segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O azinheiragate pelo Professor Doutor Mário Lousã

Transcrevo na íntegra um texto que o Professor Doutor Mário Lousã (ISA) escreveu acerca do caso das azinheiras, o seu currículo fala por si e este texto está simplesmente brilhante na minha humilde opinião:

«Ainda o atentado contra o azinhal da Serra de Ariques (Alvaiázere)
Por Mário Lousã*


Azinhais bons sobre calcários já são raros. Desenvolveram-se desta maneira pois quando os solos são de fraca espessura, mesmo que a precipitação seja elevada, a água das chuvas infiltra-se rapidamente através das fissuras das rochas pelo que as árvores vivem em condições de grande secura. A cobertura arbórea típica é assim de azinheiras nesta zona do País constituindo uma série endémica (exclusiva) do Centro de Portugal denominada Lonicero implexae-Querco rotundifoliae sigmetum. Uma série é todo um conjunto de comunidades que se sucedem no tempo evoluindo para uma etapa, geralmente arbórea, em equilíbrio com o meio. Quando os solo derivados do calcário têm maior espessura a formação arbórea característica é de cercal, muito abundante no Centro do nosso País. A azinheira é uma espécie protegida da nossa flora.
Além disso naqueles azinhais aparecem importantes comunidades, especialmente de orquídeas, que constituem um habitat prioritário de conservação. O Sítio de Importância Comunitária da Rede Natura – Sicó-Alvaiázere - está razoavelmente bem preservado pelo que, devido às características próprias dos seus litossolos, foi incluído na Rede de Sítios a conservar pois ainda tem algumas boas formações arbóreas autóctones semi-naturais.
O azinhal da Serra de Ariques está em zona de baldios. Segundo a Lei 68/93 de 4 de Setembro “os baldios são terrenos possuídos e geridos pelas comunidades locais, que são constituídas pelo conjunto de moradores de uma ou mais freguesias que, segundo os usos e costumes, têm direito ao uso e fruição do baldio.” A exploração destes azinhais é portanto para beneficio das populações que ali habitam o que não nos parece que seja o caso. Então para que é que seria a destruição levada a efeito? Para proteger a população dos fogos? Mas as populações estão relativamente longe. Mas para quê? Para abrir o azinhal depois de um fogo sofrido há alguns anos? Mas porquê só agora? Para limpar o azinhal? De quê? Para ser mais uma porta de entrada para a colocação de lixos das construções, de utensílios que se estragaram, de pneus ou de cartuchos de caçadeira? Não será antes para justificar uma batida aos javalis realizada no dia 19 de Janeiro conforme os cartazes afixados em Alvaiázere! Que benefício para as populações da Serra de Ariques trouxe este evento? Pensamos que nenhum. Percorremos há uma semana todo o estradão (há outro aberto há uns anos atrás mas mais pequeno e possivelmente com os mesmos fins) e vários ramais até ao local onde abruptamente pára, devido possivelmente ao alarido que esta notícia estava a provocar. Fizémos a contagem do número de azinheiras abatidas entre pequenas, médias e grandes e totalizavam alguns milhares de exemplares. Ainda vimos azinheiras grandes cortadas com os ramos por cima da base dos troncos. Para esconder o quê? E outras grandes cortadas que o estradão passou por cima. E quantos lapiás (rochas calcárias de grandes dimensões isoladas entre si) destruídos? Se, como diz a Câmara Municipal de Alvaiázere nas notícias, que tudo era legal então porque pararam a continuação da abertura do estradão? Ainda havia azinhal para “limpar”!...
Quem terá autorizado esta mortandade? Que serviços oficiais? Esperemos que alguém seja chamado à responsabilidade!...
Não valerá a pena preservar o que de melhor, mais característico e com mais potencialidades existe no concelho de Alvaiázere? Em todo o Mundo procura-se conservar a natureza pois o turismo, no próximo futuro, é o do Ambiente. Muito países já viram isso. Em Alvaiázere estraga-se! Mesmo em concelhos limítrofes do de Alvaiázere procura mostrar-se o que a natureza tem de melhor através da construção de trilhos de observação do património. Em Alvaiázere nada e ainda por cima se estraga. Outros concelhos não tão ricos em património natural gostariam de ter o que tem Alvaiázere! Aqui os responsáveis ainda não se aperceberam!
Felizmente há algumas pessoas no concelho de Alvaiázere que tentam conservar o património natural para legar aos nossos descendentes uma natureza equilibrada e auto-sustentável. Infelizmente a maior parte das pessoas ainda não pensou nisso ou nem sequer está interessada. Será na próxima geração que isso acontecerá? Ainda se irá a tempo?

* Professor do Instituto Superior de Agronomia»


http://www.al-baiaz.web.pt/
http://www.isa.utl.pt/home/node/373

Depois de lido este texto, elaborado por uma pessoa que além de ser profundo conhecedor de Alvaiázere e da Serra de Ariques é nada mais nada menos do que uma das mentes mais brilhantes da Botânica em Portugal, apenas posso dizer que há em Alvaiázere "alguém" que anda a engolir um sapo do tamanho do mundo! As coisas estão à vista e a verdade marcha....
Parece que o "aprendiz de ambientalista" (como ele carinhosamente me chamou) está a dar-lhe cartas e a dar uma grande lição de vida!!
Como diria Fernando Pessa:
E esta hein?!

1 comentário:

Isabel disse...

http://rabiscosdeluz.blogspot.com/2008/02/sementes-do-futuro.html

:) Boas notícias que - desconfio - já devem ser do teu conhecimento!