quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O lado errado da coisa...


Os tempos mudam e as vontades também, no entanto nem sempre ambos mudam no bom sentido. Isto acontece porque cada vez mais a sociedade é manipulada por interesses muito poderosos, os quais tentam controlar tudo o que fazemos, desde o que comemos até ao que fazemos no nosso dia-a-dia. O intuito é simples, há que consumir e consumir para sustentar o insustentável. Com isto perde-se muito do que é realmente essencial em favor do que é supérfluo. Falta a ética, a moral e tudo o mais.
Continuamos a tolerar passivamente a corrupção e a nos deixarmos guiar por gente à qual só interessa o lucro. A agonia de uma crise que surgiu da falta de ética e moral, que levou à tal crise financeira, tem levado ao desespero de muitos, infelizmente cada vez mais.
Não venho aqui para alimentar esta agonia, venho sim para dar ânimo e esperança, pois é essa que nos faz mover. Para isso pego numa fotografia que diz muito, no entanto falta a muitos o saber ler o que está por detrás desta janela, daí verem a coisa de uma forma redutora e simplista.
Já lá vão os tempos em que as povoações se instalavam próximo de terrenos bons para agricultar, tempos sábios esses. Hoje em dia, em nome do dito desenvolvimento, as pessoas são quase que instigadas a instalar-se precisamente em cima destes terrenos com boas aptidões agrícolas. Isto acontece num tempo em que supostamente quem manda é a dita sociedade de conhecimento. Falo claro num contexto como é o da realidade da região de Sicó.
De sabedoria estes tempos pouco têm, pois o que impera não é nem a sabedoria nem mesmo a inteligência, o que conta é ir em frente e depois se vê, pensa-se no imediato e esquece-se o depois. Quando certas pessoas, como por exemplo eu próprio, alertam para alguns factos importantes, uns novos outros nem por isso, surge logo alguém a dizer que o que interessa é o desenvolvimento, mesmo sem que saiba o que afinal é o desenvolvimento. Continua a confundir-se o crescimento, muitas vezes irracional  e ilógico, com o desenvolvimento, quando nunca se pode confundir os mesmos. 
Na última edição de 2011 do Jornal de Leiria, tentei de alguma forma mostrar isto mesmo, vindo agora reforçar o que aí disse. Andamos a cometer um erro crasso, o de ver a coisa do lado errado, daí a pertinência da coisa. Olhamos para nós próprios e não olhamos em nosso redor. Olhamos para o supérfluo e não olhamos para o essencial, o património, seja natural, cultural, etc.
A fotografia que acima podem ver tenta mostrar isso mesmo, o facto de andarmos com as voltas trocadas. Cada vez somos mais dependentes do supérfluo e cada vez nos afastamos de algo tão importante como é a terra, a agricultura. É um erro andarmos a concentrar tanta gente nas cidades. Já repararam que numa cidade somos 100% dependentes dos outros?
No campo isso não acontece, somos apenas parcialmente dependentes. O bom da crise é que ela está a reeducar as mentalidades, ganhando com isso todos nós. Não estou com isso a dizer que é mau viver numa cidade, estou sim a dizer que é mau a maioria da população estar a viver nestas.
Cada vez menos jovens sabem ser desenrascados, quem daqui é sabe bem do que falo. É no contacto com as coisas reais e importantes que se aprende na escola da vida. O pequeno gesto de meter as mãos na terra é muito maior do que aquilo que muitos possam imaginar.
É preocupante ver que todas aquelas competências, potenciadas pelo "desenrasque" e o conhecimento do campo/rural, têm vindo a desaparecer com as gerações mais novas. Preocupante também é saber que a bela paisagem que temos não terá, no futuro, gente capaz de a moldar de forma sábia, pois desaparecendo o conhecimento ligado à agricultura e outras actividades ligadas ao campo, desaparecerá parte da beleza da paisagem de Sicó. O que molda actualmente a paisagem começa a ser quase que apenas o interesse de interesses económicos predatórios, o que evidentemente tem e terá impactes muito negativos.
Não damos o devido valor à terra e ao conhecimento associado e isso pode custar bem caro a todos nós. Obviamente que tenho esperança, é isso que me faz mover, daí instigar à reflexão sobre algo de tão importante, a terra. É precisa uma nova ruralidade, o que não significa retroceder no tempo, muito pelo contrário. Uma das coisas que mais me preocupa é a perda de soberania alimentar. Solução? Simples, olhem para a janela e pensem pelas vossas cabeças. Quem manda nos que comemos e no que fazemos somos nós e não um qualquer gestor de uma multinacional que representa interesses que nada nos interessam!
As coisas não são complicadas, lembrem-se que somos nós próprios que complicamos. Os episódios, cíclicos, de crise, ensinam, resta aprender a lição para mais tarde não voltar ao mesmo...

Sem comentários: