quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Sicó: uma região a uma só velocidade


O título deste comentário pode parecer um bocado estranho, mas pensando bem o mesmo poderá ser o título adequado para o que pretendo falar. 
Choca-me que nos dias de hoje ainda se utilize a palavra rural como sinónimo de pouco desenvolvido, daí ter decidido aclarar um bocado esta questão. 
Acho curioso que certas pessoas tão amigas da "urbe" e tão críticas do "rural", quando se fartam da "urbe" utilizem o "rural" como escape a uma vida tão stressante e, por vezes, supérflua na "urbe".
Num dos últimos fins de semana, num dos muitos passeios por Sicó, onde vou em busca da verdadeira Sicó, deparei-me com uma daquelas coisas que já não se vê todos os dias. Não estava à espera, mas lá tive tempo para sacar da máquina fotográfica e registar o momento genuíno.
Esta fotografia que agora partilho com todos vós, serve exactamente para ilustrar o título do comentário.   Este comentário serve para mostrar que andar devagar não significa retrocesso, significa sim viver a vida e tudo aquilo que ela tem de melhor. Só andando devagar se vê muito daquilo que esta região tem de melhor. Só indo do ponto A para o ponto B calmamente é que se tem tempo de pensar naquilo que realmente é importante.
Muito do afastamento que muitos de nós têm vindo a ter sobre os seus territórios decorre precisamente da velocidade com que se movem. Ao andarmos regularmente demasiado depressa perdemos precisamente muito daquilo que faz com que a região de Sicó tenha uma identidade muito peculiar e valorosa. Ao andarmos demasiado depressa vamos perdendo muitas das nossas capacidades, entre elas a capacidade de discernimento sobre o objecto patrimonial. Quantos de nós, ao cruzarmo-nos com uma carroça, não apitam para esta sair da frente, em vez de abrandar a apreciar?
Fica a sugestão para que nos próximos tempos pensem bem sobre esta questão. Num qualquer destes dias, quando estiverem a ir do local A para o local B, parem a meio destes, já que concerteza terão algumas surpresas escondidas à vossa espera!

domingo, 19 de agosto de 2012

A elaborada vitimização patrimonial de Paulo Tito Morgado

Pessoalmente não tenho quaisquer dúvidas que será o seguimento de uma elaborada estratégia de "vitimização patrimonial" por parte do presidente da Câmara Municipal de Alvaiázere, Paulo Tito Morgado. Isto tendo como base uma espécie de notícia que consta na última edição do Jornal O Alvaiazerense, que tem como título "Presidente da Câmara rejeitou acusações de "destruição de património".
Digo que é uma espécie de notícia por motivo muito simples, o de que o Jornal O Alvaiazerense não refere, como aliás deveria ter feito, a referência a quem é que acusa Paulo Tito Morgado. Logo à partida, isto torna a coisa convenientemente parcial, já que Tito Morgado não revela os "acusadores.
É também curiosa a expressão que este autarca utiliza, quando refere que o acusam de destruir todo o património, já que sendo o crítico dos críticos, nunca ouvi ninguém referir que este destruia todo o património, nem mesmo eu o disse. Ouvi dizer sim que este destruiu/degradou até agora muito património. Claramente o autarca está-se a vitimizar, inflacionando a coisa de modo a ser visto como uma vítima e não como "predador do património". 
Honestamente até gostei de saber do seu desafio, ao literalmente desafiar os autores para que estes apontem qual foi o património que tivesse destruído. Passo a enunciar apenas alguns, mais emblemáticos, de uma extensa lista:

1- Serra de Ariques 
2 - Serra de Alvaiázere
3 - Boca da Mata 
4 - Avanteira-Pelmá
5 - Ribeira de Alge
6 - Olho do Tordo
7 - Antiga escola primária do Bofinho
8 - Rua da Seiceira
etc
etc

Isto acontece nos mais variados domínios, seja património natural, cultural, construído, entre outros.
De forma a dar ainda mais visibilidade à sua estratégia de vitimização, quando tenta desesperadamente dar um exemplo de boas práticas, dá, imagine-se, o exemplo das covas de bagaço do Zambujal. Diria eu que, não menosprezando obviamente o valor patrimonial das covas de bagaço, isto são migalhas tendo em conta o valor de objectos patrimoniais que, quando comparados com as covas de bagaço, eclipsam estas últimas. As migalhas comem-se no final do bolo...
Fala também da Mata do Carrascal, esse mau exemplo. Será que construir verdadeiras estradas numa mata municipal é valorizar esta? Basta ir ao local e ver.
Quanto às obras na rua da Seiceira, essas... Casas demolidas, onde pessoas felizes viviam, uma rua completamente desvirtuada da sua identidade, e mais de 2.000.000 de euros desbaratados nesta obra faraónica.
No que se refere ao tão sublinhado gosto e poder monetário para recuperar o património, aí há muito por onde falar. Desafio este autarca a apontar uma obra, feita pelo mesmo, em que seja reconhecido o gosto pela coisa. É sabido que a população não tem gostado nada do que tem sido feito, em termos de gosto, pois o que temos em Alvaiázere é apenas uma política do betão que de patrimonial nada tem. Quanto ao poder monetário, ninguém pode dizer que uma Câmara Municipal com milhões de dívidas tem poder monetário. Se assim fosse todos os portugueses tinham poder monetário, já que boa parte deles está endividado. Endividamente não significa nem nunca significará poder monetário. É algo de elementar que um economista teima em não compreender...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A polémica da "denúncia sem fundamento" no Alvorge


Esta é mais uma daquelas histórias que importa destacar, dada a sua especificidade. Falo, claro, da polémica associada ao novo sistema de drenagem dos esgotos que decorrem da normal actividade do Lar da Santa Casa da Misericórdia de Alvorge.
Esta era uma questão que, até há poucas semanas atrás, desconhecia. Isto porque, genericamente falando, já deixei de ler jornais de regime, os quais dão muitas vezes uma notável cobertura, parcial, a pessoas ligadas ao regime.
Assim sendo, e após me terem informado sobre esta questão, lá consegui ter algum tempo para ir ao terreno ver o que se passa. Já depois de me ter deslocado ao terreno, emprestaram-me um exemplar do Jornal Serras de Ansião (edição de 15/06/2012), onde pude ler uma notícia associada a esta polémica.
Confrontando aquilo que vi no terreno com aquilo que foi escrito sobre o mesmo, concluí que estamos perante algo que realmente vale a pena debater.
Fiquei bastante curioso sobre o facto da Provedora da Misericórdia, Maria Luisa Ferreira, referir que é falso que os esgotos se infiltrem num algar ali próximo, quando no mesmo texto refere que os tanques de decantação estão ligados a sorvedouros subterrâneos naturais... Isto parece-me, no mínimo incoerente, já que isto é basicamente dizer nim.
Importa referir que não sei quem fez a denúncia, nem sequer o conteúdo da mesma, estando desta forma a fazer um apontamento estritamente pessoal sobre esta questão, baseado no que vi e no que avaliei no terreno.
Prosseguindo, ao chegar ao local em análise, vi 4 poços fechados (tanques de decantação) e seguidamente vi o novo acrescento à rede de esgotos, a qual não vai ter a qualquer lado (porque será?!). Passando os poços, tem-se 3 ou 4 tampas de esgoto, as quais mostram o sentido da rede de esgotos (SW), a qual termina sem que se observe qualquer poço de decantação. Basicamente o problema foi empurrado para mais adiante, onde ninguém vê a coisa abertamente. Irei começar a monitorizar esta situação, já que mal os sinais de poluição, à superfície, apareçam, eu estarei por aqui para denunciar. No que se refere à poluição subterrânea, também irei tentar acompanhar, embora, por vezes, seja mais difícil de monitorizar.
Irei tentar saber, ao certo, como está instituída a nova rede de drenagem dos esgotos, já que não me parece normal esta situação. Será curioso perceber o que está por debaixo daquelas tampas de esgoto...
Passando agora à componente mais técnica, gostaria de saber quais são as competências técnico científicas da Provedora Misericórdia do Alvorge no domínio ambiental, já que taxativamente afirma que não há problemas de poluição associada à rede de esgotos. Uma coisa é acharmos algo, outra coisa é sabermos minimamente algo...
Os factos são simples, goste-se ou não, a poluição associada a esta rede de drenagem de esgotos é um facto, resta saber o grau de severidade da mesma. Esta rede de esgotos está a drenar para um belo sumidouro, a Sul. De forma muito resumida, a rede de esgotos está a drenar para este sumidouro, o que significa que a poluição está a ser disseminada por uma área ainda por determinar. Daí decorre o facto de ser importante começar a monitorizar esta situação em particular, de forma a se compreender se o grau de gravidade da poluição associada.
Acho curioso o facto da Provedora da Misericórdia se manifestar preocupada com a poluição na área envolvente aos poços de decantação, mas já não manifestar a mesma preocupação pelo problema ter sido empurrado mais umas dezenas de metros para a frente. O perigo de salubridade é exactamente o mesmo, pois tudo drena para o mesmo local, ou seja aquele sumidouro que destaquei na imagem do googlearth.
Finalizando com uma palavra utilizada pela Provedora da Misericórdia, o ressabiamento não pode existir nesta questão em especial, já que trata-se apenas e só de preocupação com um problema real e indesmentível, o qual nos afecta a todos. Só não vê quem não quer...

domingo, 5 de agosto de 2012

O espelho do património...


Poderia eu escrever linhas e linhas sobre esta imagem, mas desta vez digo apenas que há imagens que valem mais do que mil palavras...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ansião: esta "não é" a minha Vila...


É um título forte, admito, mas afinal a intenção é precisamente mexer fortemente com as opiniões de cada um, seja ansianense ou não. Diria eu que é inevitável que, de agora em diante, certas pessoas possam descontextualizar o título que dei a este comentário, de forma a o utilizarem a meu desfavor. Por isso mesmo passo a explicar o título "Ansião: esta "não é" a minha Vila", evitando assim "chico-espertismos".
Obviamente que Ansião é e sempre será a minha Vila, já que sempre o foi, no entanto as obras de regeneração da Vila de Ansião vieram mexer com algo que me diz bastante, a minha identidade. Assim sendo, este título apenas pode ser utilizado contextualizado desta forma, já que o utilizo apenas e só para alertar que houve algo que correu muito mal, que desenraíza parte da memória de uma Vila com história.
Falo, claro, da perspectiva não só de cidadão, mas também de geógrafo.
Assim sendo, começo com uma primeira imagem, a qual é nada mais nada menos do que quase que um tapume, o qual tem o intuito de tapar o espaço de uma casa demolida, mesmo no centro da Vila de Ansião. Acho curiosa esta frase que consta no mesmo, a qual apela para a celebração da memória numa altura onde parte dela desapareceu...
Será que as obras devem ser celebradas, tal como foram efectuadas? A minha resposta é simples, não. Celebrar a memória não significa, de todo, fazer-se o que foi feito...
É certo que concordei com as obras, mas não da forma como acabaram por ser efectuadas, já que descaracterizaram gravemente a Vila de Ansião. E mesmo assim, inicialmente ainda havia a ideia peregrina de fazer um estacionamento subterrâneo, facto que felizmente não veio a concretizar-se.
Já critiquei fortemente o facto de ali terem colocado granito, o qual não faz nem nunca fez parte da memória da Vila Ansião. Como é que falando-se tanto da memória de uma área cársica se utiliza granito? Isto chama-se a perversão do objecto patrimonial. Ansião parece-se agora como uma outra qualquer Vila de Portugal, será isto aceitável? Será isto valorizar o local?
Fala-se também do facto de ter havido participação pública, tantas vezes sublinhada pela Câmara Municipal, mas afinal esta participação pública começou já quando as obras estavam prestes a começar...
É certo que se falou antecipadamente com os lojistas, mas isso nada tem a ver com participação pública pura e dura. Para que tivesse existido verdadeiramente participação pública, os projectistas deveriam ter começado a falar com os ansianenses muitos meses antes das obras, pois só assim as ideias da comunidade poderiam ter algum reflexo no projecto final. Este tipo de projectos faz-se com as pessoas e para as pessoas, é assim que se faz em todo o lado, ou pelo menos onde isso acontece mesmo. 
Participei numa das reuniões públicas, mas isso só me fez ver que o processo foi completamente enviezado, afinal o olho estava dormente. Em vez de se ter um projecto guiado pelos ansianenses, tem-se um projecto no qual as ideias dos projectistas tornaram a Vila de Ansião igual a muitas outras. Isto resultou basicamente num processo que desvirtuou a Vila de Ansião, num perigoso processo de homogeneização cultural.
O que prevaleceu foi a ideia de um arquitecto e engenheiro, mesmo que fosse, como se vê, uma ideia estereotipada sobre o que deve ser o centro histórico de uma Vila com especificidades próprias e intransmissíveis. Poderia ter-se feito tudo de uma outra forma e não é o facto de ter um pequeno rectângulo de calçada portuguesa no meio daquela obra, que há legitimidade na coisa. 
Sinceramente até estou surpreendido pelo facto de, em conversas várias, me ter apercebido que parte significativa das pessoas não ter gostado muito do desvirtuar da Vila. Concordam que está mais bonito, mas afinal as obras poderiam ter sido feitas de uma outra forma e mesmo assim ficarem bonitas e com a memória respeitada. 
Um dos pouco factos que me agrada, mas que poderia ser feito à mesma caso as obras tivessem tido outro rumo, é agora as pessoas com menor mobilidade (ex. cadeiras de rodas) terem muito mais facilidade para se deslocarem na Vila de Ansião. Mobilidade que, noutro prisma, está afectada a nível de manobras de carros de maior dimensão, caso de veículos de bombeiros.
Falando agora naquilo que as próximas imagens mostram, o desaparecimento de muito do verde que por ali existia, as imagens falam por si. Preocupa-me seriamente que os projectistas tenham decidido colocar aquelas árvores que têm apenas uma função visual e pouco mais. 
Quanto a uma outra questão, que não se vê, mas que decorre do desaparecimento do verde e da ainda maior impermeabilização do solo. No verão a temperatura ali será maior, o que obviamente tem os seus impactos em termos de conforto humano. A obra não teve em conta aspectos básicos neste domínio, mas futuramente irei destacar esta questão, em termos de climatologia urbana.
Pessoalmente não achei graça alguma aqueles pequenos jactos de água, implantados no chão, pois além de não fazerem parte da memória do centro da Vila, são apenas um desperdício recursos valiosos...
Deixo-vos agora com algumas imagens do antes e do depois das obras, as quais servem para reflectirmos um bocado sobre aquilo que pretendemos para o nosso território: