segunda-feira, 9 de março de 2015

Iniciativa "investigadores na região de Sicó": Bosques e Galerias Ripícolas (1)

É com um enorme orgulho que vos apresento uma nova iniciativa no blogue azinheiragate. Tal como prometido, faço questão em inovar neste espaço dedicado ao património. Nos próximos meses, e numa base regular, serão vários os investigadores convidados a mostrar, em bom português, aquilo que melhor fazem na região de Sicó. Isto independentemente de serem naturais da região, pois aqui o mais importante é o património da região. É mais uma forma de construir pontes entre a ciência e a sociedade. E como bem sabem eu faço questão de trabalhar nestas pontes. 
O primeiro investigador convidado é doutorado em Geografia Física (IGOT - Univ. Lisboa) e a sua tese de doutoramento versou sobre a temática: Geobotânica dos Bosques Ripícolas. Parte da região de Sicó foi alvo de investigação por parte do Doutor Estevão Portela-Pereira, daí o convite à elaboração de um texto (original), o qual está dividido em 3 partes. Inicio com a primeira parte deste texto:

Bosques e Galerias Ribeirinhas das Terras de Sicó

Parte 1 – As diferentes comunidades vegetais nativas

A vegetação nativa de uma região está intimamente relacionada com o seu tipo de clima e solo. No entanto, no caso da vegetação ribeirinha, mais do que estes factores depende sobretudo da quantidade de água no solo que é proporcionada ao longo do ano por um curso de água. Assim sendo considera-se não só a vegetação das margens do curso de água, mas também a das várzeas e outros fundos de vale afectados pela sua dinâmica, p.e. quando ocorrem cheias. Devido às características cársicas desta região de clima sobretudo mesomediterrânico, onde um rio no seu curso pode ter trechos com água corrente todo ano e outros, logo a seguir, onde essa escorrência é sobretudo subterrânea, funcionando superficialmente como um curso de água temporário, a consequência é a ocorrência de vários tipos de bosques e galerias ribeirinhas nativas.  

- Tamargais – galerias arborescentes dominadas por tamargueira (Tamarix africana Poir.) nos leitos cascalhentos de cursos de água temporários;


Fig. 1. Tamargal no leito seco cascalhento do Rio Nabão, ponte da Póvoa (Pelmá – Alvaiázere)

- Salgueirais-brancos – galerias arbóreas de salgueiros-brancos (Salix alba L. var. alba e Salix neotricha Goerz) e  choupos-negros mediterrânicos (Populus nigra L. subsp. neapolitana (Ten.) Asch. & Graebn.) nos cursos de água permanentes ou semi-permanentes de corrente mediana com margens arenosas em áreas margosas/calcárias onde a influência agrícola ancestral é bem marcada.

- Borrazeirais-pretos – galerias arborescentes ou arbóreas de borrazeira-preta (Salix atrocinerea Brot.) em cursos de água (semi-)permanentes de corrente fraca e arenosos sobretudo em áreas areníticas; ou então bosques em várzeas baixas onde o encharcamento/inundação do solo se prolonga para além da época das chuvas.

- Amiais – galerias arbóreas de amieiro (Alnus glutinosa (L.) Gaertn.) em cursos de água permanentes ou que mantenham humidade no solo ao longo de todo ano, sobretudo em locais onde a intervenção agrícola ancestral nas margens dos rios não foi muito intensa (são raras nesta região). Podem também formar bosques em pauis nas áreas mais deprimidas de grandes várzeas ribeirinhas.



Fig. 2. Pequeno amial em Almoster (Alvaiázere) com regeneração de freixos num silvado em 1.º plano

- Freixiais – galerias arbóreas de freixo (Fraxinus angustifolia Vahl subsp. angustifolia) nas margens de cursos de água sazonais ou que sofram grandes oscilações de caudal e bosques em várzeas de matriz mais arenosa inundáveis temporariamente apenas em grandes cheias.


Fig. 3. Interior de uma galeria de freixial no Rio Nabão, num trecho de leito seco na ponte de Pechins (Freixianda, Ourém)

- Olmais – galerias normalmente arborescentes (devido à grafiose – doença que ataca os ulmeiros - Ulmus minor Mill. s.l.) nas margens de pequenos cursos de água sazonais ou, mais comum, sebes nas várzeas esporádica e temporariamente inundáveis com solos mais argilosos, e.g. regos e divisórias dos terrenos ribeirinhos.

- Cercais ribeirinhos – galerias arbóreas de carvalho-cerquinho (Quercus faginea Lam. subsp. broteroi (Cout.) A.Camus) em pequenos cursos de água efémeros nas cabeceiras dos rios, cuja degradação poderá dar origem a louriçais (de Laurus nobilis L.).

Estes são os tipos de vegetação ribeirinha nativa potencialmente mais complexa que podem ocorrer nos cursos de água desta região. Infelizmente, dada a intervenção humana ancestral a vegetação actual pode ser bastante diferente. Para além de muitos cursos de água não possuírem actualmente galerias arborescentes ou arbóreas nativas, mas apenas silvados ou juncais e outros prados naturais, não necessariamente com menor biodiversidade, infelizmente muitos deles de vegetação nativa já pouco têm. Por um lado esta vegetação foi substituída por plantações de exóticas, sobretudo nas várzeas, p.e. de choupais de choupos-negros híbridos (e.g. Populus x canadensis Moench); ou, por outro, ter sido substituída ou invadida por espécies exóticas, p.e. as extensas galerias arborescentes de canavial (de Arundo donax L.) que invadem quilómetros de cursos de água nesta região, ou então salgueirais dominados/invadidos pelo vimeiro-amarelo (Salix alba L. var. vitellina (L.) Ser.), variedade de salgueiro exótico muito utilizado pelos seus vimes e que com o abandono desta arte se espalharam pelos cursos de água. Ambas situações são uma ameaça e colocam em causa a biodiversidade destes habitats. 

1 comentário:

João Gomes disse...

Muito bom!! Parabéns!