reparo feito, vamos ao que interessa. 

Esta afirmação foi feita em 2021 pelo novo autarca de Panela, Eduardo Santos, numa entrevista ao DN (da qual retirei a "imagem" acima). É uma afirmação que me marcou enquanto sicoense e enquanto geógrafo apaixonado pela região de Sicó, já que, para mim, é um péssimo cartão de visita de um autarca. Não sei se o mesmo compreendeu o erro que foi fazer tal comentário, mas aqui estamos para debater o mesmo. Compreendo que quando se é recente no cargo, possamos ter afirmações menos felizes, contudo afirmações como esta, e no meu entender, não podem acontecer.

Em geografia uma das coisas que estudamos por exemplo em geografia humana são os graves problemas associados às cidades dormitório. Curiosamente eu já vivi numa, no tempo em que estudava em Lisboa, sabendo na teoria e na prática os problemas associados a cidades dormitórios. Por isso mesmo é que fiquei negativamente surpreendido com uma afirmação deste tipo de um autarca. No seguimento disto referiu ainda que "...queremos tornar Penela num território aperitivo para aqueles que querem sair dos centros das cidades. Queremos tornar Penela atractiva para os novos povoados. Tanto para aqueles que vêm procurar soluções de tele-trabalho...". Este é o típico discurso chapa 5, que, para piorar, mostra algo que preocupa ainda mais. E então os que lá estão e aqueles que mal acabem os cursos não tenham oportunidades em Panela? Pois é, falta o básico e sobram os discursos formatados.

Uma cidade dormitório representa problemas, como por exemplo das deslocações pendulares e construção de infra-estruturas pesadas. Isso traria logo à partida um trânsito caótico. É mesmo isso que Penela quer? Não me parece. Outro problema é identitário. O que leva uma pessoa que simplesmente dorme num local, e pouco mais, a criar laços identitários nesse mesmo local? Nada. O que, de facto, leva à criação da identidade é mesmo o estar ali e criar raízes, hábitos e afins. Nas cidades dormitório isso não acontece. Falo por experiência própria.

Eu detesto dormitórios. Território vazio?! Mas Penela está a abarrotar de património (quer no carro quer nos xistos) e ainda tem gente e associativismo que permitem fazer o que não foi feito. Não há territórios vazios, há sim é visões redutoras do território e visões formatadas q.b. relativamente a modelos de desenvolvimento. Um território dito vazio possibilita o melhor de dois mundos, planear o território e garantir que o desenvolvimento que se pretende para o mesmo possa ser harmonioso com qualidade de vida para quem lá vive. Ter um dormitório nunca rimou com qualidade de vida... Aliás, ter um dormitório significa décadas para corrigir problemas...

Continua-se a ver um território como que apenas uma plataforma para construir casas e zonas industriais. Continua-se a não ver o território como um manancial de potencialidades e recursos não explorados, um território onde o mais importante é dar condições a quem lá está em vez de andar a fazer dormitórios.

A região de Sicó, onde Penela se insere em parte (carso), é um território extraordinário. Não precisamos de andar a vender o território ao desbarato, e com isso degradar o mesmo, para que o pessoal da cidade venha para cá, mas sim potenciar o território e apoiar quem cá está, inclusivamente os jovens que em poucos anos vão embora trabalhar para outras paragens (parte deles podem ser atraídos com incentivos e uma estratégia eficaz!). E isso, por si mesmo, irá atrair quem não está cá mas que gosta desta região e do seu património e paisagem cultural. 

Crescimento não é sinónimo de desenvolvimento. Trabalhemos sim o desenvolvimento territorial harmonioso e tendo em conta as especificidades regionais, que além de se promover o natural crescimento, sustentado e sustentável, cria-se qualidade de vida. Eu não quero cidades dormitório em Sicó, nem resmas de pessoas no vai e vem, eu quero aldeias com vida, vilas com vida e cidades saudáveis. Não me interessa ter por exemplo 500000 pessoas a viver em Sicó, prefiro ter 100000 a viver com qualidade de vida, coisa que se perde completamente nas cidades dormitório.

Um dos problemas subjacentes a esta ideologia de cidades dormitório e não só é que as autarquias vivem muito do IMI. Quanto mais autorizarem construir, mais ganham. E não é assim que se evolui e promove territórios sustentados e sustentáveis. 

A bem de Sicó e de Penela, pensemos nisto...

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