5.2.14

A falta que faz o conhecimento geográfico: a perspectiva tórrida


De forma implícita costumo falar da falta que faz o conhecimento geográfico, por parte de toda uma sociedade. Neste comentário venho abordar esta questão de uma forma explícita e centrado numa temática que, genericamente falando é um verdadeiro tabu.
Por esta altura, as memórias de muitos portugueses já "esqueceram" a morte de vários bombeiros nos incêndios de 2013, estando estas quase numa pré-preparação mental para mais 2 ou 3 mortes de soldados da paz em 2014, isto num ano dito normal. Parece que estas mortes já são encaradas como que se de uma fatalidade se tratasse, quando a esmagadora maioria delas era perfeitamente evitável. É lamentável que se considere normal o facto de todos os anos falecerem 1, 2 ou 3 bombeiros, em anos ditos normais em termos de acidentes na frente de fogo.
Falar de questões como aquela que vou abordar agora é muito complicado, já que mexe com emoções muito próprias. Já tive muitas discussões "feias" com colegas acerca disto e não prescindirei nunca do debate, gostem eles ou não. Outros há que concordam comigo, mas preferem não falar deste tema tabu.
A complicação acima referida tem a ver com um facto, o de que não se sabe separar, por vezes, as coisas e entrar-se numa lógica de confrontação, em vez de debate sério e honesto, preferindo-se deixar o coração falar em assuntos que tem de ser o cérebro a comandar.
Indo então directo ao assunto, venho falar do problema que é, genericamente falando, a falta de conhecimento geográfico por parte dos bombeiros voluntários. Claro que, para marcar uma posição forte, refiro que tudo aquilo que os soldados da paz sofrem, deve-se ao que está a montante destes, ou seja, eles não têm a culpa do desordenamento do território, não têm culpa do estado lastimável da floresta, do interesse predatório do lóbi do eucalipto e muitas mais coisas importantes, mas pagam por tudo isto, muitas vezes com a vida. Assim sendo, estou desde já a delimitar/balizar o meu comentário, já que costumo ouvir muitos pseudo comentadores, os quais não são nem especialistas, nem bombeiros voluntários, não tendo portanto moral para falar desta questão. Eu não tenho essa limitação, pois estou nos dois lados. Claro que falo enquanto profissional da geografia e do ordenamento do território e não enquanto bombeiro voluntário. Há poucas semanas os ânimos estiveram exaltados, aquando da divulgação do relatório sobre os incêndios florestais de 2013 e das mortes respectivas. Boa parte da exaltação surgiu por parte de bombeiros voluntários, os quais se sentiram indignados, refutando as supostas responsabilidades directas nas mortes. Outros bombeiros voluntários, como eu, não se sentiram exaltados, pois reconheceram que boa parte das mortes seria evitada se o conhecimento geográfico fosse outro. Além disso, ninguém responsabilizou os bombeiros pelas suas mortes, houve quem fizesse confusão. Naturalmente que os bombeiros voluntários que faleceram não foram culpados da sua morte, foram "apenas" vítimas da falta de conhecimento sobre comportamento do fogo e respectiva leitura do terreno. Esta é a grande verdade. Se os bombeiros voluntários têm culpa disto? Muito pouca ou nenhuma, mas claramente que estes têm de ser apoiados com formação diferenciada, pois estes por si, e genericamente falando, não têm a capacidade de se capacitar neste domínio. Há algo de estranho num sistema que, por exemplo, torna especialistas bombeiros que em apenas 2 semanas tiram um curso de combate a incêndios (Lousã), mesmo tendo estes apenas o 9º ou 12º ano, muitas vezes feito no sistema de novas oportunidades. Naturalmente que há bombeiros voluntários com conhecimentos ao melhor nível que temos, mesmo que tenham apenas o 9º ano, no entanto eu não estou a falar desses, estou sim a falar dos que não têm esse conhecimento, algo que só poderá ser compreendido por alguns. Há algo de estranho num sistema que não torna especialista quem já o é e até tem muitos anos de bombeiro voluntário, tantos quantos aqueles que em 2 semanas se tornam especialistas credenciados. Isto independentemente da formação inerente à do bombeiro voluntário.
Teoricamente até existe uma forma de exigir o reconhecimento já existente, no entanto, e caso isso aconteça, muitos são jogados para as "prateleiras", de forma a não agitar as águas. O conhecimento adquirido fora da lógica do bombeiro voluntário é visto quase como que conhecimento non grato. A lógica é ilógica em alguns casos. Porque não se aproveita a massa crítica já existente nas fileiras de muitas corporações? A resposta é simples, mas isso levaria a conversas muito longas acerca da típica forma de ser do tuga.
Pela experiência que tenho, já vivi situações de risco de vida, as quais só existiram por um motivo simples, a falta de conhecimento geográfico, mesmo por parte de quadros de comando, mas não só. Lembro-me de uma situação, em particular, num concelho vizinho, onde tendo eu chamado à atenção de um quadro de comando sobre o facto de em poucos minutos ir acontecer o crónico efeito de chaminé e irmos ficar rodeados pelo fogo, este não quis saber, mesmo tendo eu transmitido as minhas valências profissionais. O resultado foi simples, rodeados pelo fogo durante 15 minutos...
Parte significativa do que aconteceu em 2013, e não só, no que concerne às mortes dos soldados da paz, deve-se a uma clara insuficiência na formação, a qual é básica demais e pouco incisiva. isto revela-se trágico em incêndios de grandes proporções, pois nos pequenos e de média dimensão essas insuficiências não vêm à tona. A solução não é, como alguns sabichões dizem, a de profissionalizar os bombeiros voluntários, é sim proporcionar-lhes o tempo e o espaço para a formação, bem como os necessários apoios para um voluntariado digno, pois as condições são cada vez mais escassas e isso está irá colocar em causa muita coisa. Nessa altura será tarde demais e aí todos compreenderão que os bombeiros voluntários são um pilar da sociedade portuguesa.
Para terminar, já pensaram em limpar aquele mato em redor das vossas causas ou vão lembrar-se apenas quando o fogo chegar à vossa porta? Os incêndios previnem-se no Inverno!

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