sábado, 11 de abril de 2009

A trágica perda de identidade na região de Sicó: dois exemplos práticos

É talvez o que me incomoda mais quando se fala em questões patrimoniais, já que é algo de fundamental quando se fala na nossa região. A identidade própria da região de Sicó é algo de muito valioso e algo que nos diferencia de outras regiões de Portugal. Desta fora é algo que, se bem gerido, pode reverter em benefícios económicos por largos anos.

Quem me conhece, sabe que não só me interessa a componente ambiental da região, mas também a sua identidade cultural, por isso falo em temas tão diferenciados neste blog de forma a todos vós possam ser alertados para a defesa deste património valiosíssimo, o qual se estivermos minimamente atentos podemos observar um pouco por toda a região.

A região onde vivemos, o seu aspecto, é o reflexo de séculos de interacção homem/meio, sendo uma das mais relevantes regiões de Portugal neste domínio, já que é mais do que muitas uma paisagem cultural, algo que interessa proteger e valorizar de modo sustentável.

Infelizmente cada vez mais e na ânsia de trazer desenvolvimento à região, observo cada vez mais a destruição de muita desta identidade que nos diferencia pela positiva de outras regiões. Autarcas sem preparação mínima e com versões estereotipadas de desenvolvimento trazem não o desenvolvimento à região, mas sim a sua descaracterização cultural. As populações, por seu lado não têm a informação necessária para poderem percepcionar esta e outras questões, e , por isso, nem se apercebem do que se está a perder, só anos após certos factos ocorrerem é que finalmente percebem que se perdeu algo de importante, mas aí já é tarde demais (já para não falar em populações que são manietadas por autarcas que são autênticas ameaças à identidade cultural da região, caso do meu amigo Paulo Tito Morgado - pelas situações que já todos conhecem).

Por isso, e de forma a fazer a ponte entre a ciência e o cidadão, faço questão de vos mostrar e descrever problemas concretos que apenas contribuem para que a nossa região esteja muito aquém do seu potencial efectivo. Este é o principal objectivo deste blog, de uma forma simples e concisa trazer ao vosso conhecimento factos importantes e de uma forma imparcial, longe de interesses pessoais.

Tenho agora dois casos concretos do que falo, um já consumado e outro por consumar, representam na perfeição o que é afinal a perda de identidade regional. O primeiro exemplo situa-se num lugar chamado Cabeça Redonda, em Penela, e nestas duas fotos mostro-vos o antes e o depois de uma acção que considero muito infeliz na temática da preservação da identidade regional. A Cabeça Redonda é um lugar que ainda preserva características únicas em termos de identidade, muitas casas antigas e tradicionais, bem como caminhos de calçada, um elemento identitário que começa aos poucos a escassear. A calçada portuguesa é um dos muitos elementos culturais em que Portugal se destaca, são vários os livros que destacam este pormenor.

Neste caso específico, não compreendo porque é que sendo um lugarejo tão peculiar, se destruiu esta calçada, alcatroando de seguida o pouco amigo do ambiente alcatrão, tudo bem que a estrada precisava de ser arranjada, mas isso fazia-se com a calçada e não com o alcatrão!. O mais provável é a autarquia de Penela dizer que é mais barato, mas isso não é justificação tendo em conta um património e identidade que urge preservar. Não compreendo como é que os autarcas dizem que a região tem características únicas e depois com acções como esta destroem estas mesmas características. Além disso em ano de eleições alcatroa-se tudo o que ainda não foi alcatroado...

Se fosse numa grande cidade onde o número de carros é elevado (algo que tem reflexos numa destruição precoce deste tipo de piso) compredendia, mas sendo num lugar com identidade própria e sendo numa estrada com pouco mais de 300 metros é algo de inadmissível! Além, claro dos ridículos muros em blocos a tapar os tradicionais muros de pedra.

Ficam as fotos do antes e do depois:





Outro exemplo, ainda por consumar, passa-se em Ansião, onde um belo caminho antigo que poderia estar incluído num belo percurso pedestre, irá a muito curto prazo ser literalmente destruído para uma estrada florestal, sem que para isso haja necessidade, antes de mais fica um pequeno vídeo (que tive de colocar no youtube) e depois passo ao comentário sobre o ocorrido:

http://www.youtube.com/watch?v=tzKYI2ttNEc&feature=channel_page

A questão dos tão falados caminhos florestais é uma temática muito complexa que levanta por vezes problemas muito graves. Há muitos locais onde os caminhos florestais podem e devem ser abertos, mas o que se observa é que muitas vezes estes caminhos são abertos a regra e esquadro, sem ter em conta vários aspectos, o valor patrimonial é um deles, já que só para vos dar um exemplo (que já abordei o ano passado) uma estrada florestal destruiu em Ansião parte de uma estrada romana... Será que vale tudo na abertura de estradas florestais, será que custa muito analisar o que eventualmente poderá ser destruído? Não me parece, especialmente tendo em conta que uma coisa é termos uma área de eucaliptais outra coisa é termos uma área de carvalhal, onde o risco de incêndio é manifestamente inferior. Claro que após esta frase algum sabichão vai dizer "mas o que é que ele percebe de risco de incêndio e de incêndios florestais?" Bem, é simples, sei o suficiente, pois além de profissional da área (os geógrafos são técnicos bem habilitados para trabalhar nesta área), sou bombeiro e consigo associar as duas coisas. Além disso o meu trabalho de final de licenciatura foi precisamente sobre prevenção de incêndios (na Serra de Aire) e já trabalhei na prevenção de incêndios. Portanto fica aqui a nota que falo com conhecimento de causa.
Nesta situação é inaceitável que se abra o estradão previsto, pois não há real necessidade, pode e deve-se sim fazer uma limpeza dos matos que o problema fica resolvido em boa parte, a outra resolve-se prendendo os incendiários e não os soltando depois dando-os como "tolinhos" (já para não falar nos interesses que se movem com a questão dos incêndios florestais...).

Porque é que não se analisa caso a caso e nestas situações não se faz a coisa com cabeça tronco e membros? É demasiado valioso o património que se anda a destruir de forma impune em alguns caminhos tradicionais e que poderiam ser um recurso económico, por isso esta minha chamada de atenção para este e outros casos.

Espero com esta linguagem ter conseguido passar a mensagem, colocando-vos agora uma questão crucial, será que querem o "antes" ou o "depois", qual deles representa a identidade regional?

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