terça-feira, 13 de junho de 2017

Trail do Chícharo: não fazer o que foi feito...


Foto: José Antunes

À primeira vista pode parecer um mero monte de pedras, contudo é algo de importante e que se deve preservar. Sei que a intenção era boa, contudo a consequência é bastante negativa.
Já por mais que uma vez falei do impacto negativo que provas desportivas podem ter, nomeadamente ao passarem por locais onde não deveriam passar. Isto acontece por manifesta falta de conhecimento, daí eu fazer questão em abordar mais uma situação do género.
Quando tive conhecimento do Trail do Chícharo fiquei contente, já que Alvaiázere e as suas gentes merecem e quem não é de lá merece ser presenteado com uma prova deste género. Conciliar o desporto com paisagens fantásticas é algo de inesquecível. E a Serra de Alvaiázere, mesmo apesar da destruição causada pelo parque eólico (em área supostamente protegida...), vale mesmo a pena visitar. Já agora, é o ponto mais elevado do Maciço de Sicó.
Contudo há um grande senão, ou seja o facto da prova em causa ter passado por um local onde nunca deveria ter passado, num local que deveria ter estatuto de protecção, dada a sua importância patrimonial. Quando vi a foto que ilustra este comentário, e que retirei do facebook de um amigo meu,  fiquei perplexo. Sei que a organização teve boas intenções, mas fazer passar a prova por ali foi um erro, o qual espero que não seja repetido.
Pode parecer que se trata de um monte de pedras, contudo há ali algo de muito importante em termos de património natural. Falo, claro, das cascalheiras de gravidade da Serra de Alvaiázere, um local de interesse geomorfológico importante e que importa preservar. A sua preservação passa fundamentalmente por medidas que impeçam o trânsito de pessoas por aquele local, evitando assim o pisoteio. Uma coisa é passar por ali uma pessoa uma ou duas vezes por ano, outra é passarem dezenas ou centenas de pessoas num par de horas. Em poucas horas promoveu-se um impacto que não aconteceu em alguns milhares de anos...
Importa também salientar que naquele local já foram encontrados vestígios arqueológicos (cerâmica), portanto ao património geomorfológico junta-se também a questão da arqueologia. 
Para quem estiver interessado em saber mais, pode encontrar informação sobre este local de interesse geomorfológico num trabalho meu, de 2008, na página 115:
Agora um apelo, aquando do planeamento de provas do género, tentem informar-se sobre documentos técnicos vários que possam existir sobre esta e outras áreas, pois ao estarem informados dos valores ali presentes, podem não só conhecer património que desconhecem bem como preservar este mesmo património, evitando a sua degradação. É fácil evitar este tipo de situações, bastando para isso uma nova atitude na abordagem à questão. E se pedirem algum tipo de ajuda, terão certamente resposta por parte de quem conhece coisas que vocês não conhecem. E através desta troca de conhecimento, ficamos todos a ganhar e o património agradece!

2 comentários:

Filomena Baptista disse...

Gosto muito de ler o seu blogue. Aprendo sempre alguma coisa. E quanto ao que diz no último parágrafo, só lhe digo que é difícil uma pessoa pedir ajuda ou esclarecimento sobre um assunto ou tema que desconhece. Pois se desconhece nem sequer tem dúvidas...nem sabe que perguntar...
Continue assim: informando, divulgando, ensinando...Obrigada

João Paulo Forte disse...

Sim, eu sei que é difícil uma pessoa pedir ajuda ou esclerecimento sobre um tema que desconhece, daí a minha intenção de divulgar estas questões de uma forma pedagógica e, assim, informar as pessoas, de modo a que elas fiquem a saber sobre o património que desconhecem. Informar, informar e informar é a minha prioridade, pois é assim que deve ser. No que concerne ao trabalho que citei, e onde está a informação desconhecida da esmagadora maioria das pessoas, sempre fiz questão de a publicitar, de modo a que todos saibam que existe e é de acesso livre. Aiás, quando acabei aquele tese, ofereci um exemplar à biblioteca municipal de Ansião e outro à biblioteca municipal de Alvaiázere, às minhas custas. E está disponível a qualquer pessoa na internet.