É uma novidade que, infelizmente, não está a ter o devido destaque na imprensa regional. A arqueologia na região de Sicó ganhou uma nova vida, pois foi inaugurado há poucos dias o Centro de Arqueologia de Alvaiázere, projecto do Instituto Politécnico de Tomar e da Câmara Municipal de Alvaiázere. Estão ambos de parabéns por esta ideia ter chegado a bom rumo.
A ideia já poderia ter sido consumada há mais tempo, dada a incompetência do anterior autarca no domínio da temática patrimonial. Há 10 anos eu estava a trabalhar em Alvaiázere numa ideia que além de englobar dois centros de interpretação ambiental (Escola da Geodiversidade e Escola da Biodiversidade/Centro Ciência Viva do Carvalho Cerquinho) englobava um outro espaço, ou seja a reconversão de uma antiga escola primária para um espaço que pudesse receber investigadores de várias áreas. Infelizmente o projecto foi metido na gaveta, mas eis que Alvaiázere ganhou uma vida nova, sem ressabiamentos e vinganças à mistura.
Com esta infra-estrutura todos ficam a ganhar, Alvaiázere e a própria região de Sicó, que agora fica com um espaço de referência para a investigação. É de salientar também a dedicação no domínio da arqueologia da Directora do Museu Municipal de Alvaiázere, Paula Cassiano, que, em conjunto com um pequeno núcleo duro, mantiveram a chama da arqueologia viva em Alvaiázere num tempo onde a arqueologia era um parente pobre na temática do património.
Espero agora por novas descobertas, já que toda esta região tem muito por descobrir!
Há poucos meses atrás referi o facto de, em 2015, pretender continuar a senda da inovação no azinheiragate. Começo a "época" de 2015 fazendo isso mesmo, inovar para abordar a questão do património. Faço algo que nunca fiz no azinheiragate, ou seja recorri aos serviços de um drone (Sky Ansião) para ter uma outra perspectiva de algo que, apesar de saber que ali existia, não conseguia aceder fisicamente.
O objectivo era simples, ver um povoamento arqueológico através dos "olhos" de um drone. O facto do mato ser cerrado e, por isso, dificultar não só a mobilidade bem como a observação, foi decisivo para que eu tivesse de recorrer aos serviços da Sky Ansião, que rapidamente acedeu à minha solicitação para este serviço.
Já tinha conhecimento deste povoamento arqueológico há alguns anos, pois ao analisar fotografias aéreas, datadas da década de 60, em estereoscópio, vi que havia ali algo que eu desconhecia. A curiosidade falou mais alto e lá descobri o que aquilo era. Mesmo não tendo conseguido chegar ao povoamento arqueológico consegui saber o que ele afinal era. Na altura fiquei sempre com a ideia que mais tarde ou mais cedo conseguiria outros olhos para ver o que os meus não chegaram a ver in loco, daí que até ao voo do drone, poucos anos passaram. Agora fica a satisfação de conquista, pois o património alimentou os meus olhos.
É importante salientar o facto das entidades públicas terem pleno conhecimento deste povoamento arqueológico e nada fazerem para valorizar o mesmo. Ou seja, desprezam este património sabendo que existe, o que para mim é muito grave. E depois queixam-se que são territórios do interior (treta!) e que são territórios encravados, quando afinal o único encrave é nos horizontes limitados.
Também importante é a questão do código de ética que deve estar associado à utilização de um drone, daí, e mesmo não havendo, eu e a Sky Ansião, acordámos um código de ética e conduta próprio. Primeiro, ângulo de filmagem fechado, de modo a que nenhum espertinho seja tentado a ir ao local roubar algum objecto de âmbito patrimonial. Segundo, nada de filmar ao pormenor estruturas físicas privadas, respeitando assim o direito privado. Terceiro, não estragar nada, a única coisa que saiu dali foram fotografias e filmagens. Quarto, fotografias e vídeos não têm quaisquer intuito comercial, mas apenas intuito em termos pedagógicos, ou seja mostrar o potencial que pode ter também no domínio da arqueologia. E outros mais. Não irei disponibilizar quaisquer tipo de informação acerca da localização deste povoamento arqueológico, só para que não fiquem dúvidas. Há que proteger algo que não está protegido e deixar a investigação para quem de direito.
Sei que estão já a ser preparadas algumas regras para a utilização de drones, legislando assim as suas actividades. Já houve abusos e há que prevenir isso mesmo.
O vídeo que a Sky Ansião me proporcionou mostra segmentos de um vídeo de maiores dimensões, este de acesso reservado. Pretendi que este vídeo, que agora vos disponibilizamos, levante apenas a ponta do véu de algo maior. Se estiverem atentos, poderão ver que no meio daquela imensa vegetação há uma pequena muralha, indicativa de um povoamento arqueológico perdido no tempo.
Espero que se sintam inspirados com esta nova perspectiva e sintam curiosidade na utilização de drones, pois na minha opinião há todo um mundo por explorar, no bom sentido, através dos drones. Caso a utilização de drones seja bem pensada na temática do património, temos todos muito a ganhar. É preciso inovar e espero que este vídeo seja o início de algo positivo.
Agradeço à Sky Ansião pelo seu notável contributo em prol do património, esperando eu que esta colaboração se possa voltar a repetir. Será uma questão de tempo até voltar a requisitar os serviços desta. Fiquei muito satisfeito e surpreendido com o resultado final. A relação custo benefício é excelente.
Espero então que desfrutem deste belo momento patrimonial!
A arqueologia é infelizmente um parente pobre das políticas de desenvolvimento "praticadas" na região de Sicó. É comum a arqueologia ser considerada um estorvo às políticas de desenvolvimento territorial, especialmente quando certas obras "tropeçam" em vestígios arqueológicos, momento em que se usualmente se ouve dizer que é uma chatice, ou então que azar...
Tudo isto acontece numa região riquíssima no domínio da arqueologia, o que é realmente estranho. Não seria normal valorizar-se este recurso e promover a escavação de locais onde a coisa promete? Não me refiro apenas às antas que as fotos dão conta (felizmente já escavadas e estudadas!), refiro-me sim a todo o imenso património arqueológico existente na região de Sicó. Isto poderia incluir também vestígios que "dormem" por debaixo de rotundas com grande volume de trânsito (é uma indirecta a gente da política que sabe, mas que preferiu construir por cima, já que era uma maçada se a coisa se soubesse...).
A prioridade é o betão e alcatrão, o resto vem depois. Há honrosas excepções, nomeadamente em Condeixa e em Penela. Outras excepções só não o são porque o betão estragou a coisa, quando em vez de se prosseguir a "coisa", decidiu-se promover o betão onde poderiam estar mais vestígios arqueológicos.
Nunca me hei de cansar de dizer que a região de Sicó tem muitas variáveis que poderiam realmente ter entrado na equação que é o desenvolvimento territorial, mas que afinal são altamente subestimadas e relegadas para nonagésimo plano. Ao invés, promove-se a entrada de variáveis estranhas à região de Sicó, enviezando todo o processo.
Outras regiões (em Portugal ou não...), que não têm a sorte de ter o imenso património que a região de Sicó tem, conseguem fazer muito mais com muito menos. Aqui, na região de Sicó, faz-se muito menos com muito mais, porque será? Eu sei, mas deixo a dúvida para todos vós.
Pode parecer, para alguns, estranho, eu ser tão crítico, mas isso é simples de responder, pois afinal a crítica que faço tem em vista apenas e só o devido reconhecimento do nosso património. Muitas vezes é preciso ser-se incisivo para que as mentalidades se mexam, daí eu ser forte na crítica.
A quem não liga muito à temática da arqueologia, dou a sugestão de pesquisarem um bocado, pois tenho a certeza que vão ficar maravilhados com o que existe na região de Sicó. E quando digo pesquisarem, não é nas entidades oficiais, é sim sobretudo naqueles eu denomino como os anciãos do património. Descobri-los dá trabalho, mas vale mesmo a pena!
Em 2011 cheguei a convidar alguém, ligado à arqueologia, para dar aqui um contributo sobre a temática, no entanto não foi aceite o convite. Até compreendo a recusa, já que na região de Sicó falar sobre certas questões pode afigurar-se como um verdadeiro problema que directa ou indirectamente pode levantar problemas a nível profissional e/ou pessoal. Tendo em conta isto mesmo, irei tentar dar mais protagonismo à temática da arqueologia da região de Sicó, já que apesar de já por algumas vezes ter falado nesta questão, isso foi claramente insuficiente tendo em conta a riqueza patrimonial desta nossa região.
Sempre defendi que um dos problemas da sociedade é o afastamento entre ciência e o cidadão comum, por isso mesmo destaco agora uma iniciativa que pretende combater esse mesmo problema, promovendo a aproximação entre o cidadão e a ciência, no caso uma actividade ligada à arqueologia.
A região de Sicó tem um potencial enorme no que concerne à arqueologia, sendo o seu expoente máximo a conhecida Conímbriga, um património de valor incalculável. Há, no entanto muito mais por esta região, estando muito ao abandono e muito outro património por excavar.
É uma temática que brevemente irei aprofundar, já que já convidei uma especialista a escrever um breve texto sobre a arqueologia na região de Sicó.
Para já fica o destaque de uma iniciativa louvável de uma associação que já há muitos anos dá cartas na questão do património: