quarta-feira, 19 de março de 2014

Cai uma, cai duas, cai...


A obra ainda não estava inaugurada e o muro já tinha caído, sinal de obra tudo menos bem feita. Eis que em Janeiro deste ano o muro, teimoso, lá foi outra vez abaixo. Aqueles que vivem ali ao lado sabem o porquê do muro ter caído, no entanto estes nunca foram ouvidos por quem, no conforto de um escritório, elaborou este projecto chave na mão. Ignorar os locais costuma resultar em chatices e esta não foi excepção.
Aqueles que, além de viverem ali ao lado, são geógrafos, sabem duplamente o porquê do muro ter caído. Curiosamente quando me deslocava ao local para efectuar este registo fotográfico, cruzei-me com uma outra pessoa que vivia ali ao lado, duplamente curioso ser alguém da minha geração que até andou na escola comigo. Ambos nos rimos da situação, pois apesar de ser ou não especialista, ambos sabíamos o porquê daquele muro insistir em cair regularmente.
Mas isto não tem graça alguma, pois quem paga o erro alheio é o contribuinte, neste caso pela segunda vez. Caso a obra tivesse sido bem feita, o contribuinte não teria de pagar nada. Mas, suspeito, este muro, depois de reconstruído, irá cair mais vezes, a não ser que quem ali vive seja ouvido sabiamente.


Desde o início das obras de regeneração que eu alertei várias vezes sobre os vários erros de projecto e de obra, os quais iriam resultar em chatices como esta. Houve já alguém que, demagogicamente, fez passar a mensagem que havia pessoas contra esta obra, quando não foi o caso. Afinal estas mesmas pessoas manifestaram-se, em primeiro lugar, pelo facto das mesmas não terem sido ouvidas antes da elaboração do projecto, o que seria de esperar numa obra deste género e em segundo lugar, porque houve erros básicos de projecto e de obra, os quais já levaram à ocorrência de algumas chatices e, inevitavelmente, irão levar à ocorrência de outros mais, dada a inobservância de factos básicos ligados à dinâmica ribeirinha.
Um dos erros observados é o esquecimento de certas linhas de água, as quais apesar de não se verem à superfície, estão lá. Por algum motivo os locais dizem que ali havia uma "fonte". Quando se coloca um muro, com demasiado cimento, a tapar uma linha de água, é uma questão de tempo até ela voltar a retomar o seu caminho natural. Quando se estreita um curso de água e, nalguns troços, se impermeabiliza os mesmos, isso causa chatices a jusante. Isto explicado numa linguagem muito simples, embora entendida por quem vive próximo de uma ribeira.
Preocupa-me também que, num troço não contemplado pelas obras de requalificação, os muros da ribeira tenham caído no esquecimento. Será que por não passarem ali tantas pessoas este troço vale menos daqueles a montante e a jusante? É que há partes do muro que apesar de já terem caído há 1 ou mais anos, na margem direita e na margem esquerda, estas têm sido ostracizadas...
"Preocupa-me" também que a minha acção, enquanto defensor do património, já seja considerada demasiado incómoda em Ansião, de tal forma que por uma vez já fui evitado por um dos visados das minhas críticas, o que até Dezembro não tinha acontecido uma única vez. Mas eu até sei o porquê desta reacção, é que o estado de graça já acabou há algum tempo...
No que me toca, a crítica tem um intuito só, o de chamar à atenção sobre algo que importa resolver. É muito fácil aplaudir, mas o exercício da cidadania não é apenas aplaudir, é sim também criticar, desde que de forma honesta e construtiva, por mais que incomode seja quem for. Aplaudir qualquer o faz, agora criticar e confrontar as pessoas com os factos, isso já não está ao alcance de todos...


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