domingo, 17 de março de 2013

A eterna questão dos limites administrativos...


É um tema fracturante na sociedade portuguesa, o qual mexe com todos, podendo até estragar amizades entre vizinhos. Nós, geógrafos, somos privilegiados, já que temos a sorte de estudar temas como este e perceber ainda melhor as especificidades deste nosso Portugal. A nossa história é a chave para a percepção desta questão, contudo, e mesmo tendo a chave na mão, nada é garantido quando se pretende abrir portas...
Quando conversamos com pessoas que têm outras profissões, vêm ao de cima questões pertinentes, como a que surgiu há uns dias, quando conversei com um economista. Isto a propósito da região Leiria e da região Sicó. Este, pegando na questão Pombal, dizia que era região de Leiria, enquanto que eu dizia que era a região de Sicó. A sua fundamentação tinha como base os limites administrativos do distrito de Leiria, enquanto que eu fundamentava com os limites naturais da região de Sicó. 
Não ligo demasiado aos limites administrativos, já que estes não são imutáveis. Obviamente que ligo a estes na medida que os tenho de utilizar, mas sempre sabendo que os limites de hoje não são os de amanhã. No mundo natural não há esse problema, pois mais coisa menos coisa, os limites são sempre os mesmos, livres de vontades alheias. No mundo natural o problema é a escala.
Na região de Sicó há realmente curiosidades curiosas (passe o pleonasmo). Esta fotografia representa o expoente "máximo" de um complexo problema de limites administrativos. O lugar de Casas Novas é uma "ilha administrativa", a qual está à deriva entre os concelhos de Ansião (a Oeste, Sul e Este) e Penela (a Norte). Para quem não sabe, este lugar pertence a Soure, facto que ainda passa despercebido a muita gente da região.
Mas não só, já que a região de Sicó está "espalhada" por 4 NUTS III (Baixo Mondego; Pinhal Litoral; Pinhal Interior Norte; Médio Tejo), isto se formos ao limite do que é afinal a região de Sicó, no domínio do carso.
Mas ainda há mais, já que esta nossa região pertence a 3 distritos, sendo eles, Coimbra, Leiria e Santarém, indo também ao limite do que é afinal a região de Sicó.
Este ano será particularmente complicado, já que a questão "freguesias" irá levantar-se de uma forma bem mais apaixonada do que até agora. Em Ansião, realidade que conheço melhor, são duas as freguesias que se vão extinguir, Lagarteira e Torre de Vale de Todos. Apesar de já ter falado com algumas pessoas, não falei ainda com as suficientes para perceber até que ponto as pessoas concordam. Na Lagarteira penso que as opiniões são favoráveis, quanto à Torre, não tenho uma real ideia. Quanto à primeira concordo, já quanto à segunda, não tenho ainda uma ideia bem formada. Para mim o importante é as pessoas concordarem, muito embora saiba bem que nesta questão dos limites administrativos, a coisa não costuma ser propriamente racional, mas sim emocional. 
No caso de Alvaiázere, são também duas as freguesias que vão desaparecer. Este é igualmente um caso que conheço, até porque já lá trabalhei. No caso de Maçãs de Caminho, concordo. No caso de Pussos e Rego da Murta, irá surgir uma nova freguesia, denominada por Pussos São Pedro. Não concordo com esta solução, pois, a ser, o nome da nova freguesia poderia ser Cabaços. Penso que isto não aconteceu porque houve interesses que se mexeram para impedir de alguma forma que Cabaços de afirme, já que afinal Cabaços acaba por ter mais peso do que Alvaiázere. Isto significa que há gente que tem receio que Cabaços se sobreponha a Alvaiázere, algo que só é compreendido por quem lá passa uns tempos e se apercebe das jogadas, numa espécie de geopolítica feita por um aprendiz de autarca.
A ver vamos como vai ser esta questão da reorganização administrativa. Estou curioso para ver o que vai sair, no final, disto tudo. Lembremo-nos que este ano é de autárquicas, daí a panela ir ferver...
Enquanto geógrafo sou racional nestas coisas, não me deixando levar pelo emocional. Apesar de saber que o importante é a vontade das pessoas, sei também que muitas vezes a vontade é uma coisa que não significa per si algo de positivo e de coerente. Como disse no início, os limites administrativos não são estáticos, goste-se ou não. Quanto a outras freguesias que não falei neste comentário, a ver vamos como vai ser...

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