quinta-feira, 19 de junho de 2014

A vida no campo


Quem me conhece sabe que sou um grande defensor das virtudes do mundo rural. Isto mesmo que o rural de hoje em dia seja diferente do de outros tempos, onde a tecnologia não tinha tantos impactos como os que tem hoje. Surgiram termos que se centram nesta mesma questão, caso do termo "glocal".
Quem me conhece sabe também que sou um temido adversário daqueles que, das mais variadas formas, desprezam, destroem ou degradam tudo aquilo que torna o mundo rural um território mágico.
Nos últimos anos não tenho tido o tempo que queria para me dedicar a alguns projectos que tenho pensados, todos eles têm como base o melhor que podemos encontrar numa região extraordinária, Sicó. Brevemente irei começar a desenvolver alguns destes mesmos projectos, algo que me anima de sobremaneira.
Mas falemos então das virtudes do mundo rural. Aqui dependemos em primeiro lugar de nós próprios, pois não estamos totalmente dependentes do ordenado, como acontece nas cidades. Aqui temos todo um potencial de rendimentos financeiros e, em especial, uma qualidade de vida inigualável. Há mais apoios à família e isso faz muita diferença. 
Falando em dinheiro, com o mesmo ordenado, vive-se bem melhor por aqui, pois não se vive viciado por um sistema que nos impinge tudo aquilo que não precisamos. No mundo rural o que manda não é o comando da televisão, é sim o sol. No mundo rural o importante não é ter para parecer, é sim ter para ser feliz, sem a questão materialista. Com pouco consegue-se ser feliz e viver uma vida nada stressante. Já repararam que apesar de cada vez se poder andar mais depressa, cada vez se tem menos tempo para nós próprios. Ironia das ironias... No campo o tempo estica, não encolhe!
Aqui, em vez de ir ao shopping, andar que nem baratas tontas, a mostrar aquilo que não somos e aquilo que não temos, podemos ir onde quisermos. Ao rio, dar um mergulho, andar no carvalhal ou no azinhal (e fazer um balancé para os filhos, como antigamente se fazia), à Rede Natura 2000, aos lugarejos passear e falar com os velhotes, aprendendo com eles. Comprar uma gaiola para meter o desgraçado do pássaro? Aqui não é preciso, pois eles andam lá fora, aparecem de vez em quando à janela e se lhes arranjarmos um ninho, eles ficam por perto.
Temos praia ou montanha a 1 hora de distância. Quantos se podem orgulhar deste privilégio?
Em vez de termos um apartamento pequeno e caro, temos uma casa pequena e barata mas com um enorme quintal, onde podemos ter animais e fazer o belo do churrasco com os amigos. Carvão não é preciso comprar, pois temos lenha. Não gastamos dinheiro com acendalhas, pois temos pinhas ou caruma para acender o lume. Não nos preocupamos com a conta do gás, do aquecimento, pois temos lenha para dar e vender.
Não temos relvado, mas isso nem é preciso, pois o cão pode ir arrear o calhau longe e em vez deste, podemos ter um ervado, onde podemos fazer muita coisa, desde jogar à bola até ter o gado a pastar. Para as ervas em redor da casa, não precisamos sequer de meter herbicidas (com potencial cancerígeno...), pois temos a enchada, que até é muito boa para exercitar os músculos!
A conta da electricidade é menor, pois a roupa seca-se lá fora, com maior ou menor rapidez.
Não precisamos da TV cabo, pois temos os amigos, a rua para confraternizar e todo um mundo para explorar. O carro pode ficar quase sempre em casa, pois a bicicleta dá conta do recado.
Fruta quase não precisamos de comprar, pois temos árvores de fruto para todos os gostos. Além disso temos as belas das nogueiras ou os castanheiros, não precisamos sequer de pagar para comer estas iguarias. Nêsperas, figos, é só escolher. A horta dá tudo aquilo que quisermos, basta ter espaço e vontade de meter as mãos à terra. E a bela da fava, que nem sequer dá trabalho?! E o belo do pinhão, basta ir às pinhas que é de borla. Nas cidades costuma-se comprar quase a 100 euros o kg...
E temos as espécies autóctones e variedades tradicionais, não precisamos que empresas como a Monsanto e afins nos impinjam seja o que for. Qualidade e saúde alimentar em primeiro lugar.
Na cidade quem quer biológico paga caro, no entanto nós temos biológico sem o pagar, pois, para nós, isso é o normal, a regra e não a excepção. Não há nada como, pela manhã, ir ao galinheiro buscar ovos para fazer ovos mexidos para o pequeno-almoço. Não há nada como à hora do almoço ir buscar uma alface à horta para a salada. Não há nada como à hora do jantar ir buscar umas couves para a sopa. Luxo? Não, é mesmo a vida no campo.
Se formos a andar na rua e por um azar qualquer cairmos, então alguém aparece para nos ajudar, coisa cada vez mais rara nos grandes aglomerados urbanos. Em vez de sermos sócios de um clube de futebol, somos sócios dos bombeiros voluntários, pois esses sim, fazem algo por todos nós e não ganham como os do futebol...
E sim, as cidades são precisas. Só um imbecil pode afirmar que um mundo sem cidades é possível. A questão aqui é só uma, a de que não é nada saudável a maior parte da população estar centrada nas cidades e a tendência ser para piorar o cenário actual. 
Quem sustenta as cidades? O Mundo rural! 
Vejamos então, gostam do mundo rural mas não vivem nele? De que estão à espera? Há muita casa para recuperar, há muita actividade económica para dinamizar, muita cultura para usufruir e até ganhar algum dinheiro com isso. Sim, eu sei, há problemas vários e dificuldades, caso de gente burguesa que pensa que manda nisto tudo, no entanto isso combate-se com o conhecimento, com a sabedoria ancestral e com coragem. Esta última tem faltado a muito boa gente...
Se tiverem dificuldades, há muita gente disponível para ajudar à mudança, desde pessoas como eu até pessoas ligadas a projectos emblemáticos, caso dos Novos Povoadores. Todos contam e todos nós podemos ajudar a uma desejável mudança de paradigma!
Brevemente darei continuidade a este texto, pois há muito, mas mesmo muito para falar...

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