quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Reflexões da azinheira



Mais um ano de azinheiragate, mais um ano de aprendizagem e de partilha de conhecimento. O ano está quase a terminar e, assim sendo, chega-se novamente aquela fase em que importa reflectir sobre o que aconteceu durante os últimos 12 meses.
Estou satisfeito por mais este ano de azinheiragate, pois os objectivos que tracei há quase 5 anos atrás, continuam um caminho consistente e com uma tendência em crescendo. Aprendi mais coisas, partilhei mais património e, não menos importante, conheci mais pessoas que têm igual vontade de levar esta região a trilhar caminhos que tardam em ser factualmente seguidos.
Obviamente que tive falhas, as mesmas que enunciei no ano passado. Resumidamente, não tenho tido o tempo suficiente para me poder dedicar mais ao sector Norte da região de Sicó. Falei por algumas vezes, mas naturalmente que foram poucas. Isto deve-se a um facto muito simples, o de ainda estar a dedicar a quase totalidade do meu tempo a um projecto bastante exigente, que me restringe aquele tempinho que gostava de ter para dedicar mais tempo a Sicó. Mas daqui a uns tempos, terei novamente tempo para ir para o campo, onde me sinto bem.  Geógrafo a sério é mesmo assim, gosta de estar no meio do monte e não fechado no gabinete!
Pessoalmente, foi um ano excelente, já que o reconhecimento da minha luta em prol do património desta região chegou à televisão, através do programa Biosfera, que passa na RTP2. Foi algo que, para mim, teve um significado muito grande, como qualquer um de vós poderá imaginar. Esta conquista foi mais uma enorme pedra no sapato dos interesses corruptos que pensam que querem, podem e mandam...
Outra grande, e recente, conquista, foi o projecto dos Geobiscoitos de Sicó, o qual está a ter um reconhecimento que não esperava tão rápido.
Criatividade não falta por esta região, o que falta é mudar as mentalidades que muitas vezes impedem os jovens de levar em diante ideias inovadoras baseadas nas mais valias regionais. Há que dizer que, não fosse a acção castradora de políticos da treta e de outros tipos de gente reles, esta região já podia estar muitos anos à frente do que está. Os jovens, se apoiados, podem fazer muito pela sua terra! Felizmente que eu o consigo fazer, e logo sem apoio dos políticos, daí o meu sentimento de dever cumprido (embora não terminado!). O apoio que tenho tido é das pessoas simples e humildes que fazem desta região um lugar realmente especial.
Este ano voltou-se a falar de uma outra questão importante para a região de Sicó, ou seja a criação de um parque natural. Embora tenha sido mera conversa não consequente, foi bom ver alguma discussão sobre o tema. Pessoalmente não defendo um parque natural para Sicó, defendo sim um modelo de geoparque regional e que peguem a sério na Rede Natura 2000, pois ela desde que foi criada pouco mais foi do que uma quase área protegida. 
A discussão deste e outros temas é importante para todos nós. Espero que estas discussões surjam e que seja pela mão de gente que não esteja ligada à política, pois a política em Portugal faz muito mal ao país, como é fácil de constatar. Naturalmente que irão surgir debates em 2013, isso é certo, embora não vos possa dizer como e quando.
Facto de grande importância em 2012 em Sicó, foi o surgimento de uma Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA). O Grupo Protecção Sicó, embora já com um grande historial, assumirá concerteza, enquanto ONGA, um papel preponderante nas políticas regionais, a bem da região e do seu vasto património.
O associativismo continuou em força em toda a região, algo que mostra que este é um dos pilares sobre os quais deveremos construir o nosso futuro. Eu tenho apostado nisso mesmo nos últimos anos, já que também faço parte deste associativismo em três frentes.
Outro ponto importante, é o nascimento de projectos um pouco por toda a região, não sendo meu intuito especificar nenhum em particular. Falo daqueles que surgiram este ano e de outros que sei que estão a ser cozinhados no curto prazo.
Facto muito negativo é ver pessoal jovem a ir embora para outras paragens (emigrar). Embora compreenda alguns casos, outros há que não compreendo, já que estes últimos acontecem apenas por comodismo, ou seja não há vontade para arriscar. Eu pensei abrir uma empresa há 3 anos, não tendo conseguido (havia quem não queria que eu o fizesse e me tivesse dificultado a coisa...), daí saber que às vezes o melhor é mesmo sair para não chatear mais. Pessoalmente não pretendo emigrar, mas confesso que por vezes penso nisso. Penso a maior parte das vezes em ficar, em lutar contra esta corja que nos desgoverna. Penso (sei!) que ainda temos um país fantástico, penso (sei!) que ainda temos um povo fantástico e uma cultura que urge em preservar. É por isso que luto, nada mais.
O próximo ano vai ser bem duro, esperando eu que as pessoas deixem a passividade que lhes é característica, e que mandem um murro forte na mesa, para mostrar que quem manda somos nós e não palermas que se vestem de gravata e vão cuidar da sua vida para o... parlamento. Outros há que fazem o mesmo, mas nas autarquias, alguns nas autarquias de Sicó. Muitos não estão lá pelo território que não conseguem gerir, ou pelas pessoas, estão sim pelo seu interesse. Esta corja joga com a vossa passividade, lembrem-se disso!
No próximo ano vão haver eleições autárquicas, o que será concerteza interessante em termos de debate nos vários municípios. Vão haver novidades, umas porque tem mesmo de ser, outras porque poderão mesmo acontecer. 
Freguesias, aqui está um dos assuntos quentes para 2013. Muito do bairrismo que nos caracteriza, sairá às ruas, umas vezes no sentido positivo, noutras nem por isso. Espero para ver o que dali vai sair...
Outras coisas há a referir, mas o espaço é limitado e o cansaço não me deixa prolongar por muitas mais linhas este comentário. Contudo, e a seu tempo, irei falar de tudo isto e muito mais!


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

E porque não um documentário sobre a região de Sicó?!


A ideia surgiu-me logo depois de ver o brilhante documentário de Daniel Pinheiro, sobre o Mondego, no entanto apenas agora lanço a ideia publicamente. Penso que só voltei a pensar nisto depois de recentemente ter (re)visto um outro fantástico documentário, o "Pare, escute, olhe", o qual me fez recordar esta ideia que agora passo a apresentar.
Os destinatários deste meu comentário, onde pretendo lançar o desafio, são precisamente os estudantes que, no âmbito de um trabalho académico, pretendam efectuar um documentário televisivo sobre uma determinada região e sobre o seu património natural ou cultural. Não esqueço também aqueles que, mesmo não tendo ainda decidido, possam ter aqui um motivo para, futuramente, escolherem Sicó para um documentário.
Sicó tem tudo para que possa surgir um belo documentário que sirva o intuito da divulgação desta bela região, a qual, genericamente falando, abrange parte dos concelhos de Ansião, Alvaiázere, Pombal, Soure, Condeixa e Penela (embora tenha continuidade para Sul...). 
Pontos de interesse (extraordinários!) não faltam, pessoal que ajude também não. Da minha parte, e caso surja algum interessado, estarei disponível para ajudar, seja no trabalho de campo, seja através da partilha de conhecimento, ou mesmo através do estabelecimento de contactos que podem ser uma boa ajuda nesta árdua tarefa que é fazer um bom documentário sobre Sicó. Nunca se sabe se um eventual documentário não sirva também para o lançamento de mais um jovem nesta arte que é a dos documentários.
Sei que a possibilidade de acontecer um documentário sobre Sicó é muito reduzida, mas se eu não acreditasse que isso era possível, não estaria a perder tempo a escrever umas palavras. Eu acredito, portanto quem estiver de acordo, que passe a palavra sff e a faça chegar a quem se possa interessar. O desafio está lançado, resta-me agora esperar que 2013 me traga a boa nova...

Nota: para os mais curiosos, a imagem inicial deste comentário é mesmo de um operador de câmera italiano, aquando de uma visita minha a um local de interesse paleontológico (30000 pegadas de dinossaurio...), em Itália.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Cabras de Sicó


Esta fotografia tem uns meses, foi tirada bem perto de Condeixa. Rebanhos de cabras não são novidade para mim, no entanto não é todo o dia em que temos todo o tempo do mundo para tirar a bela da foto de grupo aquelas beldades que nos fornecem a bela da matéria prima com que se faz o belo do queijo.
Os rebanhos de cabras, ou ovelhas, populavam Sicó há umas décadas atrás, hoje em dia nem por isso. Vêm-se alguns, sabe-se de alguns projectos (para ou a nascer) ligados a este ramo, mas o potencial está aí por explorar. Desde que bem gerido, é possível, e desejável, termos muitos mais rebanhos a percorrer a região de Sicó em busca do belo pasto. Consegue-se gerir a coisa em termos de vegetação, o que é imprescindível numa área de Rede Natura 2000 (votada ao abandono...), e consegue-se também gerir a questão dos incêndios florestais em áreas esquecidas pelas gerações mais novas. Isso faz-se, por exemplo, na Serra de Aire e Candeeiros, onde ainda "recentemente" foi destacado na comunicação social um destes projectos.
Na década de 40 do século passado, eram, muitas vezes, as crianças a levar os rebanhos para a serra, mas entretanto veio o plano dos centenários, onde se construiram aquelas belas escolas primárias que agora estão ou ao abandono, ou em utilização associativa. Depois disso começou então a decadência e os rebanhos foram desaparecendo das serras. A paisagem hoje em dia seria algo diferente. Perderam-se coisas boas, mas também se ganharam "coisas" fundamentais, como o é a educação. 
Os tempos são outros, mas as oportunidades estão aí. Rebanhos precisam-se e pastores também!
Estar a escrever estas linhas deu-me apetite, pena é não ter aqui o belo do queijo fresco. E quando digo queijo fresco, não é queijo fresco feito com matéria-prima estranha a Sicó, é sim com leite de cá, pois é Sicó que lhe dá o particular sabor!

Mas não é só do queijo fresco que devo falar, é sim também daquele queijo, daquele verdadeiramente artesanal. Não me esqueço de há muitos anos comer deste queijo a sério, o qual era preservado em azeite (ainda há, mas já não é como dantes...). Uma migalha deste queijo sabia mais a queijo do que um daqueles queijos inteiros que muitas vezes vemos no supermercado. Há coisas que o dinheiro não compra, esta é uma delas, restando esperar que voltem as coisas boas que nos alegram a vista e o paladar!

domingo, 25 de novembro de 2012

Classificação de geossítios de âmbito municipal


É um tema tão óbvio, mas mesmo tão óbvio, para mim que até o fui deixando passar, até agora... Utilizo duas imagens, uma de um local "muito" conhecido, e a outra de um "desconhecido". Pretendo acima de tudo mostrar que esta questão pode ser vista a escalas muito diferenciadas, daí as pertinentes fotografias.
O primeiro lugar, posso dizer, é o "conhecido" vale das buracas, ou buracas do Casmilo, em Condeixa. Penso que posso afirmar que é mais conhecido por pessoas de fora de Sicó do que pelas pessoas que vivem na região de Sicó, genericamente falando.
Já o segundo lugar, esse não posso dizer mais nada além de que se situa em Alvaiázere, já que além de ser num terreno privado, não tenho a respectiva autorização para divulgar a sua localização. Mesmo que tivesse autorização, dificilmente iria divulgar, já que podia colocar em perigo a integridade do local. Em certos casos é mesmo preferível manter as coisas no segredo dos deuses...
Esta breve introdução serviu para contextualizar o tema que agora pretendo abordar, ou seja a classificação de geossítios de âmbito municipal. Não vou agora abordar a classificação a nível regional, embora pudesse, já que irei tratar separadamente as questões, esta última daqui a mais umas semanas.
Começo pela classificação de geossítios de âmbito municipal, por um motivo muito simples, o de que é a forma de mais rapidamente se iniciar este processo, o qual ainda não teve o seu início em nenhum dos municípios da região de Sicó. Isto mesmo apesar de ser um processo simples em termos de burocracias. Aqui não há pareceres de outras entidades públicas que não as respectivas autarquias, o que facilita de sobremaneira o processo. A Lei, para que se saiba, é a nº107/2001, de 8 de Setembro.
Mas para que precisa Sicó de classificar os seus geossítios, perguntam alguns? Simples, para muita coisa, começando pela sua protecção com vista à valorização.
Geoturismo, já ouviram falar? Tendo os imensos geossítios classificados, pode dar-se então início a uma estratégia que visa, no final, o desenvolvimento territorial.
Há anos atrás, quando lidava com a questão dos locais de interesse geomorfológico, ainda tentei classificar um geossítio, o qual está, parcialmente, à vista de todos, na última foto. Esta e outras pegadas foram avaliadas por uma especialista (paleontóloga), a qual chegou a elaborar um relatório que seria a base para a classificação destas pegadas de dinossaurio a nível municipal. Infelizmente o processo foi metido na gaveta. Porquê? Perguntem a Paulo Tito Morgado, ele lá saberá...
Ainda pensei propor um outro, a fórnia da Ucha, em Ansião, no entanto, mais tarde, foi ali aberta uma aberração de estrada, pseudoflorestal, a qual estragou quaisquer hipótese de classificação desta fórnia.
Quanto à primeira fotografia, a das buracas do Casmilo, essa já representa um geossítio de âmbito regional, para o qual a classificação já será mais burocrática, embora obviamente necessária. Burocrático ou não, é algo que eu considero imperativo, pois temos estas e muitas outras riquezas, e nada é feito para criar uma base a partir da qual se forme uma matriz que sirva, por exemplo, para o geoturismo.
Há que referenciar que alguns destes geossítios estão já estudados, através de algumas universidades, portanto há já todo o trabalho científico feito, faltando agora o trabalho político, restando-nos agora exigir aos políticos que façam o seu trabalho e classifiquem todas estas belezas de Sicó, pois além de tudo o mais elas representam uma mais valia territorial, e, naturalmente, financeira, tudo isto sem que seja necessário destruir ou degradar o que temos. 
Sicó não precisa de elefantes brancos, precisa sim que o seu património geológico, geomorfológico, paleontológico, etc, seja devidamente reconhecido e valorizado. 
Um dos projectos que poderia dar força a esta questão, seria o Centro de Interpretação e Museu da Serra de Sicó, a situar bem pertinho do extraordinário vale dos Poios. No entanto, e para variar, é mais um projecto parado e à espera de melhores dias...