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segunda-feira, 10 de abril de 2017

O pior inimigo do património dá pelo nome de iliteracia ambiental


É, no meu entender, a questão mais sensível e complexa quando se trata de abordar a questão do património. É, portanto, algo que importa debater neste espaço, onde miúdos e graúdos costumam investir uns minutos a ler estas linhas.
Nos muitos anos que levo de activismo ambiental já vi muita coisa, sendo que hoje utilizo esta situação para falar dos porquês de alguns dos disparates que se vêem pela região de Sicó. Trata-se de um caso ocorrido perto da nascente do Olho do Tordo, em Alvaiázere, mas já na freguesia de Pelmá. Desloquei-me ao local, após ter ouvido em conversa que ali se havia passado algo. Ao chegar lá fiquei perplexo com o que vi, já que não fazia sentido algum. Umas quantas azinheiras partidas por uma máquina, a qual fez uma valeta num local onde não faz sentido algum a fazer.
Como costume fiz o trabalho de casa e tratei de investigar o caso. Poucas horas depois informei a Câmara Municipal de Alvaiázere sobre o sucedido, pedindo a esta entidade que indagasse sobre o caso. Poucos dias depois fiquei a saber que alegadamente tinha sido a Junta de Freguesia de Pelmá a fazer este disparate. Fui informado que o autarca respectivo alegadamente não saberia que isto não se poderia fazer, facto que estranho bastante, ainda mais sabendo o historial da bela azinheira pelos lados de Alvaiázere.
Mas isto leva-nos a algo de importante, ou seja a incipiente literacia ambiental neste território e noutros mais, facto que nos deveria deixar a todos preocupados. Não é admissível que em pleno século XXI ainda subsista tamanha iliteracia ambiental, especialmente por parte de autarcas, os quais têm a obrigação de saber os mínimos nesta temática. É por isto mesmo que há muitos anos defendo publicamente que os autarcas deveriam ter noções básicas sobre ordenamento do território e afins.
E, antes que alguém venha com a conversa do costume, não, ao falar de iliteracia ambiental eu não estou a afirmar que há pessoas menos inteligentes, mas sim a afirmar que há pessoas com responsabilidades que não sabem o que deveriam saber. Se é certo que é pouco provável que estes possam saber tudo o que é necessário, é certo que estes têm de estar munidos das ferramentas básicas que os ajudem a desenvolver as suas acções enquanto autarcas. 
Esta é a minha luta, pugnar pela literacia ambiental e cívica. Foi, é e será uma luta difícil, contudo posso-vos garantir que vale mesmo a pena. Todos ficam a ganhar com a literacia ambiental e ninguém perde com isso!


domingo, 5 de março de 2017

A verdade é como a azinheira: vem sempre ao de cima...

Peguei numa expressão bem conhecida dos portugueses e adaptei-a. Utilizo esta mesma expressão para confrontar o Presidente da Junta de Freguesia de Almoster com os factos ocorridos aquando da abertura de dois estradões ilegais em Rede Natura 2000, à revelia das mais elementares regras legalmente instituídas no domínio do ordenamento do território, do Plano Sectorial da Rede Natura 2000 e do funcionamento das próprias Juntas de Freguesia, que estão sujeitas a regras específicas. 
Começo por disponibilizar dois recortes de imprensa, os quais irei utilizar neste comentário, tendo em conta as declarações que este autarca fez ao Jornal de Leiria:


Fonte: Jornal de Leiria (Ed. 16 de Fevereiro de 2017)

Começando pelo princípio, este autarca não pode simplesmente alegar lapso, já que, por inerência das suas funções, este é obrigado a saber o que, alegadamente, não sabia. É, no mínimo absurdo, alegar-se "lapso" numa situação destas. Enquanto autarca, Paulo Silva está vinculado ao cumprimento de alguns princípios basilares, os quais constam na legislação afecta à sua actuação enquanto Presidente da Junta. Falo, claro, do Regime Jurídico das Autarquias Locais, concretamente a Lei nº 75/2013, de 12 de Setembro. Quando se viola estes princípios, está-se sujeito a consequências, nomeadamente a dissolução da Junta de Freguesia, tal como, na minha opinião, deveria ocorrer tendo em conta o que esta Junta de Freguesia fez, ao mandar abrir aqueles estradões ilegais. Isto mesmo está previsto na lei. Penso que nem preciso de referir ao pormenor a legislação onde consta isto mesmo, deixando isso para o Sr. Paulo Silva.
Prosseguindo, Paulo Silva afirma que apenas cortaram árvores de pequena dimensão e que a obra era reclamada pela população. Depois contradiz o que ele próprio refere, já que afinal só foram cortados pequenos arbustos e que a obra pretendeu facilitar o acesso às propriedades. Árvore é uma coisa, arbusto outra, não compreendo tal confusão... Confusões à parte, e falando apenas das  azinheiras, é proibido cortar exemplares desta espécie, sejam eles arbustos ou árvores de pequena, média ou grande dimensão. Depois refere que preservou os muros e que o que havia já estava no chão. Nem sequer fala dos lapiás, pensando possivelmente que são muros, dado o teor das suas afirmações.
Fez tudo isto sem, alegadamente, dar conhecimento à Câmara Municipal de Alvaiázere, algo de estranho tendo em conta, entre outros, que o normal seria a Junta falar com a Câmara e que uma operação deste tipo terá custado uns milhares de euros (máquinas). Será que esta Junta está a nadar em dinheiro ou o ano de autárquicas assim o exige? Mais estranho é o facto de, tendo a Câmara Municipal de Alvaiázere um gabinete florestal, Paulo Silva tenha eventualmente achado que não valia a pena falar com a Engª Florestal para pensar uma acção daquele género, vendo, em primeiro lugar, se seria sequer possível. Mas ainda mais estranho é Paulo Silva alegar que apurou que aquela área não era Reserva Ecológica Nacional, mas que partiu do princípio que não era RN2000. Onde terá Paulo Silva consultado o PDM? É no mínimo estranho que estando toda esta informação disponível na Câmara Municipal ou no Geoportal, este afirme que partiu do princípio que aquela área não era RN2000. Muito pouco convincente, ainda mais sabendo que o Sítio Sicó/Alvaiázere não foi criado há 17 dias, mas sim há 17 anos!!!
Por curiosidade fui ao site da Junta de Freguesia de Almoster e não vi uma única referência à RN2000. É estranho que tantas Juntas de Freguesia tenham orgulho no seu património e mostrem todo este património e a Junta de Almoster omita a Rede Natura 2000, Sítio Sicó/Alvaiázere do seu site. A visão do património de Paulo Silva é, no meu entender, muito redutora. Este autarca mostra que não conhece bem o território que gere, facto que não deve ser encarado de ânimo leve.
Mas vamos ao que mais interessa. Paulo Silva, quando refere que apenas cortaram árvores de pequena dimensão, ou os tais arbustos, está a faltar à verdade, pois não há sequer dúvidas sobre o abate ilegal de árvores, seja de pequena ou média dimensão, nomeadamente azinheiras e carvalho cerquinho. Trata-se de um facto e não de uma opinião. Nem preciso de pegar num GPS e percorrer os caminhos, de forma a posteriormente cruzar os dados do GPS com os ortofotomapas, onde facilmente se conseguirá saber exactamente quantas árvores foram abatidas (poderei fazer isso...). Preciso apenas de mostrar duas imagens de um mesmo local, onde o antes e o depois estão bem à vista:



Ou seja, o confronto do antes e do depois, na entrada do estradão, ilegal, das Bouxinhas, mostra que havia ali algumas árvores de dimensão... significativa, nomeadamente um carvalho, que consta na foto e, imagine-se, desapareceu, tal como um número ainda indeterminado de árvores, ou "arbustos". Assim qualquer pessoa facilmente pode ver que Paulo Silva faltou à verdade quando referiu que foram cortados apenas uns "arbustos". Não há argumentos que possam fazer desaparecer o que está à vista.
Mas continuemos:


Na imagem acima consta um tronco que, curiosamente, não conseguiram acabar de queimar. Será que a chuva que caia naquela altura impediu a queima de mais azinheiras e carvalhos do que efectivamente foram queimados? O tronco que delimitei na foto é o tronco de uma árvore. Será que o Sr. Paulo Silva sabe que espécie é esta?
Já agora, não sabia que as azinheiras estorvavam sequer... E já agora, porque é que foram colocados troncos de azinheira por detrás dos lapiás arrancados? É um bocado suspeito, arrancar e depois esconder ou queimar lenha tão boa para a lareira.
Sobre os muros, se estavam alagados, porque é que nunca foram arranjados? É certo que partes do muro estavam alagadas, mas porque é que apenas um dos lados estava alagado? Curioso os donos dos terrenos não se terem incomodado com isto, mas agora alegarem que precisavam de acesso...
Mas vamos também à questão do acesso às propriedades. Havia pelo menos dois caminhos rurais, transversais ao que foi ilegalmente feito, que poderiam ter sido utilizados para melhorar o razoável acesso a todas as propriedades. Pergunto eu, porque não foi esta hipótese equacionada? Sem ilegalidades, sem multas, sem onerar os contribuintes? Fala de mato e de silvas, mas então se os donos dos terrenos cuidavam tão bem deles, como é que havia mato e silvas? Porque é que ninguém fala disto? É por aqui, em primeiro lugar, que devemos centrar o debate.
Esperei uns dias para elaborar este comentário, já que além de querer ver o que este autarca diria sobre o caso, queria também ver as reacções dos populares. Houve dois comentários mais curiosos...
O primeiro foi o de um conhecido meu, das lides do facebook, que referiu que "a Rede Natura 2000 ficou beneficiada com estes serviços". Escusado será dizer que esta foi uma afirmação bastante disparatada e sem sentido algum, pois, de facto, a Rede Natura 2000, e não só, ficou claramente a perder. É em afirmações deste género que se constata a fraca literacial ambiental da população, facto que só ocorre devido ao desinteresse das entidades públicas e pelo desinvestimento, entre outros, na educação ambiental e cívica. Como alguém disse, só se ama aquilo que se conhece e só se protege aquilo que se conhece. 
O segundo comentário foi, imagine-se, de uma senhora que também faz parte da Junta de Freguesia de Almoster, que afirmou que concordava plenamente com o primeiro comentário. Escusado será dizer que esta nem sequer deve imaginar que o seu cargo está em risco, dada as ilegalidades perpetradas pela Junta de Freguesia, da qual ela faz parte. Tudo o que ele diz é tendencialmente... parcial. Ambas as acções que levaram á abertura daqueles dois estradões são ilegais, portanto quem fez a asneira que a assuma. Ficarei à espera da dissolução da Junta de Freguesia de Almoster, já que os responsáveis por estas ilegalidades têm de ser responsabilizados e punidos segundo a lei, tal como está previsto.
É por estas e por outras que defendo há muitos anos que qualquer pessoa que fosse candidata a autarca, teria de fazer formação básica no domínio do ordenamento do território. Fazendo uma analogia, eu para poder conduzir tive de tirar a carta, contudo para poder ser autarca não tenho de tirar "carta" alguma. Faz isto algum sentido?!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Azinheiragate: toda a verdade!


Há uns anos prometi que, na altura certa, iria contar como tudo se passou naquelas complicadas semanas que se seguiram ao abate de azinheiras na Serra de Ariques, em Novembro de 2007. Muitas pessoas podem pensar que sabem da história verídica, no entanto o facto é que eu nunca contei a ninguém toda a história. Porquê? Simples, em primeiro lugar havia que proteger várias pessoas que, directa ou indirectamente me ajudaram naquela épica aventura. Depois foi bem mais inteligente contar partes segmentadas aos meus amigos. Ou seja, nenhum deles sabia a história no seu todo, mas juntos, todos eles saberiam o que se passou. Acaba por ser uma boa estratégia de protecção pessoal, a qual resultou em pleno.
Neste comentário irei ficar-me pelos factos concretos e, apesar de ir contar toda a história (factos), não irei falar de nomes, pois prometi que iria proteger quem me ajudou activamente ou me apoiou de alguma forma. Tudo o que aqui vou dizer é facilmente comprovável.
Já agora, a máquina fotográfica que agora vos mostro é aquela que muito trabalhou em prol do património, mostrando ao mundo aquilo que alguns negavam. Esta máquina fotográfica já faleceu, no entanto guardei-a, dado o seu muito simbólico valor.
Começando pelo início, algo que vos vai surpreender. Tudo isto começou antes mesmo do abate das azinheiras na Serra de Ariques. Semanas antes, no início de Novembro, eu tinha comentado num fórum de geografia, sobre algumas questões muito problemáticas associadas à construção de parques eólicos. O comentário dava pelo nome de "Parques eólicos e desordenamento do território". Este comentário teve eco a nível nacional, no meio geográfico, e foi aqui que as coisas se começaram a complicar. Para que não haja confusões da vossa parte, mais tarde fiz um outro comentário, similar, portanto não estranhem.
Voltando atrás, quando fiz aquele comentário, nunca pensei que ganhasse a visibilidade que ganhou. Talvez por isso, alguém foi informar certa e determinada pessoa que eu tinha feito um comentário incómodo, o qual apesar de não se referir explicitamente ao projecto de parque eólico na Serra de Alvaiázere, implicitamente tinha muito a ver com o mesmo. Essa certa e determinada pessoa, ao ser informada, terá, alegadamente, dito a uma terceira pessoa que iria tratar do assunto à sua maneira. Só mais tarde vim a saber disto, o que acaba por ter a sua graça, já que eu era próximo dessa mesma terceira pessoa e foi ela mesmo que me disse isto mesmo.
Mas indo então à questão de fundo, no dia 26 de Novembro de 2007, houve uma pessoa que chegou ao gabinete onde então eu trabalhava e perguntou-me se eu sabia do que estavam a fazer na Serra de Ariques. Ela própria estava confusa. Como eu não sabia de nada, também fiquei confuso, pois sendo eu o técnico com competências no ordenamento do território, era estranho, no mínimo, sem o meu conhecimento, estarem a abrir um estradão em plena serra de Ariques. Algo se passava naquela área de Reserva Ecológica Nacional e Rede Natura 2000 e eu tinha obviamente de ir ver o que se passava.
Chegado lá, deparei-me com este cenário que a fotografia mostra sem margem para dúvidas. Sendo eu geógrafo, rapidamente me apercebi da gravidade do sucedido. Tirei várias fotografias e regressei ao meu local de trabalho. Indaguei sobre o assunto e cheguei à conclusão que esta acção tinha sido autorizada pelo autarca local. Isto era muito estranho, pois ninguém lhe daria autorização para cometer tal barbaridade ambiental.


Durante o resto do dia pensei muito naquilo. À noite dormi mal, pensando na complicação que aquilo iria ser. Percebi que tinha duas hipóteses, a primeira era de ficar calado e pactuar com esta ilegalidade, sendo assim cúmplice. Seria muito cómodo, sem dúvida, mas afinal eu não era covarde para ficar no meu cantinho. Escolhi a segunda hipótese, menos cómoda, mas honesta e digna de um bom profissional que ama o seu trabalho e o património natural do seu país. Sabia que, ao escolher esta segunda hipótese, estaria a colocar em risco o meu posto de trabalho, mas afinal eu não era do tipo de pessoas que fica impávida e serena perante esta situação. Além disso, eu nunca fui de pensar num emprego para a vida, ao contrário de outros.
Tomada a decisão, decidi ir em frente, sabendo, no entanto, que se denunciasse a situação pessoalmente, teria sérios problemas. Isso não me impediu de pensar na melhor estratégia para que o caso viesse a público.
E passados poucos dias a estratégia resultou, já que bateu forte. Mesmo eu fui surpreendido, pois em plena página da Quercus, surgia a notícia do abate ilegal das azinheiras. Nessa altura a máquina giratória e a máquina de restos já tinham "fugido" da serra. Os dados estavam lançados e já não havia volta a dar. Naquela altura eu ainda não tinha a bagagem e o conhecimento que tenho hoje em dia, daí ter ficado um bocado surpreendido pelo mediatismo da coisa.
Notei que o ambiente ficou muito pesado no meu local de trabalho, pois toda a gente sabia, mas ninguém ousava falar do caso. Surgiu o tabú azinheiras. Mesmo eu não falava da situação, pois sabia que se o fizesse, teria chatices.
E passados poucos dias, já na primeira quinzena de Dezembro de 2007, numa segunda-feira, fui surpreendido da forma mais amarga. A minha mãe telefonou-me a dizer que eu tinha recebido uma carta registada, da Câmara Municipal de Alvaiázere. Pensei logo para mim o que poderia ser, mas já imaginava. Fui aos serviços administrativos e perguntei porque motivo tinha recebido uma carta, se não teria feito sentido receber em mão. A senhora disse-me, de cabiz baixo: "não sabes?!". Eu respondi-lhe que não. Foi buscar o triplicado da carta e lá estava a informação:
"Venho notificá-lo de que o contrato de trabalho... vai terminar... uma vez que não vai ser renovado", assinado por pelo agora ex. autarca.
O meu mundo desabou naquele momento. Se até então estava tudo correr bem no meu posto de trabalho, porque razão, passadas 2 semanas do abate das azinheiras, eu estava a receber aquela comunicação? Obviamente que percebi logo o motivo, mas custava-me acreditar que em pleno século XXI isto acontecesse. Nesta altura a imprensa local, regional e nacional deu cobertura a este abate de azinheiras, o que foi liminarmente desmentido pelo, então, autarca local. Meses depois foi-me dada razão, pela tutela, que aquilo era mesmo ilegal. 
Perguntam agora vocês, porque razão eu denunciei o caso? Quem disse que a denúncia foi feita por mim? Surpreeendidos? Obviamente que fui eu que tratei que a denúncia fosse feita, mas efectivamente não fui eu que, na prática, denunciou. Quem foi nem sequer soube que era eu que lhe estava a comunicar o facto, embora pudesse ter imaginado. Quem fez a denúncia foi uma pessoa com muitos conhecimentos e muito bem posicionada.
Durante as semanas que se seguiram a imprensa foi a Alvaiázere várias vezes. Uma delas foi caricata, pois o jornalista (Diário as Beiras) foi levado até à Serra de Ariques, mas, antes de chegar ao sítio onde tudo se passou, estava, de forma miraculosa, um tractor a barrar o caminho. Estranha forma de apanhar lenha... Foram vários os episódios caricatos ocorridos, todos eles públicos.
Desde o dia 26 de Novembro em diante, nunca consegui pedir explicações a Tito Morgado. Este deixou de fazer o trajecto que costumava fazer diariamente, por detrás do edifício onde eu estava. Não sei se era para me evitar, mas que foi curioso foi. Nem um e-mail me enviou, tal como era costume fazer até então.
Por Dezembro adiante fui alvo de pressões inimagináveis. Tito Morgado continuava a negar o abate das azinheiras e então começou a afirmar que a minha saída se devia ao não cumprimento de algumas tarefas e não a uma suposta represália pela denúncia do abate das azinheiras. Nunca provou isto mesmo, pois felizmente que havia actas para comprovar que eu tinha cumprido tudo aquilo que me tinha sido incumbido. Houve também meia dúzia de pessoas que também me tentaram fazer a vida negra, ficando até incomodadas com o facto de, na minha hora de almoço andar a passear pela Serra de Ariques.
Foi nesta altura que me lembrei de fazer algo que nunca tinha feito, ou seja colocar vídeos no youtube. Foi aí que fiz, talvez, o mítico vídeo de, uma verdade inconveniente, versão Serra de Ariques. Nessa altura era inconcebível que alguém tivesse a coragem de fazer algo do género, mas isso não me impediu de fazer algo que pudesse mostrar ao mundo o que Paulo Morgado tinha autorizado e que, de forma taxativa, negava. Ao contrário do que este afirmou, eu não o fiz por qualquer vingança, mas sim por justiça e seriedade. Este colocou a minha vida pessoal e profissional em causa só porque, supostamente lhe fiz frente. Possivelmente este autarca não estava habituado a tal frontalidade, mas num país democrático podemos e devemos fazer isto mesmo. É raro, eu sei, mas é possível.
Tentou mover-me um processo disciplinar, contratando uma advogada, mas não teve sucesso. Mal sabia que, antes mesmo de eu ser chamado ao seu gabinete para falar com a advogada, eu já estava precavido, pois um passarinho já me tinha avisado que iria acontecer isto mesmo. Já tinha inclusivamente contactado um reputado advogado que, analisado o caso, afirmou que, e passo a citar, "é claramente uma situação de perseguição política". Felizmente que não foi necessário recorrer mais ao mesmo.
Mandou cortar a internet no computador que eu utilizava no meu posto de trabalho, algo que não me fez confusão porque eu não o utilizava para outros fins que não os indicados. Curiosamente não chegou a saber que afinal ainda tive acesso à internet o tempo suficiente para me salvaguardar... Este procedimento (impedir o funcionário de trabalhar) é proibido por lei, daí eu ter feito uma queixa sobre o facto. Fui impedido de trabalhar até ter metido férias, até ao final do contrato.
Foi nesta altura que percebi os amigos que tinha e que tinha muitas pessoas que, no final, me ajudaram imenso, que me protegeram em toda esta situação, seja colegas de trabalho ou amigos. 
Houve uma altura que me fui abaixo, tendo parado os trabalhos da tese de mestrado durante 4 meses. Mas como bem se diz, o que não nos mata torna-nos mais fortes. Fiquei com uma visibilidade enorme e aproveitei a mesma em prol da defesa do património e do bem público. Não foi nada fácil, mas foi esta luta que me tornou um profissional reconhecido perante os meus pares. Foi esta luta que me levou às várias entrevistas em jornais, revistas e televisão, ganhando o património com isso.
Desde então denunciei todas as ilegalidades graves que tive conhecimento em Alvaiázere (e não só). Se até então havia algo que me limitava na minha acção enquanto cidadão, essa barreira deixou de existir com a minha saída do posto de trabalho que ocupava. 
Muito sinceramente tenho muito a agradecer a Paulo Morgado, pois o que parecia que ia ser "o meu fim", foi apenas o meu "início". O que este autarca desencadeou foi afinal muito positivo. Fui para o desemprego, estando 1 ano a ganhar quase 1000 euros de subsídio de desemprego (quase o mesmo que ganhava a trabalhar!). Tive direito a subsídio de férias e natal em 2008 e ainda recebi uma compensação por sair, ou seja mais uns milhares. Aproveitei o tempo disponível para me dedicar ao mestrado, que concluí ainda nesse ano.
Passado esse ano, ainda tive direito a 600 euros por 6 meses e 300 euros por mais 6 meses. Aproveitei a oportunidade e concorri então a uma bolsa do doutoramento, conseguindo os meus objectivos e concluindo mais aquele degrau do conhecimento. Em Ansião chamamos a isto uma lição de vida...
Ao contrário do que este ex. autarca continuou a insistir, eu não fiquei com aquele sentimento patético vingança, pois a vingança é um mal que não nos leva a lado nenhum e que, aliás, é um mal que não me assiste. Fiquei com um sentimento de missão cumprida, de ter dado uma verdadeira lição de cidadania, de moral e de ética a quem fica muito incomodado quando em vez de palmas leva com críticas, mesmo que honestas e devidamente fundamentadas. Desde então, este, agora ex. autarca, já fez uma queixa sobre a minha pessoa, acerca de um comentário que o incomodou. Ainda bem que o fez, pois reforçou ainda mais a minha legitimidade, já que o Ministério Público não lhe deu razão e deu-me razão na legitimidade em criticar algo de concreto, baseando-me apenas nos factos. No final, pagou as custas judiciais e abriu um precedente... Foi mais uma bofetada de luva branca, entre muitas outras até então.
Como se costuma dizer, conhecimento é poder e eu gosto muito do conhecimento. Diria que é um dos meus vícios, querer saber mais e mais, o que acaba por ser uma chatice para algumas pessoas. 
Confesso que não foi fácil guardar esta espécie de segredo por tantos anos, mas após a saída do agora ex. autarca, já me senti preparado para partilhar publicamente o "segredo da azinheira". 
Nunca desistam de ser honestos, pois fazendo o bem e confrontando o mal é possível chegar longe. Eu provei isso mesmo!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O azinheiragate pelo Professor Doutor Mário Lousã

Transcrevo na íntegra um texto que o Professor Doutor Mário Lousã (ISA) escreveu acerca do caso das azinheiras, o seu currículo fala por si e este texto está simplesmente brilhante na minha humilde opinião:

«Ainda o atentado contra o azinhal da Serra de Ariques (Alvaiázere)
Por Mário Lousã*


Azinhais bons sobre calcários já são raros. Desenvolveram-se desta maneira pois quando os solos são de fraca espessura, mesmo que a precipitação seja elevada, a água das chuvas infiltra-se rapidamente através das fissuras das rochas pelo que as árvores vivem em condições de grande secura. A cobertura arbórea típica é assim de azinheiras nesta zona do País constituindo uma série endémica (exclusiva) do Centro de Portugal denominada Lonicero implexae-Querco rotundifoliae sigmetum. Uma série é todo um conjunto de comunidades que se sucedem no tempo evoluindo para uma etapa, geralmente arbórea, em equilíbrio com o meio. Quando os solo derivados do calcário têm maior espessura a formação arbórea característica é de cercal, muito abundante no Centro do nosso País. A azinheira é uma espécie protegida da nossa flora.
Além disso naqueles azinhais aparecem importantes comunidades, especialmente de orquídeas, que constituem um habitat prioritário de conservação. O Sítio de Importância Comunitária da Rede Natura – Sicó-Alvaiázere - está razoavelmente bem preservado pelo que, devido às características próprias dos seus litossolos, foi incluído na Rede de Sítios a conservar pois ainda tem algumas boas formações arbóreas autóctones semi-naturais.
O azinhal da Serra de Ariques está em zona de baldios. Segundo a Lei 68/93 de 4 de Setembro “os baldios são terrenos possuídos e geridos pelas comunidades locais, que são constituídas pelo conjunto de moradores de uma ou mais freguesias que, segundo os usos e costumes, têm direito ao uso e fruição do baldio.” A exploração destes azinhais é portanto para beneficio das populações que ali habitam o que não nos parece que seja o caso. Então para que é que seria a destruição levada a efeito? Para proteger a população dos fogos? Mas as populações estão relativamente longe. Mas para quê? Para abrir o azinhal depois de um fogo sofrido há alguns anos? Mas porquê só agora? Para limpar o azinhal? De quê? Para ser mais uma porta de entrada para a colocação de lixos das construções, de utensílios que se estragaram, de pneus ou de cartuchos de caçadeira? Não será antes para justificar uma batida aos javalis realizada no dia 19 de Janeiro conforme os cartazes afixados em Alvaiázere! Que benefício para as populações da Serra de Ariques trouxe este evento? Pensamos que nenhum. Percorremos há uma semana todo o estradão (há outro aberto há uns anos atrás mas mais pequeno e possivelmente com os mesmos fins) e vários ramais até ao local onde abruptamente pára, devido possivelmente ao alarido que esta notícia estava a provocar. Fizémos a contagem do número de azinheiras abatidas entre pequenas, médias e grandes e totalizavam alguns milhares de exemplares. Ainda vimos azinheiras grandes cortadas com os ramos por cima da base dos troncos. Para esconder o quê? E outras grandes cortadas que o estradão passou por cima. E quantos lapiás (rochas calcárias de grandes dimensões isoladas entre si) destruídos? Se, como diz a Câmara Municipal de Alvaiázere nas notícias, que tudo era legal então porque pararam a continuação da abertura do estradão? Ainda havia azinhal para “limpar”!...
Quem terá autorizado esta mortandade? Que serviços oficiais? Esperemos que alguém seja chamado à responsabilidade!...
Não valerá a pena preservar o que de melhor, mais característico e com mais potencialidades existe no concelho de Alvaiázere? Em todo o Mundo procura-se conservar a natureza pois o turismo, no próximo futuro, é o do Ambiente. Muito países já viram isso. Em Alvaiázere estraga-se! Mesmo em concelhos limítrofes do de Alvaiázere procura mostrar-se o que a natureza tem de melhor através da construção de trilhos de observação do património. Em Alvaiázere nada e ainda por cima se estraga. Outros concelhos não tão ricos em património natural gostariam de ter o que tem Alvaiázere! Aqui os responsáveis ainda não se aperceberam!
Felizmente há algumas pessoas no concelho de Alvaiázere que tentam conservar o património natural para legar aos nossos descendentes uma natureza equilibrada e auto-sustentável. Infelizmente a maior parte das pessoas ainda não pensou nisso ou nem sequer está interessada. Será na próxima geração que isso acontecerá? Ainda se irá a tempo?

* Professor do Instituto Superior de Agronomia»


http://www.al-baiaz.web.pt/
http://www.isa.utl.pt/home/node/373

Depois de lido este texto, elaborado por uma pessoa que além de ser profundo conhecedor de Alvaiázere e da Serra de Ariques é nada mais nada menos do que uma das mentes mais brilhantes da Botânica em Portugal, apenas posso dizer que há em Alvaiázere "alguém" que anda a engolir um sapo do tamanho do mundo! As coisas estão à vista e a verdade marcha....
Parece que o "aprendiz de ambientalista" (como ele carinhosamente me chamou) está a dar-lhe cartas e a dar uma grande lição de vida!!
Como diria Fernando Pessa:
E esta hein?!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Recortes de Jornal do caso Azinheiragate

Mais do que andar aqui a escrever textos aborrecidos e com termos demasiado técnicos, decidi disponibilizar a todos, os recortes de jornal que recolhi até agora sobre o caso das Azinheiras, faltam-me apenas quatro ou cinco, que nalguns casos são praticamente iguais aos que aqui se encontram, à excepção do referente a 19 de Dezembro de 2007.
Antes de iniciarem a visualização dos recortes de jornal, deixo-vos com uma citação que considero fabulosa:


" A verdade marcha e nada conseguirá detê-la"

Autor: Zola, Émile



1 - Diario as Beiras 14 Dezembro

2- Diario as Beiras 19 de Dezembro



3 - Região de Leiria 21 de Dezembro

4 - Jornal Horizonte 1 de Janeiro



5- Diario as Beiras 3 de Janeiro

6- Jornal de Leiria 10 de Janeiro


7- Regiao de Leiria 18 de Janeiro



8- Jornal de Leiria 24 de Janeiro

9- Jornal Horizonte 1 de Fevereiro



Para finalizar esta questão dos recortes de jornal, deixo-vos com outra citação brilhante:

"A maior das homenagens que podemos prestar à verdade é utilizá-la"

Autor: Emerson, Ralph